Por dentro do Rio

Peixe do dia em cartaz no almoço do Venga!

por Constance Escobar em

No final do mês passado, quando soube que entrava em cartaz, no almoço do Venga!, o “pescado del dia”, fui imediatamente conferir. E tive uma boa surpresa. Sou fã de peixes, que pra mim, são sempre melhores quanto menor for seja intervenção que sofram. Acredito que azeite e flor de sal costumam ser o suficiente quando se tem um bom peixe em mãos. Mas não é tão fácil, na média dos restaurantes do Rio de Janeiro, encontrar um bom lugar pra comer um peixe fresco, bem feito, a bordo dessa bem-vinda simplicidade. Sem fritura, sem molhos, sem interferências que, tantas vezes, só servem pra camuflar a falta de qualidade ou de frescor do produto.

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Como eu dizia, há alguns dias, o Venga! passou a ter, diariamente, no horário de almoço, dois tipos de peixes expostos no balcão. O cliente olha, escolhe o que lhe agrada, o garçom pesa na hora (os peixes são vendidos inteiros e cobrados por peso) e o bichinho segue direto pro forno, numa assadeira de ferro fundido. Gosto de um bom peixe assado e saber que era feito dessa forma, sem muito mais do que umas pitadas de sal, folhinhas de alecrim e um tanto de azeite, já me deixou a expectativa de uma boa refeição.

Embora tenha ido pro peixe do dia, não havia como sair dali sem uma breve incursão pelas – quase sempre – ótimas tapas da casa. Antes do peixe, uma salada de bacalhau com feijões brancos e cebola roxa e alguns rolinhos de miga com anchova, emmenthal e mostarda, dois dos meus pedidos de sempre.

Nosso pargo chegou inteirinho, acomodado na assadeira em que foi levado ao forno, e acompanhado de batatas, aspargos e cogumelos salteados, tomates e cebolas roxas caramelizadas.

Não vou negar que já comi pargos melhores, mas o do Venga! era bastante bom. Fresco, bem feito. Leve, perfumado, a carne se desmanchando no garfo. Os legumes estavam gostosos, à exceção dos aspargos, que podiam estar menos cozidos, mais crocantes. Cabe aqui uma observação: no dia em que estive lá, percebi que o acompanhamento era idêntico, fosse o peixe de menor porte, servido como porção individual, fosse o peixe um pouco maior, a alimentar duas pessoas, o que me pareceu inadequado. Mas, pelo que soube, a cozinha da casa já fez o devido ajuste.

No balanço geral, considerando a qualidade daquele almoço, achei justos os cerca de R$50,00 per capita que gastamos ali. Numa região onde o ticket médio alcança os R$100,00 – qualquer que seja o gênero de estabelecimento e, o que é pior, qualquer que seja a qualidade da comida servida – o almoço do Venga! me pareceu um bom negócio.

Venga! Bar de Tapas – Rua Dias Ferreira 113 B – Leblon
Rua Garcia d’Ávila 147 – Loja B – Ipanema
www.venga.com.br

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Aterro do Flamengo: a pé é ainda mais bonito

por Constance Escobar em

Já disse isso aqui algumas vezes: de onde quer que eu venha, voltar à minha cidade pelo aeroporto Santos Dumont é coisa que me emociona. Não consigo conter. Por mais que eu já tenha aterrissado ali dezenas de vezes, sempre me comovo. Mas o que me comove ainda mais que a descida é a ida pra casa atravessando o Aterro do Flamengo e a Praia de Botafogo. Eu rio – juro –,  rio sozinha dentro do carro, enquanto vão deslizando pela janela aquelas árvores soberbas escolhidas a dedo por Burle Marx, manchando o céu quase sempre azul. Um assombro aquele parque. O Outeiro da Glória, o Redentor, o Pão de Açúcar, cada um vai invadindo o cenário quase como uma aparição. Percorrer esse caminho me deixa em estado de graça. Sempre.

Sei que não é muito diferente o que sentem os turistas que chegam ao Rio por aquele aeroporto. Mas sei também que são muitos os turistas que jamais transitaram por ali sem o amparo das quatro rodas de um automóvel. E eu preciso lhes dizer que não sabem o que estão perdendo. Visto do chão, de onde se tem a sensação de que é quase possível tocar a paisagem, o Aterro é ainda mais bonito. É possível ver tudo aquilo que os olhos não alcançam da janela do carro… E, de quebra, sentindo a brisa abençoada que sopra direto da Baía de Guanabara. E isso não há ar condicionado de carro que reproduza (entendam bem, tudo o que digo aqui faz mais sentido de abril a novembro, pois, de dezembro a março, os termômetros cariocas registram temperaturas desumanas).

