Direto de Buenos Aires
A segunda livraria mais linda do mundo

Quando li pela primeira vez que tinham feito uma lista com as livrarias mais bonitas do mundo, logo pensei na Ateneo Grand Splendid. Isso antes de conhecer a escolha feita pelo jornalista inglês Sean Dodson do The Guardian. E não é que a livraria da Avenida Santa Fé estava lá, em segundo lugar?

Perdia somente para uma antiga igreja de 800 anos em Maastricht. Claro, aí já é covardia. El Ateneo foi montada em um antigo teatro, sendo que toda a arquitetura foi mantida basicamente intacta. É possível até sentar em um antigo camarote para folhear seu livro preferido.

O mais divertido mesmo é se sentar no antigo palco do teatro, agora transformado em café e ouvir, no final da tarde, músicas enquanto lê uma aquisição recente. É como voltar no tempo.

Quem veio a Buenos Aires e não passou umas horas no Ateneo, não sabe… bom, nem dá para falar o que está perdendo.
El Ateneo Grand Splendid
Av. Santa Fé, 1860
PS. A lista com as 10 melhores livrarias do mundo está aqui: http://www.guardian.co.uk/books/2008/jan/11/bestukbookshops
Porque es un Rrrrock and rrrrol

Ok, esse monte de erre é para tentar copiar o modo como os argentinos dizem rock and roll. Como foi um pedido logo no começo do blog (e como eu gosto muito de música também), vou contar sobre o primeiro show de rock que fui aqui na Argentina. Foi no final de dezembro, pouco antes do Natal. Saímos de Buenos Aires direto para a capital da província, La Plata. Uma cidadezinha sem grandes atrativos (a não ser a casa do governador), mas palco do último show do grande Indio Solari.
O cara enche, literalmente, estádios por toda a Argentina. E não foi diferente, dois shows (sábado e domingo) com 60 mil pessoas cada um. Alguns fãs são tão fanáticos que foram nos dois.
A trajetória do Indio Solari começa ainda nos anos 70. O rapaz viva nessa cidade de La Plata e conheceu “Skay” Beilinson, guitarrista. Os dois começaram a tocar e em uma viagem para Salta, ao norte do país, criam uma das bandas mais emblemáticas dos anos 80 e 90 na Argentina: Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota.
No começo, influenciados ainda por uma onda hippie-performática (Skay tinha vivido em uma comunidade hippie no começo dos 70), a banda é quase uma trupe com bailarinos, mestres de cerimônia e, claro, bolinhos de ricota ao final da apresentação. Quando termina a ditadura, a banda abandona essas apresentações e resolve gravar o primeiro disco, Gulp, em 1985.
A banda se concentra em Solari-Skay, sendo os dois os únicos membros que estão desde o começo e autores de quase todos os temas. Gulp foi produzido de forma independente e vendido em apenas algumas lojas porque o grupo quis controlar todo o processo. O que acabou se tornando uma marca registrada. Patricio Rey (e depois o Indio em carreira solo) nunca assinaram um contrato com uma gravadora.
No começo dos anos 90, principalmente por causa das letras de Solari que, segundo seus fãs “é a melhor tradução da vida de um jovem normal que vive na periferia de Buenos Aires e não tem muita perspectiva de vida”, a banda já atrai multidões. Sem patrocínios, sem divulgação massiva (a banda não grava clipes, não faz jabá, não aparece em programas de TV fazendo playback) e sem organização externa, eles começam a encher estádios de futebol por todo o país. E os problemas de violência também começam. Em um show, um jovem é preso pela polícia e aparece morto na delegacia.
Aos poucos, os Redondos, como são chamados, deixam de tocar na cidade de Buenos Aires (mas começam a fazer shows no Uruguai). Talvez seja uma decisão, talvez seja a falta de uma estrutura maior, no entanto, tirando Argentina e Uruguai, eles não são famosos em outros países da América Hispânica. Até que em 2001, chega a bomba: Skay e Solari vão se separar. Era o fim dos Redondos.
Logo, Solari monta outra banda, chamada Los Fundamentalistas del Aire Acondicionado e lança dois CDs, mantendo o aspecto independente que o marcou. “El tesoro de los inocentes (bingo fuel)” em 2005 e “Porco Rex” em 2007. O som é mais moderno do que o cru rock and roll dos Redondos. (Para quem quer uma comparação – levando em conta que todas as comparações são esdrúxulas – eu diria que os Redondos lembram uma fase mais roqueira do Barão Vermelho.)
Ah, quem vem para Buenos Aires pode encontrar os discos nas muitas lojas Musimundo que estão espalhadas pela cidade. São bastante boas. Agora deixo dois links para shows do Patricio Rey y sus Redonditos de Ricota (gravados da TV):
Jijiji
http://www.youtube.com/watch?v=auYGDBY0D3M&feature=related
e de Indio Solari solo:
Pabellón Séptimo
http://www.youtube.com/watch?v=7ktiEERonM8
Pelo underground de Buenos Aires

Há tempos eu queria fazer um passeio pela Manzana das Luces, mas estava esperando que eles voltassem das férias do fim de ano. E ontem, fomos para lá. A Manzana das Luces [Quarteirão das Luzes] está muito próximo da Plaza de Mayo e foi um dos primeiro edifício construído na cidade ainda no século XVII.
O nome começou a ser usado no começo do século XIX, depois da independência, porque diversos entidades educativas e culturais começavam a tomar conta daquele quarteirão. Os jesuítas já tinham sido expulsos do país em 1767.

