Por dentro do Rio

Rio Gastronomia: cozinha itinerante leva gastronomia às ruas da cidade

por Constance Escobar em

Esse ano o Circuito Rio Show ficou maior. Na verdade, passou a fazer parte de um evento mais abrangente, o Rio Gastronomia. Uma das boas novidades é o Cozinha Show, um caminhão que roda a cidade com uma cozinha montada em sua caçamba, que é totalmente transparente e permite que o público aviste o que se passa na bancada. Alguns dos melhores chefs da cidade foram escalados pras demonstrações, que começaram na última sexta-feira e vão até o próximo domingo.

Esse fim de semana teve Claude Troisgros no Morro Dona Marta, Teresa Corção no Jardim Botânico, Frédéric de Maeyer na Lapa e Ana Ribeiro na Lagoa. Fui assistir à aula de Teresa no sábado. Sou fã absoluta do engajamento da chef, que trabalha movida pela crença de que a gastronomia pode ser um instrumento de transformação social e de promoção da cultura de um povo. Escolheu a Feira de Orgânicos do Jardim Botânico como palco de sua apresentação e convocou o bravíssimo time de Ecochefs pra empreitada.Ali reuniram crianças num trabalho lúdico de resgate da origem dos alimentos, algo como ensinar aos pequenos que tomates e berinjelas não nascem nas prateleiras dos supermercados. Parece bobagem, mas não é. Num mundo dominado pela tecnologia, as crianças crescem cada vez mais apartadas do campo e esse resgate é providencial. Foi bonito ver os miúdos fazendo feira, conhecendo ervas, mexendo na terra, plantando mudas. O olhar de curiosidade instalado em cada um deixava clara a disponibilidade pra aprender. Basta haver quem esteja disposto a ensinar.

Essa é apenas uma amostra do Cozinha Show, que, ao longo da semana, continua a percorrer os quatro cantos da cidade. Amanhã tem aula de Roberta Sudbrack na Praça XV e de Flávia Quaresma na Praça Saens Peña. Nos próximos dias, tem Celidônio na Cinelândia, Kátia Lopes no Largo do Machado, Roland Villard na Cidade de Deus e a gaúcha Helena Rizzo, do restaurante Maní (meu favorito em São Paulo), encerrando o evento no domingo na Gávea. A programação completa está disponível no site do Rio Gastronomia.

Na Fogo de Chão carioca, ao menos por ora, só o cenário se salva

por Constance Escobar em

Embora eu não seja propriamente uma fã de rodízios de carnes,  a elogiada e premiada rede Fogo de Chão sempre me despertou curiosidade. Uma ponta de vontade de conferir se era realmente superior à média. Não a ponto de me fazer entrar, mesmo já tendo cruzado meu caminho algumas vezes em algumas cidades. Mas, com a abertura de uma filial aqui no meu quintal, achei que era hora de ir conferir. Até porque a sucursal carioca tem uma considerável vantagem sobre as demais: o fato de estar debruçada sobre a Baía de Guanabara. Esperei a casa completar mais de um mês de vida e, finalmente, fui ver o que é que a Fogo de Chão tem. Adianto que saí sem resposta.

O salão envidraçado deixa a baía, o colorido dos barcos e a silhueta do Pão de Açúcar ao alcance dos olhos. De tirar a concentração…

Infelizmente, a casa não está à altura do cenário. Ao menos, foi o que se revelou nessa minha recente visita. O ruído excessivo, o serviço sufocante e o entediante bufê de saladas e frios, de certa forma, já estavam no script. Até aí, nada que cause espanto. A primeira surpresa me veio com a travessa que apresentava os tomates mais pálidos e feios que vi num restaurante nos últimos tempos. Em seguida, o tabule com pepinos, cebolas e tomates cortados grosseiramente também me fez duvidar do padrão que se costuma atribuir à casa. Entre os acompanhamentos quentes nada digno de nota.  Às carnes, que são, afinal, o que importa ali, restava o peso de fazer justiça à fama da rede… Doce ilusão. Os primeiros cortes vieram passados demais. Pedi aos garçons que os trouxessem menos passados. Enquanto isso, aterrissou na minha mesa um bife ancho ainda longe do ideal. Refiz a observação. Na sequência, uma costeleta de cordeiro que desafiava o fio da faca e minha habilidade em manejá-la. Quanto à linguiça que veio em seguida, não é que não fosse um primor; era ruim mesmo. A picanha, suculenta e saborosa, fazia acreditar que nem tudo estava perdido. Mas uma costela de porco absurdamente seca colocaria nossas expectativas no devido lugar. A última tentativa, com o shoulder steak, não foi mais bem sucedida. Quando eu já havia desistido, o garçom com quem, lá no início, comentei sobre o ponto da carne, me trouxe novos bife ancho e fraldinha. O primeiro, agora no ponto, talvez tenha sido o melhor do almoço. Já a fraldinha… Achei melhor esquecer.

