Blog Guia Quatro Rodas

Caipira e Gourmet

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As geleias e compotas do Kitanda Brasil - crédito: Chris Ceneviva

Carne de lata, leitão à pururuca, frango ao molho pardo, costelinha com ora-pro-nóbis…. Gonçalves, na Serra da Mantiqueira, reúne o melhor da cozinha mineira e ainda reserva uma cena gastronômica variada, com restaurantes que priorizam ingredientes de produtores do entorno. Com pouco mais de quatro mil habitantes, a cidade está cercada de sítios com trutários, roças, pomares e pastos habitados por vacas leiteiras. O sítio da Vilma, no bairro dos Venâncios, é um deles, mas que também funciona como restaurante – os franguinhos que ciscam ao redor das mesas e os porcos que você escuta a metros dali vão parar no bufê sobre o fogão a lenha da Vilma – caseiro, saboroso e fresquinho.

No estrelado Kitanda Brasil, a chef Tanea Romão só trabalha com produtos que estão a no máximo 200 km de Gonçalves – exceto alguns ingredientes especiais trazidos do Pará, como o cupuaçu e o taperebá, dois dos mais de 300 sabores que compõem a linha de geleias, chutneys e cremes produzidos na fábrica artesanal do restaurante (R$ 15, em média). Elaboradas com frutas que provêm de um sítio de Paraibuna, no interior de São Paulo, açúcar orgânico e pectina natural (substância extraída de maçãs que transforma a polpa em consistência de geleia), as compotas de Tanea têm sabor marcante. Quem já foi ao Kitanda já deve ter experimentado várias dessas combinações um tanto originais: geleia de framboesa com pimenta rosa, creme de cambuci com cachaça, geleia de frutas do bosque com massala…

Torresminho: couvert do menu-degustação do Kitanda Brasil - crédito: Chris Ceneviva

Biscoito de polvilho com geleia de pimenta biquinho, parte do menu-degustação do Kitanda Brasil - crédito: Chris Ceneviva

Bolinho de arroz com queijo do menu-degustação do Kitanda Brasil - crédito: Chris Ceneviva

As geleias e chutneys também aparecem nas receitas. No caso do torresminho, do biscoito de polvilho e do bolinho de arroz com queijo, servidos no couvert do menu-degustação (R$ 44), elas servem como guarnição. Em pratos como a costela de boi marinada em chutney de manga ou o medalhão de filé mignon com creme de chocolate e cachaça, elas fazem o papel de condimento. “Fui na contramão. Comecei a cozinhar por conta das geleias, pois queria mostrar que eram produtos para serem usados pra temperar as receitas, e não só como acompanhamento.”, explica Tanea.

Sabor agridoce: medalhão de filé mignon com creme de chocolate com cachaça - crédito: Tanea Romão

Uma versão tropicalizada do clássico creme inglês lemon curd, muito usado em confeitaria, feito de manteiga e ovos, os cremes de Tanea levam frutas brasileiras – cambuci, pitanga, araçá, uvaia, jabuticaba e juçara (o coquinho da palmeira, que tem a mesma cor do açaí) – e no Kitanda servem para incrementar sobremesas e realçar as saladas.

Não só para uso próprio, há mais de uma década Tanea faz as compotas para muitas marcas conhecidas, como a Casa Santa Luzia, a Loja do Chá (usa chás como temperos) e a Bombay, todos de São Paulo. Os sabores da marca Kitanda Brasil são vendidos no Empório Chiapetta, no Mercado Municipal da Cantareira de São Paulo, e em empórios de Brasília, Belo Horizonte e Goiânia. Mas se tiver a chance de ir até o Sul de Minas, vale mesmo é degustá-las nas receitas do menu-degustação, servido no sossegado quintal do restaurante. E ainda incluir no roteiro uma visita ao sítio da Vilma para provar a carne de lata, que consiste em pernil de porco conservado em banha numa grande panela de alumínio – uma embalagem que seria bem mais complexa de ser levada pra casa.

