
No início do ano, um dos editores de Viagem & Turismo me pediu um texto sobre São Paulo. Queria algo bastante pessoal, a cidade vista sob o olhar de uma carioca pra quem a ponte aérea é algo familiar. O mesmo fariam com o Rio, sob o ponto de vista de uma paulistana. Ambos os textos seriam publicados numa grande matéria sobre as duas capitais. Matéria que acabou não acontecendo.
O artigo não saiu, mas resolvi publicar aqui um trecho do texto que escrevi à época, que é um retrato muito particular do meu sentimento a respeito dessas duas cidades que considero, no fundo, dois lados de uma mesma moeda.
“Tive a sorte de crescer num lar carioca em que pai e mãe sempre falaram de São Paulo de uma forma afetiva. Desde menina, isso me despertou o interesse por aquela cidade que, nas palavras deles, tinha tanta gente interessante, tanta coisa acontecendo. Talvez eles tenham achado um pouco estranho quando pedi que me levassem junto em uma próxima ida… Eu era adolescente e, entre os adolescentes que me cercavam, não me lembro de muitos que quisessem deixar a praia pra ir passar um fim de semana em São Paulo. Eu quis. E não me arrependi. Confesso que não é um lugar que se entrega fácil como o Rio, com suas silhuetas sedutoras e beleza arrebatadora. É preciso querer ver os encantos da capital paulista e, mesmo querendo, eles só se entregam aos poucos. Mas até isso comigo foi diferente: a cidade me ganhou de primeira. E, de lá pra cá, volto sempre que posso. Passei a enxergar entre Rio e São Paulo um diálogo natural. Mais do que natural: um diálogo necessário.
São muitas as diferenças que se podem apontar entre as duas cidades. A começar pela bagagem que se carrega. Os cariocas se vestem para ir a São Paulo. Enquanto os paulistas se despem pra vir ao Rio. E eu não falo necessariamente de roupas. A impressão que me fica é a de que o paulista, ao fazer as malas rumo ao Rio de Janeiro, deixa em casa não só as roupas mais pesadas, mas também um pouco da seriedade e do protocolo a que está habituado no seu dia-a-dia. E vem com a alma – e não só a bagagem – mais leve. Creio que isso já diz muito sobre os dois destinos. Acho que essas duas facetas, mais do que uma diferença, apontam uma complementaridade entre duas cidades tão incrivelmente díspares e, no entanto, inevitavelmente irmãs.
Sinto como se o paulista viesse ao Rio buscando uma espécie de escape pro excesso de informação, de movimento, de ruídos que São Paulo lhe oferece diariamente. E encontra essa redenção na natureza, no mar, no sol, no contato do pé descalço com a areia… No ritmo mais lento em que a vida acontece do lado de cá da Dutra… Na informalidade que impera nas ruas da cidade, que lhe recebe com um sorriso aberto, mesmo que esteja de havaianas nos pés, cabelos molhados e despenteados e trajando seu figurino mais descompromissado (aliás, é assim mesmo que a cidade quer que você venha).
Eu, que faço o trajeto contrário da ponte aérea, vou buscando exatamente o oposto. De vez em quando (o que significa de duas a três vezes ao ano – pois menos que isso faz a saudade da capital paulista bater forte), gosto de deixar em suspenso a brisa do mar e o calor do sol pra ir ver a vida acontecer em São Paulo. Sim, porque o Brasil acontece em São Paulo. É o lugar onde as coisas borbulham com mais intensidade, seja na cultura ou na gastronomia, só pra dar dois exemplos do que eu costumo buscar por lá.
Ao chegar, gosto de sentir que estou dentro de um gigante urbano, com todos os seus mecanismos funcionando a pleno vapor. Mas, gosto, ao mesmo tempo, de vislumbrar, ainda da janela do táxi, que, com todo gigante que São Paulo é, há nela uma vida de bairro a ser explorada, como em toda cidade que valha a pena conhecer… O charme burguês do Itaim, de Higienópolis ou dos Jardins. Os meandros do centro. A boemia da Vila Madalena.
(…)
Quando me despeço, inevitavelmente, tenho a sensação de que meu tempo é curto demais pra ver tudo o que merece ser visto. Sempre com a impressão de que quanto mais eu vou a São Paulo, menos eu posso dizer que conheço bem a cidade, pois me falta ainda muita coisa a descobrir (talvez seja irremediável esse sentimento a respeito dos lugares que nos tocam). Pego o avião de volta já com saudades dessa cidade que eu aprendi a amar. Mas, ao mesmo tempo, doida pra chegar e vestir a alma daquela leveza que só o carioca conhece.”