Blog Guia Quatro Rodas
A grande oferta da Tapas Week

Menu degustação do Torero Valese durante a segunda edição da Tapas Week / Foto: Divulgação
Sair para tapear (leia-se, comer tapas) já não pode ser entendido como uma moda passageira em São Paulo e no Rio de Janeiro. Pegando carona na crescente fama da cozinha espanhola de vanguarda, o ancestral hábito de petiscar ganhou corações e estômagos nas duas capitais. Quer uma prova que vai além da recente onda de inaugurações de casas da referida especialidade? Desde a sexta-feira passada, dia 3 de fevereiro, acontece em São Paulo a segunda edição da Tapas Week, que termina neste sábado, dia 11. Nada muito fora do comum numa Babel culinária como a capital paulista… se a promoção não fosse realizada apenas três meses depois da primeira edição do evento e não reunisse vários membros da elite gastronômica da cidade.
Quem se lembrou da internacional Restaurant Week – espalhada por 14 cidades brasileiras – precisa saber que a principal semelhança entre os dois eventos é mesmo a palavra “Week”. Mesmo prestigiada, a Tapas Week não parece ter a procura ruidosa da ideia nascida em Nova York, nem os preços supereconômicos daquela promoção global. Restaurantes participantes, como os estrelados Arola Vintetres e Porto Rubaiyat, vendem um menu fixo com tapas frias, quentes, sobremesa e uma taça de vinho por R$ 85; enquanto os bares que aderiram ao projeto nesta edição cobram R$ 55.
Na última sexta, resolvi apostar em um novato no grupo da Tapas Week, mas uma casa experimentada na boa arte de tradicionais petiscos espanhóis, o Torero Valese. A refeição de porções minimalistas começou fria na boca (e morna no espírito), com gaspacho bem temperado – que poderia ter um sabor mais intenso de tomate. Na segunda fase, a berinjela empanada com queijo brie, pasta de tomate catalão e manjericão veio correta na fritura, mas foi quase apagada pelo grosso pedaço de brie.

Pulpo ao Pomodori do Torero Valese / Foto: Divulgação
As coisas ganharam emoção mesmo quando o menu entrou em uma fase aquática. O pedaço de polvo montado em uma fatia de pão, regado com azeite e decorado com crisp de alho-poró desfilou na mesa com bom frescor, ótimo tempero e um cozimento elogiável. O mesmo aconteceu com o camarão-rosa grande da receita de gambas al ajillo, que estourava na boca. Quando mordi os anéis de lula, preparada na própria tinta com creme de grão-de-bico, tive certeza de que estava diante de um especialista em cozimento de frutos do mar. O prato ainda tinha o mérito de trazer um molho com sabor evidente da tinta do molusco, mas sem o peso e a monotonia de muitas preparações por aí.

Tapa de chistorra com tomate confit, cebolas carameladas e batatas / Foto: Divulgação
O menu ainda teve desfecho com chave de ouro em um plano terrestre: chistorra (linguiça espanhola levemente apimentada) com batata, cebola caramelada e tomate confit. O embutido típico estava bem gostoso e os acompanhamentos apareceram de forma equilibrada (exceção para a batata um pouco crua). Uma pena eu ter fugido do rol de receitas do Tapas Week para satisfazer meu desejo por algo doce (o Torero Valese não incluiu sobremesa no menu do evento). Tive que pedir a conta com um gostinho amargo de uma crema catalana (R$ 12,90) pesada, coberta com uma crosta de açúcar equivocada (daquelas que não quebram ao toque da colher e ainda grudam nos dentes).
A surpresa mais interessante da noite, entretanto, estava reservada para a conta – e foi ótima. Ao olhar a fatura, descobri que tinha comido um menu de tapas digno de um bom restaurante espanhol com preço de boteco (R$ 55). Apesar do interessante cardápio de pratos principais (paella marinera; robalo com arroz negro e chips de mandioquinha; costeletas de cordeiro ao molho de vinho do Porto e Jerez), o chef e proprietário Juliano Valese preferiu entrar no evento gastronômico na lista de bares (no salão, ele me falou algo sobre o tom despojado da casa e a simplicidade das mesas sem toalhas). Sorte nossa. Para quem não puder aproveitar essa bela oferta (disponível apenas nos jantares) até o próximo sábado, bom saber que o Torero Valese seguirá com uma oferta pré-Tapas Week (sem previsão de término). Nas noites de quinta a sábado, um balcão com quatro lugares pode ser reservado para um menu degustação com até dez tipos de tapas ao preço de R$ 79.
Por Ricardo Castanho
O sabor nada acre do Acre

