Achados
Momento Alexandra Forbes: um jantar no Comerç 24, do chef Carles Abellan, em Barcelona

Ainda tenho que comer muita espuma de bacalhau com pozinho de azeite de oliva para dar uma de critica gastronômica sem passar vexame. Mas calhou da gulosa profissional Alexandra Forbes, lá do Boa Vida, falar maravilhas do Comerç 24 (veja o post), do chef Carles Abellan, pouquíssimos dias antes da reserva que tinha para jantar lá. Foi o que faltava para ter certeza de que meu jantar seria digno de ser compartilhado com vocês, leitores. Alê, depois você me avisa se eu disser alguma besteira.
No post da Alê Forbes, que é sobre os discípulos do Ferran Adriá que abriram casas em Barcelona, ela apresenta o cozinheiro:
O Carles Abellan, com sete anos de El Bulli nas costas, resolveu voltar pra Barcelona. Hoje, é dono do excelente Commerç24, que faz um sucesso louco. A especialidade é o Kinder Ovo, que leva ovo mole, espuma de batatas e trufas (Alê, não encarei o Kinder, por mais especialidade que fosse. Como sushi de urubu mas não ovo mole, tenho uma espécie de ovomolefobia).

O lugar é lindo: logo na entrada, um balcão preto que os copos, porta-velas e garrafas (a água servida por lá é a deliciosa Solan de Cabras, que tem uma garrafa azul de vidro divina). Como o ambiente é escurão, a cozinha, que tem paredes amarelo-cheguei, fica bem destacada ali no fundo. O ambiente no balcão é super informal: um povo bem jovem e desencanado. Tinha gente vestida como se estivesse vindo direto da praia, de havaianas e tudo (ai como eu amo esse jeitão desafetado da galera aqui de Barcelona!).

O salão principal é surpreendente. As paredes são decoradas com duas fotografias gigantes e dois lustres enormes – fantásticos – feitos com pratos de bateria dão uma distribuída curiosa na luz. Sentamos (mami e eu) numa mesa bárbara, encostada na janela que dava para a Carrer Comerç (adivinha em que numero da rua fica o restaurante? An? An?), no bairro do Born.

Antes da festa começar, o maître se desculpa, quase de joelhos: “perdão, mas aquela lâmpada queimou hoje a tarde e não tivemos como trocar”. E aponta para uma lampadazinha láááá em cima. Tolinho, se ele não dissesse nada eu jamais me daria conta. Uma luz linda entrava da rua, iluminando a mesa perfeitamente.
Com a mesma sinceridade e sensação de culpa, peço desculpas pela qualidade pífia das fotos. Sou gulosa demais para focar os pratos com calma antes de atacá-los. E o resultado… já viu.
A orgia começa com uma degustação de azeites de oliva de diferentes denominações de origem. Por mim, só essa parte já valeria a investida. Sou uma fã desesperada dessa iguaria dos deuses, e amo apreciar cada diferença entre as variedades: picual, arbequina… viva a Espanha!

Depois, chegam os snacks. Umas maravilhosas azeitonas recheadas com anchovas (nada mais espanhol), macadâmias com ouro (Alê, há alguma chance disso ser ouro de verdade? Perdoe a minha ignorância), cortezas de porco (vulgo, baconzitos) com guacaina (um molho típico peruano, picante, divino), grissini com pesto e um deliciooooooso barquinho de parmesão que desapareceu na boca sem que tivesse que mastigar.

Na seqüência, o negócio começa a ficar mais sério: cavala marinada com cítricos e um tartar de atum com vinagrete de ovo. Engoli em seco quando ouvi a palavra “ovo” e vi aquela coisa molinha amarela. Mas o prato foi uma das melhores coisas do jantar.
M-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o. Será que eu deveria ter encarado o Kinder?

Em seguida, uma típica criação de cozinheiro maluco catalão: uma versão high-tech do típico melão com presunto. O melão vem na forma de uma bolha e explode ao ser mordido, espalhando um suco gelado na boca. Já o presunto, vem crocante, coberto com uma crostinha caramelizada.
E chega a seguinte dupla de pratinhos: um ravióli de sépia (que é uma prima da lula) com colmenillas (uma espécie de cogumelo) e alcachofras com bacalhau (em forma de espuma cremosa, por que afinal de contas estamos na Catalunha). O ravióli literalmente explodiu na minha boca (uma gotinha passou sem pedir licença e foi direto para a minha goela). Um susto, mas uma delícia.

Lá vem mais um. Arroz negro de sépia (ela, de novo). Mas dessa vez a bichinha vem em forma de talharim por cima do arroz. O arroz não era muito diferente do que se come por aí (arroz negro é tão típico quanto paella). Mas a apresentação… um show. Tá vendo esses risquinhos verdes do lado do prato? É um creminho de salsinha, gostosíssimo.

O gran finale dos salgados: não parece uma taça de mousse? Pois é rabo de touro!!! Sim, crostinhas de rabo de touro com purê de couve-flor. Espetacular! Ferran, você encaminhou bem esse menino Carles!
Dá uma tristezinha quando acaba a parte salgada do menu degustação. Não dá, Alê?

