Por dentro do Rio

Elevador panorâmico integra favela e asfalto em Ipanema e dá ao Rio mais um ponto turístico

por Constance Escobar em

Há cerca de um mês, Ipanema presenciou a inauguração do Complexo Rubem Braga. O empreendimento que leva o nome do sensacional cronista carioca, que viveu no prédio ao lado, é  composto de duas torres com elevadores panorâmicos e uma ponte, que permitem o acesso dos moradores do Cantagalo e Pavão/Pavãozinho ao metrô de Ipanema. É, sem dúvida, um feito arquitetônico. Mas, muito mais do que isso, talvez seja um marco na integração social da cidade.

Questões geográficas fazem do Rio de Janeiro uma cidade onde pobreza e riqueza convivem lado a lado. As montanhas encravadas por todos os cantos da cidade, ocupadas irregularmente ao longo de anos de omissão das autoridades, geraram aqui uma situação sui generis. As favelas passaram a fazer parte da paisagem urbana, muitas vezes, invadindo verdadeiros cartões postais da cidade. Impondo-se, inclusive, aos mais privilegiados enclaves da Zona Sul.  O estado de tensão social tornou-se uma realidade incontestável na cidade. E por mais que se decante a democracia das praias cariocas, em cujas areias pobres e ricos de todas as estirpes se misturariam como se iguais fossem, a grande verdade é que, para além dos calçadões, o que há é uma segregação muito nítida.

Pois me parece que as obras realizadas no Morro do Cantagalo talvez sejam um primeiro passo, pequeno ainda, mas significativo dentro do estado de coisas da cidade, no sentido de integrar favela e asfalto. Confesso que me dirigi ao Complexo Rubem Braga, na última semana, carregada de preconceitos e com uma sensação de que poderia haver nesse empreendimento um quê daquela estranha invenção dos tours na Rocinha, em jipes que levam as pessoas a visitarem a favela como se estivessem numa espécie de safári, como se fossem ver a fauna local… Ao sair de lá, no entanto, tinha a sensação de que me enganei redondamente se assim pensei… Trata-se de algo muito diferente. Trata-se de inserir na engrenagem da cidade um espaço público em que moradores da favela e do asfalto se misturem naturalmente. Trata-se de integração mesmo, não há palavra melhor. Pavão/Pavãozinho e Cantagalo, que já vêm de um processo de pacificação pela ação da polícia (ali está instalada uma UPP – Unidade de Polícia Pacificadora), com o novo complexo pode começar a deixar de ser um gueto… E aquele pedaço de Ipanema, que foi ficando tão decadente, quem sabe, pode voltar a sorrir…  Eu sei bem que isso tudo é muito, muito pouco diante do que ainda precisa ser feito a respeito da questão social no Rio de Janeiro. Mas pode ser um bom passo no sentido de se iniciarem algumas mudanças…

Sei também que vocês devem estar pensando que a função desse blog não é tecer esse tipo de análise (e eu nem tenho mesmo a competência necessária para discutir tais questões a fundo, mas, dessa vez, não consegui me furtar…), mas deixo aqui, então, uma outra justificativa pra esse post: além do aspecto da integração social, o Complexo Rubem Braga tem vocação pra se tornar, talvez, mais um ponto turístico da cidade. De seu elevador panorâmico já se pode ver a praia de Ipanema se revelando aos poucos… E, a três lances de escada da saída do elevador, fica o Mirante Da Paz, de onde se descortinam os mares de Copacabana, Ipanema e Leblon, O Morro Dois Irmãos, a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Corcovado, de uma só vez. Nada mal…

Encerro com as palavras de Ruy Castro, que cobrem uma das paredes do complexo:

“No auge dos anos 60, o braço armado de Ipanema empunhava um violão. E seu canto de guerra – na verdade, de paz – era a Bossa Nova. Era dele que saíam as insuperáveis melodias, as complexas harmonias e a batida diferente e irresistível que, somada às palavras de seus poetas, faziam de qualquer dia em Ipanema um domingo.


(…)


O espírito que fez de Ipanema berço da Bossa Nova continua vivo. Ressurge a cada vez que um rapaz ou moça pega um violão, fere as cordas e gera um acorde que ficará mais uma vez por toda a vida.”



Complexo Rubem Braga – acesso pelo final da Rua Teixeira de Melo. Entrada gratuita.

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Comentários (71)
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  • Por: tn pas cher
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  • 14 de novembro de 2011 at 5:19

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