Por Marina Valle

Kitanda Brasil. R. Antonio Caetano Rosa, 217, Centro, Gonçalves, MG, (35) 3654-1417; (35) 9942-3620

Restaurante da Vilma. Estr. Serra da Balança, km 7, Bairro dos Venâncios (7 km de terra), Gonçalves, MG, (35) 9837-0896

Quando a nudez não é tão natural assim

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Praia do Pinho, em Santa Catarina / Foto: Juliane Massaoka

Por Juliane Massaoka

Cheguei à Praia do Pinho, no litoral de Santa Catarina, por acaso. Sabia que cedo ou tarde teria que ir até lá, pois estava na programação da viagem a Balneário Camboriú, mas não havia programado a visita para aquele momento. Estava indo da praia do Estaleiro para a Central pela Rodovia Interpraias (que liga praias vizinhas a Balneário) para almoçar, quando vi a entrada com bandeirinhas dizendo “Praia do Pinho, seu bem estar ao natural”. Resolvi parar para ver como era.

Apesar de bem sinalizada, a entrada para a praia não é livre. Um estacionamento na única área de acesso para carros tem cancela e cobra 10 reais antecipados. Paguei o preço e ganhei um folder explicando o naturismo: “um modo de vida em harmonia com a natureza, caracterizado pela prática da nudez social, que tem por intenção encorajar o auto respeito, o respeito pelo próximo e o cuidado com o meio ambiente”. Além disso, deixava clara a expressa proibição de qualquer ato de caráter sexual ou obsceno na praia. Dizia que é “proibido constranger, através de atitudes passivas ou ativas (olhares, gestos ou ações)”. Também havia a informação de que existe uma área de adaptação onde visitantes podem ficar com roupa, mas que na areia a nudez seria obrigatória.

Estacionei o carro sem pressa alguma. Pensei em  ficar na área de adaptação, apenas observando, mas logo percebi que não daria certo. O único bar ali estava vazio e, por causa da vegetação, não dava pra ver a areia. Tomei coragem e fui até o quiosque na beira da areia perguntar sobre o aluguel de cadeira e guarda sol. Mais 10 reais. Paguei.

O rapaz que estava ali me deu uma cadeira e uma toalha. “Todo mundo senta pelado nessas cadeiras, né? As toalhas a gente lava sempre”, disse. Depois desta informação animadora ele disse que levaria o guarda-sol pra mim. Fui andando, ainda vestida, pela areia para procurar um lugar. Decidi ficar entre um grupo de argentinos sessentões com homens e mulheres – o tipo de turista que lota Balneário Camboriú depois do carnaval – e um casal bem jovem. Coloquei a cadeira mais para trás e sentei.

Tirando a roupa

Chegou a hora. Para ficar ali teria que tirar a roupa. Ao contrário do que diziam as bandeirinhas, fazer isso não foi nada natural. Olhei para os lados, vi aquele grupo com senhoras e me senti um pouco melhor. Ali não havia nenhuma gostosona querendo se exibir, como acontece em muitas praias. Ali ninguém parecia ligar para celulite. Não tinha por que ter vergonha do meu corpo. Li e reli a definição de naturismo no folder. Natureza, respeito, meio ambiente… essa é a vibe. Sem caráter sexual, sem maldade. Ok. Aproveitei um momento em que ninguém estava olhando e tirei a blusa. Ninguém olhando. Foi-se o sutiã. Aí tirei as sandálias e fui tirar o shorts. Quando abri o zíper queria me enterrar na areia de tanta vergonha.

Acontece que nessa vida de viagens seguidas e pouco tempo para lavar roupas, as calcinhas vão ficando cada vez mais raras dentro da mala. Como é o tipo de peça que não dá pra repetir, numa emergência comprei um pacote em uma loja de departamentos. Desses pacotes que vêm com várias cores diferentes. Várias cores. E nesse dia eu estava usando qual? A amarela. Uma enorme calcinha amarelo-bebê, que mais parecia uma cueca. Mais um problema de ir à Praia do Pinho sem planejamento: por mais que seja uma praia de nudismo, é preciso escolher bem a roupa a ser tirada.