Jamais estive em outra unidade da Fogo de Chão, portanto não posso dizer se o problema é pontual ou se a rede, realmente, não faz jus aos elogios que costuma receber. E como não pretendo me brindar com nova visita a nenhuma de suas sucursais num futuro próximo, provavelmente, vou passar mais um tempo sem saber. O que posso afirmar, com base em meu almoço por lá, é que, na filial carioca, ao menos por ora, só o que se salva é o cenário.

Fogo de Chão – Av. Repórter Nestor Moreira s/n – Botafogo

http://www.fogodechao.com.br/

As atualizações do blog você também acompanha no meu twitter

Leia também:
Porto da Barra: complexo gastronômico nas areias de Manguinhos
Doiz e Q Gastrobar: nova leva de bares no Rio de Janeiro

Queremos Miles: um bom motivo pra ir ao CCBB

por Constance Escobar em

Mesmo que você não seja um aficionado por jazz. Mesmo que você não se arrepie com o trompete de Miles Davis anunciando as primeiras notas de “Round Midnight”. Ainda assim, eu lhe diria para não perder a exposição “Queremos Miles”, em cartaz no CCBB Rio. Como já disse aqui, acho que ir ao CCBB é sempre um bom programa. Uma exposição como essa eleva a visita à categoria dos programas imperdíveis.

Organizada pela Cité de la Musique de Paris, essa é o que toda exposição gostaria de ser. Belíssima e extremamente abrangente, percorre toda a cronologia da história desse genial músico, desde seu nascimento, passando por cada fase de sua riquíssima trajetória profissional. Está tudo lá: fotografias, artigos de jornal, partituras, pôsteres, imagens, projeções e até roupas usadas pelo artista em capas de discos. Aliás, todas as capas de seus LPS estão em exibição. Belíssimas capas, coisa de um tempo em que a arte no disco ia além da música. Quem for verdadeiro admirador de jazz, prepare-se pra se emocionar ao dar de cara com alguns dos trompetes usados por Miles e mesmo um sax que pertenceu a John Coltrane, outro gênio, que integrou o Quinteto de Miles.  E pra ouvir música, muita música, tocando continuamente em várias câmaras espalhadas pelos corredores da mostra.

Saí da exposição ainda com aquele sopro particular, único, de Miles retumbando em meus ouvidos. Sopro cujo mistério talvez tenha encontrado sua melhor definição nas palavras do próprio músico:

“Queremos Miles” – até 28 de setembro no CCBB Rio. Rua Primeiro de Março 66 – Centro

As atualizações do blog você também acompanha no meu twitter

Leia também:
CCBB-Rio: sempre um bom programa
Por dentro do centro do Rio

Outeiro da Glória: joia da arquitetura colonial em cenário ímpar

por Constance Escobar em

Certamente, há igrejas mais imponentes e talvez mesmo de maior valor arquitetônico no Rio de Janeiro. Mas, considerando o conjunto da obra, não sei se há outra tão especial como a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. A nave não é monumental. Não há paredes revestidas de folhas de ouro. E, apesar da amplitude projetada pelas pilastras e pelo teto abobadado, o salão é algo intimista. As paredes brancas pontuadas por belíssimos azulejos portugueses conferem um tanto de poesia à atmosfera sóbria…

A sacristia com chão de mármore e teto em tábua pintada – e mais azulejos, muitos mais – abre-se para o pátio externo, de onde se tem uma visão geral do conjunto, uma verdadeira pérola da arquitetura colonial.