Lombo de tartaruga laminado com emulsão de óleo de castanha do Brasil, chicória da Amazônia e alfavaca / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)
É difícil encontrar um profundo conhecedor das atrações do Acre fora do Acre. Desde que o Barão do Rio Branco viabilizou a incorporação desse naco de terra em 1903, num acordo com a Bolívia, o estado da região Norte sempre foi uma espécie de patinho feio do turismo nacional. Para uns 90% da população do país que vive fora do Acre a ideia sobre ele está ligada a apenas três temas: Chico Mendes, Marina Silva e o Santo Daime. E acredito que uns 99% do total de brasileiros não está planejando uma viagem para lá.
Mas se Maomé não vai à montanha… o restaurante paulistano Brasil a Gosto (brasilagosto.com.br) resolveu quebrar o galho de muitos curiosos num festival de comida acreana que se estende até a segunda quinzena de março (ainda sem data de término definida).

Miniquibe de mandioca com molho de pimentas acreanas / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)
Conheci a capital Rio Branco em 2002. Fiquei na cidade apenas três dias e tenho boas lembranças dessa estadia – como a da inusitada campanha publicitária de um hotel que se gabava de ter o primeiro elevador da hotelaria local (!?). Entrei em contato com uma realidade que mais parecia a de uma cidade média do interior paulista: prédios baixos, ritmo tranquilo, muito verde e restaurantes simples de fórmulas caseiras. Os menus regionais ainda estavam calcados em receitas amazônicas que não eram exclusividades do Acre, como o pato no tucupi e o pirarucu de casaca. Resultado: não posso dizer que minha passagem por lá foi uma imersão na típica cozinha acreana.

Caldeirada de pirarucu e feijões acreanos com leite de castanha e farofa de banana / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)
Mas o cardápio do Brasil a Gosto veio para preencher essa lacuna de viagem. E a estrela do menu rende uma boa polêmica: tartaruga. Elevada ao status de animal doméstico em boa parte do país, muita gente torce o nariz (ou a boca?) nesse momento. Mas é bom lembrar que as tartarugas servidas no restaurante da chef Ana Luiza Trajano são certificadas pelo Ibama e vêm de criatórios regularizados. Isso significa que o argumento de contribuir para a extinção do animal não vale neste caso (se você tem uma história afetiva com uma tartaruguinha, aí são outros quinhentos). O fato é que a refeição típica acreana pode começar com lâminas do lombo desse quelônio (de sabor suave, textura firme e alto valor proteico) marinadas de azeite e especiarias e servidas com óleo de castanha do Brasil, alfavaca, chicória e crocante de mandioca. A mistura ficou boa, embora a falta de mais tempero na carne tenha evidenciado um gostinho sutil de congelamento. Minha receita preferida foi a caldeirada de pirarucu (maior peixe de escama de água doce do mundo) e feijões acreanos com leite de castanha e farofa de mandioca de Cruzeiro do Sul (deliciosa) – só diminuiria a quantidade de feijões para deixá-la mais leve.

Rabada no tucupi com purê e farofa de mandioca / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)
A rabada ao tucupi tinha um tempero bem acertado e um purê de mandioca irretocável, porém eu votaria por um gosto de tucupi mais presente, já que o caldo da rabada dominou a dupla.