Ali se instalou a faculdade de arquitetura. E toda a construção aconteceu em cima do velho prédio dos jesuítas, quase que escondendo completamente as paredes e a arquitetura original. Com a visita guiada, dá para descobrir que a famosa sala onde acontecia a aula magna da faculdade, tinha sido, na verdade, a sala da legislatura da província portenha nos anos 1820.
Depois de um período onde diversos organismos administrativos ocupavam suas salas, a cidade estava a ponto de derrubar todo o quarteirão quando uma Comissão Histórica foi formada. Aos poucos, a manzana foi retomando seu traçado original, prédios novos foram derrubados, paredes reconstruídas, pátios reapareceram e, é claro, a cereja do bolo (tanto que é deixada por último no passeio), encontraram-se túneis que conectavam a Manzana a diversos pontos da cidade.

Descemos e encontramos três ramais. Um ia dar direto no porto e no rio, outro para o centro (Cabildo e o que seria a Plaza de Mayo) e outro direto para a viúva do governador (não por nenhum motivo amoroso, mas porque era um ponto central da defesa da cidade – aliás, invadida duas vezes por ingleses). Mas ninguém vá esperando caminhar por quilômetros de túneis. São apenas alguns metros. O resto não existe mais por causa dos prédios que foram erguidos destruindo os túneis, mas também a cidade não teve mais dinheiro para continuar cavando.
Eles eram usados para contrabando e defesa, principalmente. Depois do passeio o bom é dar uma voltinha pelo mercado de las luces que fica na porta ao lado e onde se encontra todo tipo de artesanato.

Ainda dá para emendar também com um pulo à igreja de San Ignacio, na parte de trás do mesmo quarteirão, rua Bolívar. A igreja, a primeira da cidade, é bastante simples, mas possui um aspecto um tanto quanto aterrador (não recomendo passeios noturnos, mesmo se forem permitidos). O melhor de tudo é depois sentar com um portenho e contar sobre o passeio, a maioria nunca foi e nem sabe que existe essa jóia histórica!!!

Manzana de las Luces
Perú 272
Viagens guiadas: terça e quinta a domingo (15, 16:30 e 18h – 6 pesos)
A história contada por quem a viveu

Um passeio diferente para quem vem a Buenos Aires é mergulhar um pouco na história recente do país. A ditadura que tantos males causou a esse lindo país trouxe algo de bom: a Organização das Madres de la Plaza de Mayo. Surgida quando algumas mães corajosas começaram a se reunir nessa praça para reclamar informações sobre seus filhos desaparecidos, a organização tomou forma, cresceu, ganhou espaço internacional e hoje é um centro de formação importantíssimo.
A grande sede da Associação está localizada bem no meio da praça do Congresso (ao lado direito para quem olha em direção à Praça de Maio) e vale um pulo. Além de atividades culturais constantes (agora no começo do ano, muitas coisas estão lentas), há uma incrível livraria com muitos títulos dedicados à história argentina, aos processos de repressão na ditadura e às questões políticas, sociais do mundo todo.
Para quem sente saudades dos tempos em que andava com camiseta do Che e estrelinha vermelha, aqui ainda tem muito disso. As Madres também criaram uma Universidade Popular com cursos reconhecidos e por preços incrivelmente baratos e excelente qualidade. Também há muitos cursos de verão e oficinas curtas em várias áreas.
Se você tiver sorte dá até para conversar com uma senhora de pañuelo na cabeça; com certeza ela terá muitas histórias para contar. O prédio ainda conta com um restaurante onde uma refeição completa (menos a bebida) sai – pelo menos antes do recesso de fim de anos, ainda não voltei lá – por apenas 10 pesos.
As atividades culturais acontecem no espaço Nuestros Hijos, que possui um site específico (ver abaixo).
Associación Madres de Plaza de Mayo
Hipólito Yrigoyen, 1584
http://www.madres.org/index.asp
Espaço Cultural (inclui agenda)
http://www.nuestroshijos.org.ar/
Sombra e água fresca

Buenos Aires em janeiro. Não é para todo mundo. Pior que muitas cidades brasileiras de tanto calor que faz. Além de estar no nível do mar, sem praia, a cidade ainda é marcada por ruas geralmente estreitas, com calçadas ainda menores e prédios sem recuo (sem jardim).
Resultado: um forno. E o pior momento do dia é no final da tarde. A contraposição a isso, claro, é a grande quantidade de parques. Um dos melhores fica em Palermo: o Jardim Botânico. Só de ver as fotos eu fico refrescado.


Além das plantas, fontes e passeios, o Jardim Botânico (que completou 110 anos) é palco de muitas atividades culturais (abaixo a Semana de Leitura). Um passeio imperdível para o final de uma tarde de compras em Palermo.

Av. Santa Fé, 3951