E é ali, do lado de fora, que acontece o espetáculo maior: a sobriedade do projeto da igreja dialoga com a extravagância da beleza do entorno.  A elevação onde está situada (que, embora muita gente não saiba, pode ser alcançada através de um funicular a partir da Rua do Russel), coloca-a em posição privilegiada, pairando sobre o Aterro do Flamengo. Do bucólico pátio, olha-se para um lado, depara-se com o centro da cidade; vira-se para outro e se vê, ao longe, o Corcovado. E, de quase todos os ângulos, está ela, dominando a paisagem: a Baía de Guanabara.

Outeiro da Glória: pelo funicular a partir da Rua do Russel ou acesso pela ladeira da Glória

http://www.outeirodagloria.org.br/

As atualizações do blog você também acompanha no meu twitter

Leia também:
Rio, uma epifania, da revista VIAGEM E TURISMO
Outono e primavera se encontram em pleno inverno carioca

Outono e primavera se encontram em pleno inverno carioca

por Constance Escobar em

Quando alguns amigos de fora me dizem que não vale a pena vir ao Rio no inverno, penso comigo: “Tolos, não imaginam o que perdem…” Contrariando as massas, particularmente, considero o verão a pior das estações pra visitar a cidade. Calor senegalês, ruas cheias, praias apinhadas de gente, bares e restaurantes lotados. Se pudesse, nem eu andava por aqui no verão. Vir no outono, na minha opinião, é um dos melhores presentes que o turista pode se dar. A luz é única, não se repete em nenhuma outra estação do ano. Mas, se você não veio no outono, eu lhe diria que, sim,vale a pena vir no inverno. Há dias de céu chumbo e, eventualmente, há chuva – às vezes, muita chuva . Mas não é assim na maior parte do tempo.

Leia também:
Outono/Inverno: a melhor época do ano pra se visitar Búzios

Acredite, a cidade fica absurdamente charmosa nos dias frios. Gosto de caminhar pela Lagoa ou à beira da praia, sentindo a brisa gelada do inverno. Ou andar por aí, admirando as silhuetas que costumam ilustrar cartões postais se insinuando por trás das nuvens… Em boa parte do tempo, as temperaturas são bastante mais baixas do que as que chacoalham os termômetros de janeiro a março, mas, ainda assim, são muitos os dias de céu azul, que rendem o que eu considero a praia perfeita: há sol, mas não há calor. Os fins de tarde podem não ter a aura especial do outono nem a dramaticidade do verão, mas não são menos belos. É bonito ver o sol deslizando discretamente por trás das encostas, saindo de cena sem muito alarde…

Mas o melhor eu lhes digo agora. O Rio é uma cidade que não respeita convenções nem mesmo nos calendários. Administra as estações do ano como bem entende. Essa irreverência promove um encontro único: primavera e outono se esbarram nas esquinas do inverno.  Costuma acontecer entre a reta final de julho e o início de agosto. Momento em que árvores como os ipês estão no esplendor. Cachos de flores colorem a cidade de forma comovente. Caminhar pelo Aterro do Flamengo a essa altura do ano é alcançar estado de graça. Em dias iluminados, olhar pro alto é certeza de se emocionar com as cores das pétalas rasgando o azul inacreditável do céu. Tomando emprestadas as palavras de Caetano, há dias no inverno carioca em que o céu assume um tom de azul quase inexistente, azul que não há…

E se, por um lado, a primavera invade o inverno antes da hora, fazendo barulho, o outono volta sem avisar e, quando se vê, já está enruivecendo as amendoeiras que cobrem o Rio como um manto. De folha em folha, vai levando embora o verde e manchando de vermelho a paisagem, até que, em poucos dias, tome conta de tudo. Tenho a bênção de ter alguns pares delas à minha janela e lhes asseguro: é dos espetáculos mais bonitos que se pode testemunhar nesta cidade.

Quem inventou a balela de que não vale a pena vir ao Rio no inverno, como diria Chico, tenha a fineza de desinventar.

P.S. Não custa lembrar: todas as fotos que ilustram esse post foram feitas no inverno deste ano. Mais precisamente, de julho pra cá.


As atualizações do blog você também acompanha no meu twitter