Beléu com calda de cajá e açaí, sorvete de banana e farofa crocante de castanha do Brasil / Foto: Alexandre Schneider (Divulgação)
A recomendação final? Não dê uma de lebre (deixando sua tartaruga passar). O Acre está em São Paulo e tem uma riqueza de sabores que não faz jus ao nome do Estado.
Por Ricardo Castanho
A primeira vez (viajando pelo GUIA) a gente não esquece
Dizem que a primeira vez de tudo na vida a gente nunca esquece. Fazer a primeira viagem pelo GUIA QUATRO RODAS não é diferente. Não apenas por passar por lugares lindos, com culturas e trejeitos próprios, mas também pelo desafio de chegar a um destino desconhecido e ter de desbravá-lo – de cima a baixo. Falando até parece fácil, alguns chegam a dizer que “isso não é trabalho”. Hum, pois é! Mas só sabe quem realmente viveu a experiência. E eis que eu decidi passar por ela.
Saí da redação em São Paulo rumo à primeira cidade – Visconde de Mauá, onde fui acompanhada pela repórter veterana Mirela Mazzola. Por lá, ela no comando me passava todos os toques e cuidados que devemos ter para “fazer uma cidade”. Foram nove dias de boas dicas para a viagem que viria a seguir e sozinha. Mas, antes disso, deixe eu contar um pouquinho de Mauá…
Cidade da querida Rosinha, Visconde de Mauá já protagonizou um post aqui no blog do GUIA. Pequena e familiar, parece que por ali todo mundo se conhece. Se não for pelo nome, basta dizer quem é o pai ou o comércio em que a pessoa trabalha que a identidade logo aparece. Por isso mesmo, a parte “secreta” do trabalho dos repórteres do GUIA fica meio prejudicada. Depois de pedir a primeira informação num restaurante, somos logo descobertos e viramos figurinha carimbada em toda a cidade. Apesar de não ser o ideal para nós, demonstra algo muito bacana na cidade: há uma parceria, um companheirismo muito grande entre as pessoas. A disputa que a gente vê em tantos lugares, lá dá espaço para uma comunidade que quer crescer unida com a colaboração de todos. Característica marcante de Mauá.
Depois de nove dias, treinadora para um lado, treinada para outro. Já sozinha, a cidade seguinte foi Niterói. Sim, cidade grande, com um trânsito considerável e uma infinidade de hospedagens, restaurantes e atrações para visitar. Cheguei num sábado à tarde, e a primeira frase que passou pela minha cabeça foi: “Oh, my God! Por onde será que eu começo?” Esse sentimento me acompanhou em todos os dias em que estive em Niterói. Se eu tivesse de definir essa viagem em uma palavra, diria: tensão. E o motivo é claro e meio previsível – o novo assusta, mesmo os mais adeptos a ele, que considero ser o meu caso.
Para resumir: em quatro dias me perdi muito, pedi ajuda divina (e de taxistas para me achar! rs) e tomei muita chuva visitando hotel. Mas também conheci os quatro cantos de uma cidade linda, com uma vista maravilhosa para o Rio, lindas praias e boa estrutura. A partir de lá a vida foi mais fácil, fazer as cidades seguintes Saquarema, Cabo Frio e Arraial do Cabo foi completamente mais tranquilo. Não exatamente por serem bem menores, mas por eu já ter começado a pegar o jeito da coisa, da organização do trabalho e o molejo que a gente só aprende realmente com o tempo e com a prática.
A próxima viagem vai ser mais tranquila. Claro que vou passar perrengues, difícil a viagem em que eles não aconteçam, já me alertaram. Mas os perrengues se tornam menos tenebrosos depois que você passa por eles pela primeira vez (tomara, né?
).
Nos próximos posts conto um pouquinho mais sobre cada uma das cidades visitadas e o mais legal delas… =)
Por Viviane Macedo
Nos bastidores do Prêmio Guia Quatro Rodas Brasil 2012