Bom, no fim das contas isso ajudou. Fiquei com mais vergonha da calcinha amarela do que de ficar sem roupa. Arranquei rápido o shorts e calcinha, enrolei tudo logo pra esconder aquela peça indecente. Pronto. Estava como manda o figurino (ou melhor, a falta dele). Continuei sentada na cadeira, meio que me escondendo. Aos poucos comecei a me sentir mais à vontade e a observar o local.

No grupo de argentinos tinha mesmo gente de acordo com a descrição do folder. Um pessoal curtindo a natureza, tomando um sol sem se preocupar com mais nada. Homens e mulheres de corpos imperfeitos. Seios de diversos tamanhos e formatos. Alguns bem caídos. Depilações de modelos variados. Pelos pubianos já meio grisalhos. Órgãos sexuais de todo tipo expostos ao sol. Dizer que estava todo mundo como veio ao mundo seria uma mentira – cicatrizes acusavam cirurgias plásticas em alguns – mas era quase isso.

Tinha também alguns exibicionistas. Um velhinho alto de porte atlético desfilava de peito inflado de um lado para o outro. Tinha também um “tiozão” com uma barriga de chope imensa e dura, daquelas que fazem parecer que o homem está grávido. E, embaixo dela, uma visão surpreendente. Ele sabia que destoava do resto e andava pra lá e pra cá todo sorridente.

O casal jovem à direita estava num clima de romance. Eram os dois corpos mais bonitos do lugar. Deitaram um pouco, depois passaram protetor solar um no outro bem demoradamente. Um outro casal jovem veio caminhando do outro lado da praia e entrou no mar. O que estava na areia ao meu lado resolveu fazer a mesma coisa.

Vendo os dois casais no mar fiquei com vontade de ir também. Depois que eles voltaram decidi entrar na água. Travei mais uma vez. Ali atrás, na minha cadeira, eu estava quase que escondida. Para ir até a água teria que cruzar toda a faixa de areia, certamente todo mundo olharia. Fiquei um tempão travada na cadeira, sem conseguir levantar, até que o rapaz do quiosque me trouxe o guarda-sol. Ele parou do meu lado e começou a fazer um buraco na areia. Aquilo chamou a atenção de todo mundo e, de repente, todos olhavam na minha direção. Bom, definitivamente não tinha mais o que esconder. Meio sem jeito levantei e fui para a água.

O mar estava bem agitado, ondas fortes obrigavam quem estava na água a mergulhar e pular o tempo todo. Aí eu entendi a coisa da harmonia com a natureza. Entrar nua no mar é algo que vale a pena.

Praticar atos de caráter sexual (na praia) é proibido

Na volta para a cadeira, comecei a sentir mais olhares. Depois que sentei, o tiozão da barriga de chope (e bem-dotado) passou umas três vezes na minha frente. Cada vez mais perto. O velhinho exibido também parou na minha direção. Ele virava de frente e de costas, tipo modelo na passarela. Mas o que eu achei mais estranho foi o rapaz bonitão do casal ao lado. Ele parecia estar me olhando e parecia estar sorrindo.

Parecia não, ele estava me olhando e sorrindo. E com namorada linda ao lado. Aí ele conversava um pouco com ela, trocavam carinhos e ele voltava a me olhar. Não, não devia ser pra mim, mas parecia.

Aí ele se virou. Estava deitado de frente para o mar e virou de frente para mim. Para mim? Não. Deve ser o sol. Às vezes acontece de as pessoas na areia se deitarem de acordo com o sol, para bronzear melhor. Mas o rapaz olhava fixamente para mim e sorria. E fazia carinho na namorada. E ela nele. Os dois conversavam numa boa. E ele voltava a me olhar.

Bom, já tinha feito tudo o que se tem para fazer em uma praia de naturismo. Decidi ir embora. Peguei minha roupa e fui para a ducha na grama. O velho exibido veio também. Tomei banho com ele há menos de dois metros de mim. Desviei o olhar e fiquei enrolando na ducha até ele sair de perto. Vesti rapidinho minha calcinha amarela e todo o resto, peguei minhas coisas e fui embora.

