Achados

Adriana, você não se cansa dessas viagens longas?

por Adriana Setti em

 

Nos últimos cinco anos, fiz cinco viagens longas. Foram nove meses na Ásia em três etapas e cinco meses entre México e América Central em duas empreitadas. Nas rodinhas de amigos, esse assunto gera reações das mais diversas. Uns acham que tenho a vida que todo mundo pediu a deus. Outros, que sou uma espécie de neohippie pós-moderna supermaluca. Cabeças mais analíticas buscam razões mais profundas: “ela foge dos problemas que não quer resolver”. Almas capitalistas fazem cálculos imaginários tentando saber como as minhas contas fecham.

 

Palpites e opiniões à parte, todos perguntam: você não se cansa?

 

Talvez um dia eu canse de focar a energia nisso (qualquer dia vou contar pra vocês como é a minha vida para que eu possa fazer essa “loucura” uma vez por ano). Mas as viagens longas em si não precisam ser cansativas. Ou melhor: viajo com tempo justamente porque gosto de viajar com calma.

 

Ao invés de saltar entre 10 países diferentes porque tenho três meses, prefiro investir todo esse tempo em conhecer melhor um país ou uma região. Quando gosto, me permito ficar quinze, vinte dias em um lugar só, como se quisesse ter uma mini vida em cada cidade que amo.

 

Numa viagem de uma semana, saímos de casa com uma certa programação mental. Quando temos quatro meses pela frente, a fórmula é outra. Você se prepara para desconectar por mais tempo, para tentar sentir menos saudades de tudo e de todos, para pensar nas alegrias e nos problemas do seu dia a dia com menos frequência. Não me perguntem exatamente como faço isso. Mas funciona.

 

Quando meu irmão era pequeno, teve um ataque de chatice durante uma viagem familiar ao Rio de Janeiro. Minha mãe se desdobrava para entretê-lo e, quando achávamos que estaria no auge da empolgação, ele soltava a pérola: “qué i pa casa”. O “qué i pa casa” é uma piada interna da família até hoje. Nessas minhas longas andanças, só entrei no modo “qué i pa casa” nos últimos dias da viagem.

 

E do que eu sinto saudades quando, finalmente, canso? Da família, dos amigos, do cheiro do meu travesseiro, do meu banheiro… Mas tudo isso é óbvio demais, certo? Entre as saudades inesperadas reina a da delícia de ter um dia sem absolutamente nenhuma grande emoção ou decisão a ser tomada (você já pensou em quantas pequenas coisas tem que decidir ao longo de uma viagem?).

 

Materializo esse estranho sentimento com a imagem de estar atirada no sofá, embaixo das cobertas, vendo qualquer besteira na televisão, praticamente lobotomizada – e sem me sentir culpada por causa disso. Simples assim. Deve ser porque viajar também é aprender a curtir as coisas que parecem insignificantes no nosso cotidiano.

 

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Comentários (10)
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  • Por: Carmen L.
  • -
  • 22 de abril de 2012 at 13:31

Como minhas férias são tão curtos que eu nunca consegui sentir o desejo de estar lá, atirada em meu sofá. Mas eu gostaria de sentir esse estranho sentimento…

  • Por: Marcia Setti
  • -
  • 20 de abril de 2012 at 16:41

ahahahahah!!!! qué i pá casa!!!
Num momento de extrema chatice o Dani conseguiu inventar um dos nossos melhores “códigos secretos” familiares. Mas já não é mais secreto, né???
beijos
Mom

