Por dentro do Rio
Irajá, a nova casa do chef Pedro de Artagão
Já tinha comentado nesse post aqui que, entre as inaugurações que aconteceram na reta final de 2011, a que mais me gerou expectativa havia sido o Irajá. Gostava muito do trabalho que Pedro de Artagão vinha fazendo no Laguiole nos últimos anos e, particularmente, achava que sua cozinha merecia outro tipo de ambiente, menos formal e asséptico, mais caloroso. Como é, afinal, a comida que Pedro sempre buscou fazer. Uma cozinha que tem o pé no Brasil, mas busca inspiração em culturas diversas, sempre permeada, de alguma forma, por referências da memória afetiva, o que parece estar ainda mais presente no interessante cardápio da nova casa.
Foi pensando a respeito de tudo isso que me dirigi ao Irajá em dezembro, ainda em seus primeiros dias de vida. O projeto arquitetônico me pareceu certeiro: deu ao chef, finalmente, um ambiente que dialoga com o tipo de cozinha que ele propõe. O belo espaço na rua Conde de Irajá é meio restaurante, meio casa. Dá vontade de morar na antessala de pé direito alto, paredes de tijolos aparentes e móveis antigos. Nos fundos da casa, o arejado salão, coroado por um jardim vertical, é outro acerto.


Minhas expectativas, no entanto, seriam frustradas pelo que saiu dos fogões naquela noite. Fui embora sem saber muito bem se era eu que esperava demais – abrindo, assim, caminho pra decepção – ou se o problema era o pouco tempo de vida da casa… Preferi, então, esperar, deixar o tempo agir, antes de pretender formar alguma convicção. Voltei cerca de um mês depois. E ainda não encontrei exatamente o que procurava – o brilho do Artagão dos tempos do Laguiole -, mas fui mais feliz do que na vez anterior.
Na última visita, em vez de me acomodar no salão, arrisquei jantar na antessala mesmo. É preciso fazer certo malabarismo, especialmente se forem mais de duas pessoas a dividir as pequenas mesas, mas o charme do ambiente compensa. Outro bom motivo pra se acomodar ali é que se pode percorrer todo o cardápio de petiscos – no salão de jantar, se não me engano, apenas poucos deles estão disponíveis. E foi o exatamente que fiz: experimentei vários. Talvez tenham sido o melhor da noite. Os chips de mandioca com grana padano e manteiga de garrafa chegaram sequinhos e gostosos. As batatas fritas caseiras (acompanhadas de mostarda, maionese e queijo fundido) são um alento pra quem, como eu, não consegue compreender tanto restaurante se permitindo servir batata congelada… Provei, ainda, bons croquetes de carne e coxinhas de galinha.

Já nas entradas, comi uma boa versão de caprese (taí um prato sobre o qual Pedro gosta de se debruçar; já criou algumas versões): creme de mussarela de búfala, tomatinhos doces e bem temperados e delicioso pangrattato. Voltei ao “Galinheiro”, que já tinha experimentado da primeira vez: ovo, demi-glace de galinha, curau de milho e crocante de canjiquinha. Seria uma beleza não fosse o excesso de sal. Na primeira vez, estava muito salgado. Nesta última, tinha menos sal, mas ainda estava um tom acima.

Foi nos pratos principais que vi os maiores tropeços. Os gnudis de baroa com molho de funghi eram saborosos, mas faltava sutileza à massa. Na versão de bife à parmegiana, a carne veio além do ponto. Na costelinha ao barbecue com bolo de fubá (outro prato que também esteve no meu percurso na primeira vez), a broa me pareceu um tanto doce pra coadjuvar a costelinha, que já tinha, afinal, a doçura conferida pelo barbecue…

Encerramos com um gostoso bolo de brigadeiro, servido quente com creme inglês, e um bom mil-folhas com frutas vermelhas, em que o creme de confeiteiro ganha leveza com o provável uso do sifão.

Por ora, voltaria pra uma noite sem maiores pretensões, me limitando aos petiscos e algumas entradas, ali mesmo, na antessala – a tal onde eu gostaria de morar… Pra jantar, propriamente, prefiro esperar um pouco mais, dar tempo pra que a cozinha amadureça.
Irajá Gastrô – Rua Conde de Irajá 109 – Botafogo
http://www.irajagastro.com.br/
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