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A Hora do Lobo
Vista de longe, a silhueta da serra forma um grande rosto de perfil, uma enorme cara, a caraça. Daí vem o nome do Parque Natural do Caraça, trecho de preservação da Serra do Espinhaço localizada nos municípios mineiros de Catas Altas e Santa Bárbara.

O recorte da serra forma um grande rosto de perfil, a "caraça" - foto: Marina Valle
Na sede do parque, destacam-se prédios da fase inicial da propriedade, erguidos no século 18 para sediar a pousada de tropeiros da Estrada Real, depois transformada em seminário. Na década de 60, um incêndio quase destruiu o edifício, que, restaurado, abriga hoje uma biblioteca com cerca de 30 mil volumes e um museu com antigos objetos da escola e do claustro. A Igreja N. S. Mãe dos Homens (1876/1883), em estilo neogótico, integra o conjunto. Na área do parque, as atrações são as trilhas pela mata até as grutas e as mais de 15 cachoeiras.

A Igreja N. S. Mãe dos Homens , com a torre em estilo gótico, e serra ao fundo - Foto: Marina Valle
Mas a maior atração do local é reservada para a noite. Não, não estamos falando de uma danceteria ou restaurante. Depois que o sol se põe, é hora de esperar para conhecer o lobo-guará, animal ameaçado de extinção e símbolo do parque.
Por volta das 18h30, o padre Marcus de Andrade, que pertence à ordem de clérigos que administra o parque, chamou todos nós visitantes para nos sentarmos ao redor do átrio da igreja do santuário. Ele trazia uma travessa de metal cheia de cortes de carne e ossos, que colocou no centro do pátio. “Podem sacar as câmeras, o guará acha que os flashes são relâmpagos”, disse ele.
Passou-se meia hora, o silêncio pairava e o vento frio cortava nossos rostos. E nada do morador ilustre daquelas matas dar as caras. A expectativa aumentava. O padre levantou-se e arrastou a travessa no chão de cimento, fazendo com ela um barulho para tentar atraí-lo. O animal poderia chegar a qualquer momento, mais tarde ou, quem sabe, até não aparecer. Será que teríamos sorte?
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Em poucos minutos, para a nossa esperança, ouvimos latidos altos e fortes. Não eram latidos como os de cachorro. Esses que ouvimos foram acompanhados de rugidos. É um sinal de que o guará estava próximo, já que não há cães por lá. Os visitantes se animam, mantém os olhos fixos na escada que o bicho deve subir para alcançar seu banquete. Eis que na penumbra surge a silhueta imponente do guará.
Padre Marcus o atiça jogando na beira da escada um pedaço de carne crua. Com passos cuidadosos e desconfiados, ele vem até nós, mas não se deixa confiar naqueles que lhe dão de comer. Fica sempre olhando para a escada, para garantir sua rota de fuga. Outro lobo de cara menor aparece e ambos trocam rugidos porque não querem dividir a refeição um com o outro. Pelagem comprida e vistosa, orelhas pontiagudas, as pernas compridas, sendo as de trás um pouco curvadas. A natureza à nossa frente, em estado selvagem.
Que privilégio estar ali! Afinal não é sempre que se pode ver um bicho desses circulando livremente em seu habitat natural. Depois do momento “celebridade”, os guarás se retiram e retornam para a mata. Eles precisam dar continuidade à caça, para completar sua refeição – agora do prato principal. Nosso agrado é apenas o couvertzinho.

Hora do rango: os lobos guará são alimentados pelo Pe. Marcus - Foto: Marina Valle
Por Marina Valle

Que linda matéria! e que bela foto! oportunidade única ver o lobo guará tão de pertinho! parabéns!