Aos domingos, as vias ficam fechadas pra carros e o Aterro vira uma enorme área pra pedestres.  Em compensação, a praia lota. Durante a semana, você não vai poder caminhar livremente por onde transitam os carros, mas, em compensação, o percurso às margens do mar fica relativamente vazio. Em determinados horários, terá a impressão de que a paisagem está ali só pra você.

Alguns pedaços daquela extensão de terra, que começa no Santos Dumont e alcança o início da Praia de Botafogo, por vezes me remetem a espaços públicos incríveis em outras metrópoles do planeta. Ora o Central Park, ora os parques e bosques de Palermo e Belgrano, ora o Port Vell e a Barceloneta. Mas a verdade é que ando por ali e me espanto com a mão invisível que executou o traçado do Rio de Janeiro. Nova Iorque, Buenos Aires, Barcelona e outras tantas que me perdoem, mas o mundo ainda não me apresentou cidade mais bonita que a minha.

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Café Botânica: o velho problema do serviço no Rio de Janeiro

por Constance Escobar em

Tenho um caso de amor com o Jardim Botânico. Não há parque ou jardim no mundo que me emocione mais. Nem o esplendor das tulipas do Keukenhof, nem a perfeição dos jardins geométricos de Versailles, nada me diz à alma como o Jardim Botânico (talvez os Jardins de Luxemburgo cheguem perto, afinal, Paris é a única cidade do planeta capaz de rivalizar com o Rio de Janeiro na disputa pelo meu coração). Entro naquele lugar e sinto uma coisa que não sei bem explicar; só sei que não tenho vontade de ir embora. Deve ser algo parecido com o que fazia Tom Jobim passar ali incontáveis horas…

A ideia de começar o dia com um café da manhã dentro do parque volta e meia me revisitava. Mas as prateleiras do balcão do Café Botânica sempre me pareceram tão pouco convidativas que nunca levei a ideia adiante. Pois, no último domingo, resolvi arriscar. O céu do Rio havia amanhecido tão absurdamente bonito que não contive o ímpeto de rumar pro Jardim Botânico,  disposta até mesmo a um café meia boca só pra poder estar ali. Era onde eu queria estar naquela manhã.

Cheguei pouco antes das dez e o lugar já estava lotado. Formava-se já um grupo à espera de mesas. Não conseguíamos falar com nenhuma das funcionárias, que se atropelavam pra atender a todos os clientes. Quando, enfim, conseguimos ser ouvidos, perguntamos pela lista de espera e recebemos como resposta: “não tem lista de espera aqui não”. Insistimos: “como é que faz, então?” No que a moça respondeu: “fica olhando e quando vagar uma mesa você pega”. Incrédulos, retrucamos: “mas tem muita gente querendo mesa, isso não vai dar briga, não?” O que ouvimos dela? “Sempre tem briga, mas o que é que eu posso fazer?”

Tinha razão a moça. Jogada aos lobos, ela não podia mesmo fazer nada, a não ser tentar salvar a própria pele diante dos olhares furiosos de quem não consegue ser atendido a contento. Quem pode fazer, mas não faz, é a pessoa que explora aquele espaço. A pessoa que ganhou o direito de explorar um espaço privilegiado como aquele e se limita a fazer o mínimo: servir comida não mais que razoável numa estrutura sem nenhuma organização, sem dispensar ao cliente o respeito que ele espera – e merece.

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Desisti, claro, de esperar por uma mesa. Não seria possível fazê-lo com civilidade. Quando deixei o café, cariocas e turistas penavam numa fila desordenada, na tentativa de comprar uma simples garrafa de água pra seguir a caminhada no parque. Mas não parecia haver ninguém ali preocupado em melhorar aquela situação. Sabem o que é o pior? A minha própria revolta não durou mais que uns dois minutos. Quando, aos primeiros passos, aquele incrível cenário – onde já estive dezenas de vezes, mas que me espanta sempre como se fosse a primeira – se escancarou diante de mim, eu já nem me lembrava mais da tentativa frustrada no Café Botânica… Quem lembraria?

