Por dentro do Rio

Garcia e Rodrigues fecha as portas no Leblon

por Constance Escobar em

Na última sexta-feira, divagava aqui sobre o sufocamento do comércio de bairro pelo fenômeno dos multiplex e das mega stores. Falava do meu apreço pelos cinemas de rua, pelas pequenas livrarias; da importância de que esse tipo de estabelecimento não desapareça. Lamentava o recente fechamento da Letras e Expressões. Revelava o meu temor de que a Argumento venha a ter o mesmo destino… Pois, horas depois de publicar aquele post, tive a notícia do fechamento do Garcia & Rodrigues do Leblon. Notícia que, rapidamente reverberou nas redes sociais, causando surpresa e descontentamento, especialmente, entre cariocas.

Hoje é o último dia de funcionamento da casa que há tantos anos dava o tom daquele quarteirão da Avenida Ataulfo de Paiva. Não que o Garcia & Rodrigues fosse um pequeno bistrô, um estabelecimento familiar. Cresceu, abriu filiais em outros bairros e até em São Paulo. Mas muitos cariocas mantinham com a matriz uma relação afetiva. Foram anos fazendo parte da rotina de um bairro. Anos que se esvaem em meio a estatísticas e números que movem uma decisão negocial. Em seu lugar, haverá, em breve, (mais uma) filial da churrascaria Porcão. Não tenho maiores detalhes do que justificou o encerramento. Mas, até onde sei, ambos os negócios pertencem aos mesmos sócios, que, provavelmente, chegaram a conclusão de que dá mais lucro ter ali uma churrascaria do que um Garcia & Rodrigues.

Entendo que um restaurante é, antes de tudo, um negócio e que, portanto, precisa dar lucro. O que lamento é justamente perceber que o que dá lucro é sempre mais do mesmo. Não, o Rio de Janeiro não precisa de mais uma churrascaria. Mas espaços como o Garcia & Rodrigues, certamente, fazem falta. Já temos poucos. Agora temos menos. Entendam bem. Não digo aqui que se tratasse de uma maravilha. Os sócios mudaram já fazia tempo. O chef Christophe Lidy já não estava mais ali. O padrão dos produtos já não era o mesmo, embora ainda fosse, sem dúvida, superior à média das padarias e confeitarias cariocas. Do “lado restaurante” confesso que nunca fui fã. Mas ali se podia tomar um bom café da manhã, comer um bom patê de campagne, abastecer-se de bons produtos pra levar pra casa. Como as deliciosas queijadinhas que eu comprava sempre. E os ótimos pães (as baguetes, o pão de milho, o de azeitonas) – que, atualmente, considerava os melhores do bairro, diante da flagrante queda de qualidade do Talho Capixaba nos últimos tempos. E que, agora, sem a presença do concorrente, tende a ficar ainda pior – ah, os males da falta de concorrência…

Se o Garcia & Rodrigues estivesse fechando as portas pra dar lugar a algo melhor, eu não me queixaria. Ao contrário. Mas, por mais que haja a promessa de que a casa reabra em breve, logo ali, na rua Dias Ferreira (só acredito vendo),  seu fechamento, para dar lugar a mais uma filial de uma rede de churrascarias, é algo emblemático. É, de certa forma, um símbolo da vitória da mesmice.

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Comentários (11)

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  • Por: raq
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  • 23 de outubro de 2011 at 16:33

mas é impressionante, né? também não achava lá uma maravilha, mas eu acho os pães do rio muito ruins, e o único que eu ainda gostava era o italiano do garcia. e sobre a mesmice, há algumas semanas vi no jornal, naquela seção de reclamação, um senhor se dizendo decepcionado com uma churrascaria que veio de sp porque lá não tinha sushis como tem no porcão. e a resposta era que a churrascaria ia se adaptar ao gosto dos fregueses… vou neeeem entrar no mérito de churrascarias, mas se o senhor queria algo como o porcão, ele devia ir ao porcão, poxa!