A brava equipe do Guia / Foto: Luis Aymar
Pois é, pessoal! Depois de um ano de trabalho duro e divertido, mais um GUIA BRASIL chega às bancas, cheio de novidades e dicas imperdíveis que fomos buscar para tornar as viagens de vocês mais interessantes – e as nossas também (afinal, repórter do GUIA QUATRO RODAS também é gente!).
Um dos momentos mais esperados do ano, para nossa equipe, é a noite do Prêmio Guia Quatro Rodas Brasil, em que alguns dos restaurantes, hotéis e atrações que a gente visitou são premiados em várias categorias. Uma das coisas mais legais disso, para os repórteres, é poder reencontrar pessoas bacanas que conhecemos em nossas andanças – e que fazem esses estabelecimentos funcionarem.
O evento de premiação, que incluiu o lançamento da edição 2012 do GUIA BRASIL, ocorreu na última segunda-feira, dia 26 de setembro, no Citibank Hall, em São Paulo. Durante o prêmio, nós, repórteres do GUIA, vimos de perto cada comemoração e cada sorriso de satisfação dos premiados e reconhecemos nisso a importância do nosso trabalho. Percebemos que um perrengue na estrada, um carro enguiçado ou uma goteira no quarto de hotel – coisas que eventualmente enfrentamos durante as viagens – se tornam pequenos diante do resultado final, que é valorizar o que há de melhor no turismo brasileiro.
De um lado, havia pesos-pesados como Rogerio Fasano, de empreendimentos como o restaurante Fasano (em São Paulo) e o hotel Fasano Fazenda Boa Vista (em Porto Feliz/SP), e Claude Troisgros, chef e proprietário do restaurante carioca Olympe. De outro, estavam as surpresas boas desse Brasil, como a fofa da Dona Licéia, de Bananal (SP), cujo restaurante com pratos típicos da roça tem a melhor comida da região. Unir tanta gente diferente é a cara do GUIA QUATRO RODAS. E a gente faz isso também, claro, nas 900 páginas do GUIA BRASIL 2012, que – esperamos – você vai carregar na mala durante as férias.
Com este post, a equipe do GUIA agradece a todas as pessoas que estiveram lá no prêmio – as que vieram de avião, as que pegaram quilômetros de estrada para prestigiar o evento, as que moravam ali na vizinhança e chegaram de táxi… Vale acessar o site do Prêmio e conferir as fotos (dá para fazer download) e saber mais sobre a história dos premiados. E a gente fica por aqui, se preparando para começar o GUIA BRASIL 2013, para viver mais histórias, conhecer novos personagens e poder distribuir mais estrelas e mais prêmios.
Por Joana Andrade (em nome de todos os repórteres do GUIA BRASIL 2012)
Viajar Bem e Barato 2012: sua dica pode ser publicada!

Sanfoneiro toca durante passeio de agroturismo, em Gramado: espera de duas horas para ir de graça - Foto: Luana Lila
Sempre em busca do que há de melhor no Brasil, os jornalistas do GUIA QUATRO RODAS estão acostumados a comer em restaurantes caríssimos e conhecer os mais luxuosos hotéis. O meu caso, entretanto, é diferente. Como repórter do GUIA VIAJAR BEM E BARATO 2012, meu desafio é gastar o mínimo possível e, ainda assim, conseguir me divertir e aproveitar ao máximo as cidades que visito.
Durante as viagens que fiz até agora, me hospedei em quartos coletivos de albergues, comi em restaurantes que servem prato feito, abusei do transporte público e, quando foi vantajoso, troquei o avião pelo ônibus para chegar ao meu destino. Em cidades como Ouro Preto, fiquei cinco dias e o total de meus gastos, incluindo as passagens a partir de São Paulo, não passou de R$ 500. O mais difícil foi planejar a estadia em locais como Gramado, onde os preços atingem níveis estratosféricos durante a temporada e, ainda assim, conseguir desembolsar menos de R$ 100 por dia.
É claro que viajar bem e barato pode exigir um bocado de esforço. No Rio de Janeiro, subi o Morro da Urca a pé para evitar pagar o bondinho; em Gramado, cheguei quase duas horas antes do passeio de agroturismo para garantir uma vaga de cortesia; em Campos do Jordão, peguei carona para ir a lugares onde o ônibus de linha não chegava. Economizando nessas ocasiões, consegui guardar dinheiro para, por exemplo, conhecer o Corcovado, no Rio, comer fondue em Gramado e jantar no Baden Baden, em Campos do Jordão. Esses programas são caros, é verdade, mas não vale a pena ir tão longe para deixar de fazê-los.
No fim das contas, percebi que estava agindo como nas minhas próprias férias: fico sempre de olho no orçamento, disposta a passar alguns apertos para poder viver experiências marcantes e diferentes. E você, como faz para economizar nas viagens?
No Twitter (@guia4rodas) e no Facebook (www.facebook.com/guia4rodas) estamos pedindo dicas baratas de restaurantes, hospedagens e atrações em diversas cidades. No Twitter, você pode deixar a sua sugestão (ou sugestões) por meio da hashtag #VBB2012. No Facebook, basta escrever um comentário.
Os lugares precisam, claro, ter bom custo-benefício (não vale indicar coxinha de rodoviária, a menos que ela seja uma delícia).
Participe: o seu palpite e o seu nome poderão ser publicados no GUIA VIAJAR BEM E BARATO 2012. Assim, você estará contribuindo para que as viagens de outras pessoas se tornem ainda mais especiais – e econômicas.
Por Luana Lila
Paraty: Curiosidades do Centro Histórico
A partir de hoje, conto histórias de Paraty, no litoral sul fluminense, onde passei alguns dias apurando novidades para o GUIA BRASIL 2012.
Caminhar pelo Centro Histórico é obrigação em Paraty. Mas para saber os detalhes de sua arquitetura decidi conversar com um historiador. Perguntei aos moradores e cheguei ao nome de Diuner Mello, autor de vários livros sobre a cidade. Ele me contou uma série de curiosidades bacanas. Primeira que atribui-se à maçonaria o traçado da malha urbana; suas esquinas desencontradas facilitariam a defesa da cidade de ataques piratas, e distribuiriam o sol e os ventos. O calçamento de pedras começou a ser feito em 1776, e foi finalizado apenas no século 20 – as pedras vieram das cachoeiras da região. Outro detalhe interessante: como a área doada para a construção da vila era alagadiça, as ruas foram projetadas em formato de canal, para ajudar no escoamento das águas.
Por Eduardo Merli
Leia também:
Paraty, Parati, Parathy, Pirati…
Fica a dica: Vale dos Vinhedos é Merlot
Junto da vizinha Garibaldi, que tem como ponto forte a produção de espumantes (Chandon e Peterlongo são alguns dos mais conhecidos produtores), a cidade de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, é uma das mais tradicionais regiões vitivinícolas do país. Vinhedos se espalham pelas áreas rurais – o Vale dos Vinhedos é o principal polo – e se estendem até os distritos vizinhos, como o de Tuiuty (vinícola Salton), o de Faria Lemos (vinícola Dal Pizzol) e o de Pinto Bandeira (vinícolas Geisse e a Don Giovanni).