E lá vem a sobremesa: sopa de tangerina com maracujá e menta, iogurte com muesli e maracujá e uma seleção de pequenos docinhos (essa aí da foto). Uma versão da bolacha Oreo com gergelim negro e baunilha quase rouba a cena. Mas o pão com chocolate, azeite de oliva e sal fecham com chave de ouro o jantar.
O menu Festival custou 68 euros por pessoa.
Comentários (11)
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- Por: Dri Setti
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- 1 de agosto de 2008 at 0:08
Oi, Priscila. Eu fico estarrecida com os preços em São Paulo. Hoje em dia conta de boteco dá 100 reais por pessoa. Claro, esse preço era sem bebidas. Mas daí é que você vai ficar triste mesmo: tomamos um Nita 2006 do Priorat por 18 euros… Sim, do Priorat!
- Por: Dri Setti
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- 31 de julho de 2008 at 0:07
Aaaann! Então aquilo que é a tal da esferificação? Agora que você disse, lembrei que o tartar de atum também veio com umas bolinhas fantásticas. Pois é, conheço as ostras do Quique. Aliás, morro de vontade de comer lá, pena que é meio fora de mão. Então quer dizer que eu comi ouro???
- Por: Dri Setti
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- 31 de julho de 2008 at 0:07
Relaxa, Maryanne, antes de servir o menu, eles perguntam se você tem alguma restrição, algo que não curta… E também é possível pedir as tapinhas do cardápio ao invés do menu degustação. Você tem toda a razão, o preço não é assustador se comparado a Paris. E o Brasil também anda caro demaaaaaaaais! Beijos.
- Por: Alexandra Forbes
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- 31 de julho de 2008 at 0:07
Dri, primeiro o Riq, agora vc., to achando q to “gourmetizando” a galera!!! A-do-rei. O ouro eh ouro de verdade, sim, q eu acho uma besteira, alias, ja q ouro nao tem gosto de nada. O Quique usa prata, nas ostras guggenheim dele, q parecem – adivinhem – o famoso museu. Outro comment: o “caviar” de melao eh plagiado do El Bulli, foi o primeiro “caviar” q o Ferran fez, na verdade, suco de melao esferificado. To aqui babando, e morta de inveja – quero eu morar em Barcelona e jantar no Commerc 24! bjos
- Por: Priscila
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- 31 de julho de 2008 at 0:07
Definitivamente, devo estar morando na cidade errada (moro em São Paulo). 68 euros por um menu degustação desse nível, deixa ver, ao câmbio de hoje, dá uns 170 reais. Semana passada fui a um restaurante da moda aqui em SP, dividi dois pratos (comida étnica, aqueles pratos feitos pra dividir). Não tomamos vinho, apenas dois drinks de vodka cada um. Não comi mal, mas não comi bem. Achei previsível, sem capricho. A conta? 145 reais por pessoa. Tem muuuuuito restaurantezinho metido a besta servindo comida apenas mediana aqui em São Paulo e cobrando preços estratosféricos. Pronto, decidi, vou pra Catalunha comer bem. Dri, esse preço era sem bebidas, certo? Mesmo assim, achei super justo.
- Por: Maryanne
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- 31 de julho de 2008 at 0:07
Ai meu Deus, to perdida da proxima vez que for a Barcelona. Meu marido vai querer ir nesse restaurante a todo custo e eu, nao vou conseguir comer metade das coisas servidas. Rabo de touro? Nem morta. Tb nao gosto nem de anchova, nem de bacalhau. Prefiro sushi de urubu(adorei, Adriana.Mas parece uma experiencia muito legal. O preço tb nao é nada assustador comparando com restaurantes estrelados em Paris e…em SP!
- Por: Alexandra Forbes
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- 31 de julho de 2008 at 0:07
Isso mesmo, Dri, as bolinhas sao a tal da esferificacao. O cozinheiro poe qualquer liquido num troço com furinho e ploc ploc ploc vai pingando o liquido num banho com uns pozinhos, e esse banho faz com q surja imediatamente uma pelicula em volta dos pinguinhos – caviar! O Ferran hoje em dia faz uma mega esferificacao, uma bolona de um azeite dos deuses, e quando o pingao cria a pele em volta parece uma azeitona. entao ele chama aquilo de azeitona mas qdo vc poe na boca explode e eh so liquido. delicious.
- Por: Bruno Agostini
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- 31 de julho de 2008 at 0:07
Eu comi aqui no Rio as tais azeitonas esferificadas num jantar no Cesar Park (que contei aqui). É incrível, porque tem mais gosto de azeitona que a própria azeitona – e não tem caroço. E, o que é melhor, explode na boca, untando a língua toda. Uma experiência incrível. Beijos

Estou completamente encantada com vc. Tudo que fazemos aqui em Barcelona é dica sua. Deveria ter uma pessoa deste tipo em cada grande cidade do mundo. Hoje almocei este menu sensacional e adorei ver a sua descrição para ficar um pouco mais a par do que comi. Meu marido é vegetariano e o menu surpresa dele foi mais maravilhoso, dá para acreditar? Se o restaurante abrisse amanhã, iríamos voltar para eu ter o prazer do Menu vegetariano. Sinceramente eu acho que vc deveria ter encarado o Kinder Ovo, foi inesquecível… Igualmente a rabada com mousseline de couve flor trufada. Meu Deus!Acrescentando… na espuma de iogurte vem a nossa brasileiríssima tapioca, só que numa versão crocante. E além do valor do menu vem a conta de duas porções de pão (para a maravilha dos azeites)à 10 EU. Em contrapartida, ontem almoçamos no MOO e foi tudo horrível. Eu daria 2 em 10 para os pratos. O menu vegetariano foi um pouco melhor, mas mesmo assim tinha coisas que não dava para comer. Uma pena. 01/11/08