Chegando no carro, ouço naquele sotaque cantadinho de catarinense: “Estás indo embora?”. Olhei pra trás. Era o bonitão do casal. Entrando no carro respondi que sim. Ele se abaixou na minha janela.

       – Tu já saíste com um casal antes?

A grande oferta da Tapas Week

por guia-quatro-rodas em

Menu degustação do Torero Valese durante a segunda edição da Tapas Week / Foto: Divulgação

Sair para tapear (leia-se, comer tapas) já não pode ser entendido como uma moda passageira em São Paulo e no Rio de Janeiro. Pegando carona na crescente fama da cozinha espanhola de vanguarda, o ancestral hábito de petiscar ganhou corações e estômagos nas duas capitais. Quer uma prova que vai além da recente onda de inaugurações de casas da referida especialidade? Desde a sexta-feira passada, dia 3 de fevereiro, acontece em São Paulo a segunda edição da Tapas Week, que termina neste sábado, dia 11. Nada muito fora do comum numa Babel culinária como a capital paulista… se a promoção não fosse realizada apenas três meses depois da primeira edição do evento e não reunisse vários membros da elite gastronômica da cidade.

Quem se lembrou da internacional Restaurant Week – espalhada por 14 cidades brasileiras – precisa saber que a principal semelhança entre os dois eventos é mesmo a palavra “Week”. Mesmo prestigiada, a Tapas Week não parece ter a procura ruidosa da ideia nascida em Nova York, nem os preços supereconômicos daquela promoção global. Restaurantes participantes, como os estrelados Arola Vintetres e Porto Rubaiyat, vendem um menu fixo com tapas frias, quentes, sobremesa e uma taça de vinho por R$ 85; enquanto os bares que aderiram ao projeto nesta edição cobram R$ 55.

Na última sexta, resolvi apostar em um novato no grupo da Tapas Week, mas uma casa experimentada na boa arte de tradicionais petiscos espanhóis, o Torero Valese. A refeição de porções minimalistas começou fria na boca (e morna no espírito), com gaspacho bem temperado – que poderia ter um sabor mais intenso de tomate. Na segunda fase, a berinjela empanada com queijo brie, pasta de tomate catalão e manjericão veio correta na fritura, mas foi quase apagada pelo grosso pedaço de brie.

Pulpo ao Pomodori do Torero Valese / Foto: Divulgação

As coisas ganharam emoção mesmo quando o menu entrou em uma fase aquática. O pedaço de polvo montado em uma fatia de pão, regado com azeite e decorado com crisp de alho-poró desfilou na mesa com bom frescor, ótimo tempero e um cozimento elogiável. O mesmo aconteceu com o camarão-rosa grande da receita de gambas al ajillo, que estourava na boca. Quando mordi os anéis de lula, preparada na própria tinta com creme de grão-de-bico, tive certeza de que estava diante de um especialista em cozimento de frutos do mar. O prato ainda tinha o mérito de trazer um molho com sabor evidente da tinta do molusco, mas sem o peso e a monotonia de muitas preparações por aí.

Tapa de chistorra com tomate confit, cebolas carameladas e batatas / Foto: Divulgação

O menu ainda teve desfecho com chave de ouro em um plano terrestre: chistorra (linguiça espanhola levemente apimentada) com batata, cebola caramelada e tomate confit. O embutido típico estava bem gostoso e os acompanhamentos apareceram de forma equilibrada (exceção para a batata um pouco crua). Uma pena eu ter fugido do rol de receitas do Tapas Week para satisfazer meu desejo por algo doce (o Torero Valese não incluiu sobremesa no menu do evento). Tive que pedir a conta com um gostinho amargo de uma crema catalana (R$ 12,90) pesada, coberta com uma crosta de açúcar equivocada (daquelas que não quebram ao toque da colher e ainda grudam nos dentes).