Vinhedo no distrito de Faria Lemos - Foto: Marina Valle
A produção de vinhos na Serra Gaúcha teve início com a chegada dos primeiros imigrantes italianos no final do século 19. No começo, a fabricação do vinho era feita do mosto fermentado de “uvas de mesa”, não viníferas. Foi só a partir dos anos 90 que as vinícolas passaram a utilizar castas voltadas para a produção de vinhos finos e a investir em técnicas modernas de elaboração da bebida.
Recentemente, a região que produz alguns dos melhores vinhos do país deu outro grande passo: os mais de 30 produtores do Vale dos Vinhedos conquistaram o registro de Denominação de Origem (D.O.), selo importante para consolidar o produto no mercado brasileiro e internacional, o que valida ainda mais seu prestígio.
Tanto as grandes vinícolas quanto as pequenas cantinas promovem passeios à produção e organizam degustações – programa típico em Bento Gonçalves. Acompanhados por enólogos ou guias, os visitantes conhecem os parreirais, caminham por entre tanques de fermentação e caves, onde o vinho amadurece em barricas de carvalho. A visita sempre termina com degustação na loja da vinícola (ali chamadas de “varejo”), que costuma ter uma boa oferta de rótulos a preços menores do que em lojas do resto do país.
Se você quer aproveitar e trazer bons vinhos na bagagem, Arthur Azevedo, diretor da Associação Brasileira dos Sommeliers sugere apostar nos da varietal Merlot, que apresentam melhor desempenho e expressão dentre os tintos região.
Apesar de a Cabernet Sauvignon ainda ser a preferência da maioria – na vinícola Casa Valduga, por exemplo, representa 43% do total das vendas entre os tintos – o terroir (características do solo, altitude e condições do clima) do Vale dos Vinhedos é mais propício à uva Merlot e resulta em vinhos de melhor qualidade.
Por Marina Valle
Ou seja… cerveja
Em viagem a Blumenau (SC), terra cervejeira por excelência no país, sentei para almoçar com um amigo, o Frederico, que vive na cidade há seis anos. De começo, pedimos uma Original, mas depois de perguntar se a casa tinha alguma das cervejas artesanais da região, seguimos com uma garrafa de Bierland, cervejaria da cidade.
“Não precisa trocar meu copo não, moço”, falei para o garçom que nos atendia. Mas ele não deu nem confiança e encheu um novo copo, agora com a Bierland. “Aqui a gente respeita a cerveja, Má. Tem que trocar de copo sim”, me explicou o Kiko. E eu fiquei lá, sem graça, com minha cultura “cervejística” limitada a copo americano de boteco.
Tamanha é a vocação dos blumenauenses para apreciar cerveja, que muita gente faz a própria na garagem de casa. Fernando Lapolli, empresário de 28 anos, é um expert no assunto. Aprendeu por conta própria sobre os processos de fabricação da bebida, fuçando em sites na internet e participando de grupos de cervejeiros na rede. Em sua produção caseira, improvisada na garagem de casa, ele já produziu mais de quarenta estilos de cerveja. Já fez dos tipos India Pale Ale (com bastante lúpulo, amarga e com alto teor alcólico), Stout (de origem irlandesa, escura, leva grãos tostados de cevada), Bock (alto teor alcoólico, sabor forte, e de cor escura ou avermelhada), Doppelbock (estilo alemão, versão mais forte da tradicional Bock), além de outras como a Witbier, que na fermentação utiliza condimentos como coentro e casca de limão siciliano.
Em vez dos enormes tanques de fermentação de inox, que armazenam em grande escala, Lapolli utiliza panelões de alumínio (daqueles de preparar feijoada) para o cozimento e baldes de polipropileno para a fermentação, interligados por mangueiras. Depois de completa a fermentação, a cerveja matura de 20 a 90 dias e segue para ser armazenada no barril de inox.