Isso é a cara do Rio de Janeiro. A cada esquina somos mal atendidos, topamos com incompetência, negligência, falta de vontade e iniciativa – pública e privada. Mas aí a gente anda mais um pouco e dá de cara com o mar. Ou a Lagoa. Ou a Floresta da Tijuca. A natureza redime. O exagero de beleza que é essa cidade cala no peito e, muitas vezes, faz todo o resto parecer menos importante. E vamos seguindo assim, sendo mal servidos de todos os lados e esquecendo logo adiante. Até quando?

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OsGemeos assinam direção de arte do Back2Black e grafitam vagões da Estação Leopoldina

por Constance Escobar em

Desde a noite de ontem, a Estação Leopoldina abriga a terceira edição do Festival Back2Black. Nas edições anteriores, a direção de arte do evento esteve nas mãos de nomes da nata das artes visuais do país, como Bia Lessa, Gringo Cardia e Vik Muniz. Esse ano, o festival não deixou por menos e delegou a tarefa aos irmãos grafiteiros e artistas plásticos Otávio e Gustavo Pandolfo, conhecidos como OsGemeos.

Estive lá ontem, poucas horas antes de o festival abrir as portas para o público, e pude ver de perto o belíssimo resultado. A impressão que fica é a de que a linguagem da dupla encontra pouso certo no cenário algo decadente da estação desativada. Embora tenham deixado, há muito, a marginalidade do graffiti para serem alçados ao mainstream, o DNA de sua arte está em tudo o que fazem. São perfeitamente reconhecíveis os traços dos irmãos paulistas, que parecem digerir a aridez da urbe e ruminá-la de forma onírica, através dos inconfundíveis personagens amarelos, que, além de tudo, são profunda e irremediavelmente brasileiros.

Em conversa com Gustavo, o artista fez questão de lembrar que o  Back2Black deu a eles a chance de experimentar algumas “primeiras vezes”. É a primeira vez que montam uma instalação dentro de um trem, ideia que surgiu assim que se depararam com os vagões abandonados da Leopoldina. Usar o teto como suporte para uma instalação também é algo que ainda não haviam realizado.

Ao entrar na área do festival, é inevitável o impacto. Cabeças de personagens se materializam em balões que tomam o teto do interior da estação, onde está montado o palco.

Mas as intervenções feitas na área externa da estação me pareceram ainda mais interessantes. Como se aquele cenário se revelasse o substrato perfeito pra arte dos irmãos Pandolfo. Como se o abandono dos vagões desativados fosse um convite às cores do graffiti.

A dupla chamou três artistas amigos pra fazerem parte do processo. E eles mesmos assumiram um dos vagões. Na parte externa do trem, pintaram um personagem. No interior, montaram uma instalação feita com espelhos, algo como um reflexo do que está na cabeça do personagem pintado do lado de fora. O resultado das intervenções é pura poesia urbana.

Back2Black – de 26 a 30 de agosto na Estação Leopoldina

http://www.back2blackfestival.com.br/

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Um bom lugar pra reencontrar Copacabana

por Constance Escobar em

Bairro difícil de traduzir esse. Uns amam. Outros odeiam. Eu transito entre e um e outro extremo. Ora amo, ora odeio.  A verdade é que as ruas do eterno cartão postal viram o glamour dos anos dourados dar lugar ao caos profetizado por Rubem Braga em sua antológica crônica. As “sereias sempre sorrindo” dos versos da canção de Braguinha foram depostas pelos “centauros de silicone” evocados por Francisco Bosco nas estrofes de Noturno Copacabana.  No meio do caminho, restou algum encanto. Mas há que saber procurar…

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Dia desses, testemunhando o cair da noite sobre o mar da princesinha, me veio a certeza de que, sim, entre o glamour agonizante e o caos reinante, há, perdido em algum lugar, o brilho que fazia Caymmi querer passar por lá os seus fins de semana.  Jaz no fundo daquelas águas uma Copacabana que as ondas trazem de volta a cada fim de tarde, a cada anoitecer. Se quiser uma dica pro programa desta noite, inspirada em Dorival, eu lhe digo por onde começar: tome o rumo do Forte, acomode-se e espere o espetáculo acontecer. O anoitecer em Copacabana, visto dali, é uma sucessão de cenas de rara beleza. Capaz de abalar as ceretezas dos mais convictos detratores do bairro…

Forte de Copacabana – Praça Coronel Eugênio Franco 01 ( no início da Avenida Atlântica)

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