A surpresa mais interessante da noite, entretanto, estava reservada para a conta – e foi ótima. Ao olhar a fatura, descobri que tinha comido um menu de tapas digno de um bom restaurante espanhol com preço de boteco (R$ 55). Apesar do interessante cardápio de pratos principais (paella marinera; robalo com arroz negro e chips de mandioquinha; costeletas de cordeiro ao molho de vinho do Porto e Jerez), o chef e proprietário Juliano Valese preferiu entrar no evento gastronômico na lista de bares (no salão, ele me falou algo sobre o tom despojado da casa e a simplicidade das mesas sem toalhas). Sorte nossa. Para quem não puder aproveitar essa bela oferta (disponível apenas nos jantares) até o próximo sábado, bom saber que o Torero Valese seguirá com uma oferta pré-Tapas Week (sem previsão de término). Nas noites de quinta a sábado, um balcão com quatro lugares pode ser reservado para um menu degustação com até dez tipos de tapas ao preço de R$ 79.

Por Ricardo Castanho

O sabor nada acre do Acre

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Lombo de tartaruga laminado com emulsão de óleo de castanha do Brasil, chicória da Amazônia e alfavaca / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)

É difícil encontrar um profundo conhecedor das atrações do Acre fora do Acre. Desde que o Barão do Rio Branco viabilizou a incorporação desse naco de terra em 1903, num acordo com a Bolívia, o estado da região Norte sempre foi uma espécie de patinho feio do turismo nacional. Para uns 90% da população do país que vive fora do Acre a ideia sobre ele está ligada a apenas três temas: Chico Mendes, Marina Silva e o Santo Daime. E acredito que uns 99% do total de brasileiros não está planejando uma viagem para lá.

Mas se Maomé não vai à montanha… o restaurante paulistano Brasil a Gosto (brasilagosto.com.br) resolveu quebrar o galho de muitos curiosos num festival de comida acreana que se estende até a segunda quinzena de março (ainda sem data de término definida).

Miniquibe de mandioca com molho de pimentas acreanas / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)

Conheci a capital Rio Branco em 2002. Fiquei na cidade apenas três dias e tenho boas lembranças dessa estadia – como a da inusitada campanha publicitária de um hotel que se gabava de ter o primeiro elevador da hotelaria local (!?). Entrei em contato com uma realidade que mais parecia a de uma cidade média do interior paulista: prédios baixos, ritmo tranquilo, muito verde e restaurantes simples de fórmulas caseiras. Os menus regionais ainda estavam calcados em receitas amazônicas que não eram exclusividades do Acre, como o pato no tucupi e o pirarucu de casaca. Resultado: não posso dizer que minha passagem por lá foi uma imersão na típica cozinha acreana.

Caldeirada de pirarucu e feijões acreanos com leite de castanha e farofa de banana / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)

Mas o cardápio do Brasil a Gosto veio para preencher essa lacuna de viagem. E a estrela do menu rende uma boa polêmica: tartaruga. Elevada ao status de animal doméstico em boa parte do país, muita gente torce o nariz (ou a boca?) nesse momento. Mas é bom lembrar que as tartarugas servidas no restaurante da chef Ana Luiza Trajano são certificadas pelo Ibama e vêm de criatórios regularizados. Isso significa que o argumento de contribuir para a extinção do animal não vale neste caso (se você tem uma história afetiva com uma tartaruguinha, aí são outros quinhentos). O fato é que a refeição típica acreana pode começar com lâminas do lombo desse quelônio (de sabor suave, textura firme e alto valor proteico) marinadas de azeite e especiarias e servidas com óleo de castanha do Brasil, alfavaca, chicória e crocante de mandioca. A mistura ficou boa, embora a falta de mais tempero na carne tenha evidenciado um gostinho sutil de congelamento. Minha receita preferida foi a caldeirada de pirarucu (maior peixe de escama de água doce do mundo) e feijões acreanos com leite de castanha e farofa de mandioca de Cruzeiro do Sul (deliciosa) – só diminuiria a quantidade de feijões para deixá-la mais leve.

Rabada no tucupi com purê e farofa de mandioca / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)

A rabada ao tucupi tinha um tempero bem acertado e um purê de mandioca irretocável, porém eu votaria por um gosto de tucupi mais presente, já que o caldo da rabada dominou a dupla.

