Por dentro do Rio
Gávea: onde o Rio ainda é ontem
Num mundo onde não há mais há mais passos em falso e onde nos vemos cercados de todo tipo de tecnologia pra nos poupar de andar em vão, não há nada como permitir-se, de vez em quando, vagar sem rumo. Andar sem direção, perder-se intencionalmente pelas ruas de uma cidade. Gosto de fazer isso em qualquer lugar aonde eu vá. No meio de mapas, aplicativos, assentos reservados e horas marcadas, abrir espaço pra um pouquinho de acaso. Não que as cidades não sejam capazes de nos surpreender mesmo quando somos só certezas. Cidades são arquitetadas pra nos surpreender. Mas quando abrimos a alma pra que isso aconteça, elas costumam agradecer.
E se calhou de a minha cidade ser a mais bonita do mundo, seria um sacrilégio dedicar esse exercício só às outras. Às vezes, passo longos meses sem praticar, confesso. Mas aí me cai a ficha e, pra não perder a prática, elejo um bairro onde me perder. Vou, não pra sentar naquele bar, visitar aquele parque, almoçar naquele restaurante, mas pra andar a esmo. Fazer isso é permitir-se dar de cara com aquela casa que nunca antes tinha cruzado seu caminho, dobrar aquela esquina que você nem lembrava mais que estava ali, topar com aquele jardim que você não contemplava há tempos… Exercício valioso esse.
Dia desses, elegi a Gávea. Vou à Gávea toda semana, mas há quanto tempo não andava por ali sem rumo… Perder-se pelas ruas menos óbvias do bairro é dar de cara com o Rio de Janeiro das casas nostálgicas, das árvores seculares, dos chãos de paralelepípedos, das ruas onde gente pede passagem a micos e passarinhos… Deu quase pra matar as saudades de um tempo que eu não vivi.









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Arlequim: parada obrigatória pra quem gosta de boa música
Quem transita por esse blog sabe do meu apreço pela Praça XV. É um dos meus cantos favoritos no centro do Rio. As tantas pérolas arquitetônicas fazem daquele um lugar obrigatório pra quem queira ter uma amostra do que foi o Rio em outros tempos. O magnífico Paço Imperial, a soberba Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, os nostálgicos sobrados da Travessa do Comércio, que abriga, ainda a comovente Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Além de tanta beleza e poesia, praqueles que gostem de música tanto quanto eu, há um motivo a mais pra ir à Praça XV: ali está a livraria e loja de discos Arlequim, situada no prédio do Paço Imperial.

A Arlequim é uma sobrevivente em meio à pasteurização por que passa esse mercado. E um alento pra quem ainda não se recuperou da morte da Modern Sound. Tem um vasto catálogo, onde é possível encontrar tudo aquilo que nenhuma mega store jamais vai lhe oferecer. Pros mais nostálgicos, uma boa coleção de LPs. Além disso, a loja tem uma agenda de pocket shows que traz ao público o melhor da música brasileira. Nesse último sábado, por exemplo, fui ouvir o violonista Hélio Delmiro. É ou não é um alento?


Em tempos em que o consumo de música mudou de cara e as lojas de discos já não são o que eram, é um prazer ser atendido por vendedores que não fazem cara de interrogação quando você pergunta por Villa-Lobos, Chet Baker, Baden Powell… Não, nem todas as boas lojas de discos morreram. Vida longa à Arlequim.
Arlequim - Praça XV de Novembro, 48, Loja 1 – Centro – Rio de Janeiro
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Bretagne, a nova casa de Olivier Cozan no Leblon
Neste último fim de semana, abriu as portas a Bretagne, nova empreitada de Olivier Cozan, um mix de padaria e bistrô. Considerando a escassez de boas padarias no Rio de Janeiro, vejo sempre com grande entusiasmo a promessa de bons pães a curta distância de casa. Vinha acompanhando a obra e aguardava ansiosamente a inauguração. Na sexta-feira, estive lá. E voltei mais duas vezes ao longo do fim de semana. Sempre a explorar o lado padaria. No bistrô, não quis me aventurar tão cedo; preferi esperar um pouco mais.