  • Por: Patrícia Almeida
  • -
  • 12 de abril de 2012 at 10:09

Adriana, o excelente é que você é viajante profissional, ou seja, ganha dinheiro a partir do que conhece, visita e faz durante as viagens. Você não precisa parar de viajar para voltar ao trabalho e ganhar mais dinheiro para seguir viajando. Isso é pefeito, embora só se aplique a um percentual ínfimo das pessoas que gostam de viajar. Meu caso é diferente. ADORO viagens longas, mas o meu mais longo são, no máximo, 40, 50 dias e aí tenho de voltar ao trabalho. A rotina fora de casa é muito boa, os problemas seguem acontecendo e você nem aí, só participa deles se der para resolver pela Internet. O trabalho para mim cada vez mais tem sido “aquele período chato mas necessário entre a viagem passada e a próxima”. Admiro e invejo bastante sua vida desapegada. Só não sei o que você vai fazer se e quando resolver ter filhos. Digo isto porque esta é minha atual fase. Soube ontem que estou grávida de seis semanas. Felicidades à parte, já fiquei meio reflexiva sobre como vai ser minha vida sem viagens durante a segunda metade da gestação + o período de amamentação. E mesmo depois. Apesar de cada vez mais ver blogs de gente que viaja com crianças, nunca foi a minha praia. Sempre tive meu próprio ritmo e criança muda muita coisa que eu, sinceramente, não sei se estou pronta para aturar. Os avós já não são tão jovens assim, então talvez não dê para deixar com eles por um mês ou dois. E minhas amigas só fazem dizer que “eu vou ser mãe, não vou mais querer saber de viajar”. Quem só viaja por dez dias de pacote para EUA e Paris não consegue entender a importância de conhecer o mundo para quem gosta de viajar. Não sei mesmo como vai ser (e estou com um peso na consciência enorme por estar pensando nisso mesmo quando todo mundo acha que eu deveria estar radiante porque vou ser mãe).

Sempre que puder compartilhe conosco esses seus bastidores. Como você faz para pagar contas, ganhar dinheiro, resolver problemas, planejar viagens. Ajuda muito.

  • Por: Neusa
  • -
  • 11 de abril de 2012 at 16:08

Sempre fui amiga de ficar num lugar e mergulhar na rotina local, fiz isso em Paris, 4 meses e descobri que qualquer curso extra que fizer te da o orange card com desconto em tudo e ainda paga almoco de estudande na cantina do Mabilon, o cara da feira e da padaria ja me conhecia pelo nome assim como a dona da banca de jornais. Fiz isso tambem na Inglaterra e Alemanha. Deixo as ultimas duas semanas pra fazer turismo.

  • Por: Andrea
  • -
  • 11 de abril de 2012 at 13:58

É impressionante que, mesmo após tantas viagens e para tantos lugares diferentes, vc ainda consiga sentir e expressar sensações comuns a quem faz o mesmo que vc, ainda, por um mês, uma vez por ano. Os relatos me fazem seguir em frente com meus planos de ir morar em outro país. Parabéns. Seus textos são sempre muito bons e suas dicas já me ajudaram muito qdo fui à Espanha. Tudo de bom!!!

  • Por: Claudia
  • -
  • 11 de abril de 2012 at 12:25

Nao sei se voce tem a vida que todo mundo pediu a Deus, mas tem a que EU pedi. Passei 1 mes inesquecivel no Mexico, nao fui somente a Cancun, que alias foi o lugar que menos gostei…
Ja passei 4 meses viajando pela Asia e Australia. E sempre ja tenho a proxima viagem em mente.
Meus amigos me perguntam: vc nao cansa de viajar, de ficar longe de casa? Nao, eu amo viajar, minha casa eh o mundo!!!
Pena que tenho que voltar a realidade, trabalhar, juntar uma grana para depois me deliciar em mais uma longa viagem!!!
Vc esta certa, viajar eh a melhor coisa do mundo. Aproveite e continue enviando essas preciosas dicas. Bjus.

  • Por: Jussara
  • -
  • 11 de abril de 2012 at 12:04

Acho que viagens longas propiciam viajar com calma mesmo, e isso é muito legal, pois fazer maratona em viagens curtas é bem cansativo e chato. Continue aproveitando.
“Deve ser porque viajar também é aprender a curtir as coisas que parecem insignificantes no nosso cotidiano.” Perfeito.
Bjs.

  • Por: Mari Campos
  • -
  • 11 de abril de 2012 at 11:43

Divino, Dri; me identifiquei muitíssimo em cada parágrafo – exceto na saudade do travesseiro, que não tenho. Não sou muito de viagens longas, mas sou sempre de muitas idas e vindas. E, claro, também rola aqui: “Uns acham que tenho a vida que todo mundo pediu a deus. Outros, que sou uma espécie de neohippie pós-moderna supermaluca. Cabeças mais analíticas buscam razões mais profundas: “ela foge dos problemas que não quer resolver”. Almas capitalistas fazem cálculos imaginários tentando saber como as minhas contas fecham.” :D Delícia ler um texto que eu mesma poderia ter escrito – não assim tão lindo e divertido, é óbvio, mas algo parecido ;)

  • Por: Mari Vidigal - Idéias na mala
  • -
  • 11 de abril de 2012 at 10:23

Que linda Dri.

  • Por: mauricio
  • -
  • 11 de abril de 2012 at 10:14

Adri, vc tem a vida que todo mundo queria, faça como vc já faz, aproveite. beijos.