Beléu com calda de cajá e açaí, sorvete de banana e farofa crocante de castanha do Brasil / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)

A recomendação final? Não dê uma de lebre (deixando sua tartaruga passar). O Acre está em São Paulo e tem uma riqueza de sabores que não faz jus ao nome do Estado.

 Por Ricardo Castanho

A primeira vez (viajando pelo GUIA) a gente não esquece

por guia-quatro-rodas em

Vista de Visconde de Mauá, a partir de mirante a 1700 metros de altura / Foto: Viviane Macedo

Dizem que a primeira vez de tudo na vida a gente nunca esquece. Fazer a primeira viagem pelo GUIA QUATRO RODAS não é diferente. Não apenas por passar por lugares lindos, com culturas e trejeitos próprios, mas também pelo desafio de chegar a um destino desconhecido e ter de desbravá-lo – de cima a baixo. Falando até parece fácil, alguns chegam a dizer que “isso não é trabalho”. Hum, pois é! Mas só sabe quem realmente viveu a experiência. E eis que eu decidi passar por ela.

Saí da redação em São Paulo rumo à primeira cidade – Visconde de Mauá, onde fui acompanhada pela repórter veterana Mirela Mazzola. Por lá, ela no comando me passava todos os toques e cuidados que devemos ter para “fazer uma cidade”. Foram nove dias de boas dicas para a viagem que viria a seguir e sozinha. Mas, antes disso, deixe eu contar um pouquinho de Mauá…

Cidade da querida Rosinha, Visconde de Mauá já protagonizou um post aqui no blog do GUIA. Pequena e familiar, parece que por ali todo mundo se conhece. Se não for pelo nome, basta dizer quem é o pai ou o comércio em que a pessoa trabalha que a identidade logo aparece. Por isso mesmo, a parte “secreta” do trabalho dos repórteres do GUIA fica meio prejudicada. Depois de pedir a primeira informação num restaurante, somos logo descobertos e viramos figurinha carimbada em toda a cidade. Apesar de não ser o ideal para nós, demonstra algo muito bacana na cidade: há uma parceria, um companheirismo muito grande entre as pessoas. A disputa que a gente vê em tantos lugares, lá dá espaço para uma comunidade que quer crescer unida com a colaboração de todos. Característica marcante de Mauá.

Dia de sol na Cachoeira do Escorrega, em Mauá / Foto: Viviane Macedo

Depois de nove dias, treinadora para um lado, treinada para outro. Já sozinha, a cidade seguinte foi Niterói. Sim, cidade grande, com um trânsito considerável e uma infinidade de hospedagens, restaurantes e atrações para visitar. Cheguei num sábado à tarde, e a primeira frase que passou pela minha cabeça foi: “Oh, my God! Por onde será que eu começo?” Esse sentimento me acompanhou em todos os dias em que estive em Niterói. Se eu tivesse de definir essa viagem em uma palavra, diria: tensão. E o motivo é claro e meio previsível – o novo assusta, mesmo os mais adeptos a ele, que considero ser o meu caso.

Para resumir: em quatro dias me perdi muito, pedi ajuda divina (e de taxistas para me achar! rs) e tomei muita chuva visitando hotel. Mas também conheci os quatro cantos de uma cidade linda, com uma vista maravilhosa para o Rio, lindas praias e boa estrutura. A partir de lá a vida foi mais fácil, fazer as cidades seguintes Saquarema, Cabo Frio e Arraial do Cabo foi completamente mais tranquilo. Não exatamente por serem bem menores, mas por eu já ter começado a pegar o jeito da coisa, da organização do trabalho e o molejo que a gente só aprende realmente com o tempo e com a prática.

A próxima viagem vai ser mais tranquila. Claro que vou passar perrengues, difícil a viagem em que eles não aconteçam, já me alertaram. Mas os perrengues se tornam menos tenebrosos depois que você passa por eles pela primeira vez (tomara, né? :) ).

Nos próximos posts conto um pouquinho mais sobre cada uma das cidades visitadas e o mais legal delas… =)

Por Viviane Macedo