A casa leva o nome da terra natal de Cozan, que, aliás, é uma região pela qual sou apaixonada. Pela bandeira pendurada na parede e as galettes de blé noir e os kouign amanns expostos no balcão, vê-se que a homenagem à Bretanha vai além do nome.
Como disse, estive lá três vezes desde que foi inaugurada. Tomei café da manhã duas vezes e comprei alguns produtos pra levar. O serviço no café da manhã ainda está bastante confuso, mas não previa nada muito diferente no primeiro fim de semana de vida da casa. Até aí, tudo dentro do script. Mas confesso que, pelo preço cobrado, esperava mais da comida. Esperava, por exemplo, geleias artesanais no lugar das industrializadas. Esperava um chocolate quente feito com chocolate em barra e não um que me lembrasse o famoso achocolatado que já não me agradava mesmo na infância… Tirando isso, o ovo à la coque veio ótimo nos dois dias. E o prato de queijos e frios, apesar de não ser notável, vai além da entediante dobradinha queijo minas/peito de peru. Nesse sentido, ponto pra Bretagne. Mas no que mais me interessava, a casa ainda não me conquistou: os pães. Dos que experimentei, os melhores foram o brioche e o pão integral com cereais. A baguete e o pain au levain deixaram muito a desejar. E o croissant não é nem sombra do que pode ser um bom exemplar…


Mas tenho esperança de que possa ser apenas uma questão de tempo a equipe ganhar intimidade com os fornos e fazer os ajustes necessários. O que me trouxe essa esperança foram duas pequenas maravilhas que fizeram melhor meu fim de semana. As crocantíssimas galettes de blé noir, que corro o risco de se transformarem num novo vício na minha vida…