  • Por: Katia Albuquerque
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  • 23 de outubro de 2011 at 20:32

Muito triste mesmo! Infelizmente ficamos sem uma casa que dava gosto frequentar. As próprias vitrines já eram bonitas de se ver. E o pão, concordo. Eram os melhores.

  • Por: Constance Escobar
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  • 23 de outubro de 2011 at 22:38

É… Parece que a mesmice ainda é o que atrai público e dá lucro. Até quando?

  • Por: Paula Atie
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  • 24 de outubro de 2011 at 10:22

Ufa, finalmente alguém conseguiu entender minha comoção com o fechamento do Garcia. Adorei o texto!! Obrigada por traduzir tão bem emoções que os outros julgam como bobas, ou superficiais.

  • Por: Marcus
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  • 25 de outubro de 2011 at 15:28

Isso é sintomático…
A bolha imobiliária do Rio inflou o preço dos alugueis comerciais, ceifando também o “Andy´s”.
Segundo reportagem da Veja Rio desta semana, está sendo mais vantajoso pagar o condominio de um shopping…é uma pena.

  • Por: Constance Escobar
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  • 25 de outubro de 2011 at 17:47

Pois é, Marcus. A cidade só tem a perder com o que está acontecendo no mercado imobiliário. Sufoca os pequenos estabelecimentos e fica viável apenas pras grandes redes… Uma lástima.

  • Por: jorge fortunato
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  • 25 de outubro de 2011 at 21:14

Não causa mais espanto e comos preços la haut as portas vão todas fechar. O GR vai reabrir, menor, mas vai reabrir. E podia abrir no meu bairro…aqui no flamengo os aluguéis não são tão altos…. É preciso mudar de ares e renovar. Por que esse apreço pelo Leblon???

  • Por: Maria das Graças
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  • 25 de outubro de 2011 at 23:05

Foi uma pena, embora já sentíssemos a queda na qualidade. Fará falta certamente e, especialmente, aos turistas que lotavam os seus salões. E como voce disse o Talho vai relaxar ainda mais na falta de qualidade.

Eu penso que o comércio segue o gosto do consumidor. E eu não vejo por aqui um grande número de pessoas que dêem valor a uma boa comida. A comida tem sido tratada nos mercados e feiras que frequento aqui no Rio como remédio. A a valorização de tudo que é “bio” está se tornando uma paranóia no mundo, inclusive na França. Uma pena!

  • Por: Constance Escobar
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  • 25 de outubro de 2011 at 23:10

Marcus, também acho que a cidade só tem a perder com esse surto no mercado imobiliário.
Maria, concordo com você; acho que o Rio de Janeiro ainda não aprendeu a valorizar certo tipo de estabelecimento gastronômico…
E Jorge, acho que a questão é somar, não subtrair. Concordo com você que a cidade não pode ficar restrita a meia dúzia de bairros. Mas não é preciso que estabelecimentos deixem de surgir em certos bairros pra que possam crescer em outros. O Rio precisa exatamente abrir o leque. No caso do Garcia, nasceu no Leblon, tinha uma história no bairro, natural que reabra ali, se for o caso…

  • Por: Antonio
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  • 1 de novembro de 2011 at 16:14

A tendência é piorar, a bolha imobiliária está elevando os aluguéis no Leblon até níveis que estão deixando muitos negócios economicamente inviáveis, vários fecharam e outros encerramentos virão, saiu até uma reportagem sobre isso, o Aquim é uma loja que corre o risco de jamais rebrir após a dona do imóvel ter triplicado o alguel de uma tacada só, cada vez mais os preços aumentam mas a mediocridade continua, com preços tão exorbitantes não dá para esperar outra coisa, e a maior parte da culpa é da população local que aceita pagar muito por pouco. Se fosse feito um boicote aos restaurantes medíocres e caros do Rio de Janeiro, mais de 90% fechariam as portas, e estou sendo generoso.

  • Por: nike requin
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  • 14 de novembro de 2011 at 5:24