O mestre-cervejeiro Fernando Lapolli, em sua produção artesanal na garagem de casa - Foto: arquivo pessoal
Se a maturação demora, o consumo é bem rápido. A garagem de Lapolli virou uma espécie de “pub” de sua turma de amigos. Ali, entre os panelões, freezers e pufes, a galera aprecia a cerveja do amigo e retribui com uma “carninha” para um churrasco, montado ali mesmo.
Leia também o blog Boteclando, com histórias de bares pelo Brasil e o mundo
Quem não tem amigo mestre-cervejeiro, pode experimentar o melhor das cervejas artesanais na Oktoberfest deste ano, que acontece de 6 e 23 de outubro e chega a sua 28ª edição. A cerveja oficial é a Brahma. Mas quem já foi sabe: as artesanais são as mais concorridas e as filas nos estandes são maiores. Estarão lá Eisenbahn, Bierland e Wunder Bier, todas de Blumenau, mais a Das Bier, da cidade vizinha de Gaspar, e a Schoerstein, de Pomerode. Vale lembrar que nas ruas também ocorrem os desfiles dos “bierwagen”, carros que distribuem a bebida gratuitamente.

Cerveja de graça: desfile dos "birwagen" na Oktoberfest de 2010. Foto - Eraldo Schnaider
28ª Oktoberfest
De 6 a 23 de outubro de 2011
Parque da Vila Germânica
Ingressos pelo site www.zetks.com
Por Marina Valle
Coração de Estudante
Necrotério, Maracangalha, Nau sem Rumo, Maria Bonita, Tutu com Torresmo, Patotinha, Sonhos…. são apenas algumas das mais de 350 repúblicas estudantis que se espalham pela cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais.
Barulhentas e agitadíssimas, as repúblicas se tornaram uma instituição ouropretana. Promovem festas o ano todo e funcionam como hospedagem alternativa no Carnaval – vendem aos turistas e foliões pacotes que incluem hospedagem, café-da-manhã, abadás para os blocos e cerveja à vontade.
Elas são divididas entre as federais, em casas cedidas pelo governo, sem custo de aluguel, e as particulares. Nessas últimas, os estudantes da casa dividem o valor do aluguel por igual. E como há sempre muitos vivendo no mesmo imóvel, o custo da moradia acaba ficando bem baixo.