E o kouign amann, que é um delicioso bolinho farto em manteiga e açúcar, com crosta caramelizada. Um dos tesouros que a Bretanha legou ao mundo. Os primeiros que experimentei, no sábado, haviam caramelizado demais e ganhado uma capinha um tanto dura. A segunda leva já veio muito melhor. Os que trouxe pra casa ontem pela manhã (sim, sou uma moça persistente), perfeitos, foram a prova de que valeu a pena não perder a fé nos kouign amanns de Cozan. Ao que tudo indica, passarão a fazer parte da minha vida, como uma forma de acessar a doce lembrança que tenho de Cancale, onde comi um kouign amann memorável, numa pâtisserie inesquecível. Pelo visto, meu cardiologista está com trabalho garantido pelo resto do ano…
Bretagne – Avenida Ataulfo de Paiva 313 – Leblon
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O Rio de Rubem Braga
Hoje quem fala da cidade não sou eu. Deixo-os com as palavras do grande Rubem Braga. Braga não era carioca, mas aqui viveu a maior parte de sua vida. E aqui se despediu dela. Traduziu o Rio de Janeiro como poucos. Fosse na ironia fina com que abordava suas mazelas, fosse no assombro com que descrevia suas maravilhas, as palavras do cronista revelavam profunda intimidade com o objeto retratado. A intimidade de quem ama. De quem conhece o ser amado e se deixa por ele conhecer.
O Rio, explícita ou implicitamente, sempre encontrava lugar em suas linhas. Transcrevo aqui algumas das que me calam no peito, por serem a justa tradução do que eu mesma sinto por esse pedaço de terra onde nasci. Extraídas da crônica “Os Fícus do Senhor” (publicada no livro “Um Pé de Milho”), em que o escritor, mais do que falar da cidade, fala de seus fícus, pra, na verdade, falar de seus homens. Mas isso é uma outra história… Eis as inspiradoras linhas que queria compartilhar aqui:
“Ninguém pode amar mais do que eu esta cidade do Rio de Janeiro. Ó grande beleza de cidade, ó cidade que é vinte, trinta, quarenta cidades imprevistas, uma infiltrada na outra, esta mais colonial que Ouro Preto, aquela mais nova que Goiânia, uma de alta montanha, uma de oeste de Minas, uma toda de praia, outra de casarões de arvoredo – ó ruas estranguladas entre mares e morros, recantos e esplanadas, cartões-postais baratos e segredos de esquinas sutis, avenidas afogadas em sol e ladeiras de húmus esquecidos – cidade de minhas tantas agonias e felicidades, palcos de velhas inquietações, canais de silenciosa aventura, blocos de cimento que me esmagaram, praças de humilhações, arrabaldes de exaltações líricas – minha medíocre história anda escrita em tuas ruas e nenhuma entre as cidades é mais formosa que tu, nem sabe mais coisas de mim”
Um 2012 animador no cenário gastronômico carioca. Ao menos, aparentemente…
Considerando as inúmeras inaugurações na reta final de 2011 e, ainda, as tantas promessas a se concretizarem ao longo de 2012, pode-se dizer que o ano começou muito bem no cenário da gastronomia carioca. Antes do cair do pano, 2011 testemunhou a abertura de mais uma filial carioca do Gero, do Irajá (nova empreitada do chef Pedro de Artagão), do Alloro (restaurante italiano do Windsor Atlântica, que traz o chef Luciano Boseggia e o sommelier João Pedro Lamonica, egresso do Garcia & Rodrigues), da Bottega del Vino (mais um projeto da dupla Nicola Giorgio e Dionísio Chaves, do Duo), do Vieira Souto (nova casa de cozinha italiana comandada por João de Souza, André Vasconcelos e Cadu Costa). Em breve, abrirão as portas o Brigite’s (gastrobar das mesmas proprietárias do Zuka e do Sushi Leblon), na Dias Ferreira, o Quadrifoglio Caffè, na mesma rua, e, também no Leblon, a nova padaria de Olivier Cozan, cuja obra tenho acompanhado ansiosamente – desde que o Garcia & Rodrigues fechou as portas, o bairro anda meio órfão de uma padaria à altura. Fora outras promessas animadoras que se anunciam…
Aparentemente, o ano começa bem. Digo aparentemente porque prefiro ser cautelosa com as expectativas. Essa enxurrada de novidades me anima, sim, mas não muito. Primeiro porque, a cada leva de novos endereços gastronômicos que surgem na cidade, costumam ser poucos os que verdadeiramente têm algo a acrescentar. Com essas recentes inaugurações não sei se será diferente. Já estive em algumas das novas casas e, por ora, o entusiasmo ainda não encontrou lugar. Ao menos, não na minha mesa. Por outro lado, confesso que a quantidade de restaurantes de sotaque italiano entre as novidades me causa certa preguiça. A não ser que se esteja falando de algo inovador ou de uma cozinha especialmente boa, que paire acima da média – o que é raro –, não sei se as mesas da cidade precisam de mais tanto risotto e tiramisù. Quando penso nas inúmeras lacunas ainda por explorar no cenário carioca, me custa um pouco compreender tanta gente investindo em mais do mesmo. Até por isso, de todas essas inaugurações, devo dizer que a que mais me gerou expectativa foi o novo restaurante de Pedro de Artagão, chef talentoso, que provou, durante seus anos à frente do Laguiole, disposição pra construir uma cozinha inteligente, que ouse voar além da mesmice. Ironicamente, não tive no Irajá uma experiência muito feliz nos primeiros dias de vida da casa. Mais não digo porque, se dissesse, talvez assumisse o risco de uma análise leviana. Prefiro deixar pra emitir opinião quando puder fazê-lo com mais propriedade, após um retorno, o que pretendo fazer em breve.
O fato é que de monotonia não podemos nos queixar. Aos poucos, a gente vai mapeando aqui esses novos endereços. Tomara que se revelem boas surpresas entre eles. O Rio precisa. Mais que isso, o Rio merece.