República "Pronto Socorro", em Ouro Preto - foto: Marina Valle
A tradição estudantil da cidade teve início com a fundação da Escola de Farmácia, de 1839, a mais antiga do gênero na América Latina. Mais tarde veio a Escola de Minas, voltada à engenharia de minerais, que em 1969 unificou-se formando a Universidade Federal de Ouro Preto, a Ufop. A mais antiga das repúblicas é a Castelo dos Nobres, fundada em 1919 e na época formada só por estudantes de engenharia.
Caminhando pelo centro histórico, o divertido é observar as plaquinhas com os irreverentes nomes de cada uma delas – impossível não ficar curioso pra saber o que acontece ali dentro. Mas a minha xeretice falou mais alto e pedi para algumas estudantes que conheci numa livraria me mostrarem sua república.
Leia também: roteiros de viagem em Minas Gerais
Em um casarão de quatro dormitórios no bairro da Água Limpa, moram Gavetinha, Iakysoba, Pocket, Miss Jequitibá e outras dez estudantes da Ufop, todas com seus vinte e poucos anos. Dividem a rotina entre estudos, festas, tarefas da casa e muita cumplicidade. Quando cada uma delas chegou à cidade para estudar, foram convidadas pelas veteranas para viver na república Lilith (o nome evoca à serpente que induziu Eva a comer o fruto proibido). Mas para fazer parte do clã, a candidata precisa passar por alguns testes, a chamada “batalha de vaga”: aceitar um apelido e desfilar pela cidade com placas penduradas sobre o corpo, que trazem o nome da casa.
Na ampla sala, com o bandeirão da república esticado na parede, as garotas relaxam e papeiam entre sofás e pufes coloridos. Na cozinha, o microondas trabalha a mil por hora com uma sequência de lasanhas congeladas e a geladeira está cheia de comida e produtos – todos etiquetados com o nome da cada moradora, para não haver confusão na hora de uma pegar a compra da outra. Nos dormitórios, as caminhas enfileiradas bem próxima umas das outras. E a regra determina que a veterana não divide quarto, fica com um só pra ela. “Sortuda, dá pra trazer o namorado quando quiser”, brincam as meninas.
Por Marina Valle
Zona Azul no RS: vamos copiar?
Não faz muito tempo, passei uma semana ciceroneando a Vanessa, uma amiga americana que visitava a cidade de São Paulo. Levei-a para vários pontos turísticos, entre os quais o Museu do Futebol, que fica na parte frontal do Estádio do Pacaembu. Paramos o carro em frente ao museu, na Praça Charles Miller, área cheia de vagas, mas que exige o uso do cartão de Zona Azul em determinados dias e horários. Como era sábado de manhã, seria preciso colocar o cartão no painel do carro.
Mal abri a porta do carro, dois caras já vieram me oferecer o cartão por 10 reais. Isso mesmo, 10 reais, quando o valor cobrado nos pontos oficiais de venda é 3 reais. Caminhei até a banca que fica a 300 metros dali para comprá-lo pelo preço tabelado e correto, mas estava esgotado. Hipóteses óbvias: ou os flanelinhas haviam comprado todos da banca, ou a banca não tinha mesmo. Fiquei com a primeira hipótese, e a confirmei quando vi que algumas pessoas, com preguiça de caminhar até a banca, pagavam os 10 reais pelo cartão aos vendedores.
Rodando de carro o Rio Grande do Sul, da cidade de Rio Grande à Serra Gaúcha, relembrei-me desse inconveniente ao fazer o uso dos “parquímetros”, máquinas eletro-mecânicas usadas para o controle de estacionamento rotativo em vias públicas. Espalhadas pelas esquinas mais movimentadas e nas zonas centrais do interior gaúcho, elas me pareceram a alternativa ideal para evitar esse achaque na venda do cartão da Zona Azul.

Monitor de Zona Azul ajuda condutor na retirada do tíquete - Foto: Marina Valle
No sistema do parquímetro, o condutor compra os tíquetes direto na máquina, que geralmente dá quatro opções de período (30 min, 60 min, 90 min ou 2h), com seus respectivos preços. É como máquina de vender refrigerante: o sujeito coloca as moedinhas ou notas e o cartão sai. E o melhor: nem é preciso preencher aquele monte de informações como data, horário, placa do veículo etc. – que nunca temos tempo e paciência de fazer! O tíquete já vem impresso e é só colocar no console do carro, à vista do fiscal.

Zona Azul em Rio Grande, RS: já vem com data, hora e a placa do veículo - Foto: Marina Valle
Esse recurso já funciona há mais de uma década na Europa e é utilizado com muita força no Rio Grande do Sul e em algumas cidades do interior de São Paulo, como Jundiaí, São Carlos, Barretos e Araçatuba. Alguns municípios ainda dispõem de funcionários para auxiliar na compra do tíquete. Que tal, prefeitos e administradores, aderirmos de vez a essa facilidade e dispensarmos o papelzinho azul?
Por Marina Valle



