Por dentro do Rio
Da Casa da Táta: minha declaração de amor
Já tinha falado aqui, muito rapidamente, sobre o café da manhã da Táta. Mas este é um lugar que merece de mim mais do que uma rápida menção. Trata-se de um dos meus endereços favoritos no Rio de Janeiro, desses que a gente traz pra dentro da nossa rotina e não consegue mais viver sem, sabe como é? Minha história de amor com o Da Casa da Táta tem justificativas a que se pode atribuir uma boa dose de objetividade, como a qualidade dos bolos que se vendem ali – os melhores e mais frescos bolos caseiros de que tenho notícia nesta cidade. Mas, como em todo caso de amor, há muito de subjetividade na minha relação com aquele lugar.
Gosto do ambiente “fique à vontade, sinta-se em casa”. Ali, eu me sinto, de fato, quase como se estivesse em casa. Cadeiras descombinadas. Talheres de diferentes faqueiros distribuídos aleatoriamente pelas mesas. Jogos americanos montados com fotos de família, desenhos e bilhetinhos impagáveis escritos pelos filhos da Táta e do Álvaro (donos da casa, como você, se não sabia, já pode deduzir), que, volta e meia, dão o ar da graça no salão. Boa música tocando nas caixas de som. Percebe-se, claramente, que o casal tem apreço especial pela música – o que, na minha cartilha conta muitos pontos; gosto de ter meus ouvidos bem tratados.



E a cozinha? Bem, admito que nem tudo é digno de nota na cozinha da Táta. Os pães, por exemplo, acho fracos. O PF do almoço tem dias que é muito bom; em outros, nem tanto – em dia da carne assada (com arroz, feijão, farofa crocante, batatinhas coradas e salada) eu compareço sempre que posso. Mas há certas coisas que são imbatíveis ali. Como os pães de queijo: artesanais, sente-se o gosto do polvilho. Ainda não me apresentaram melhores no Rio.
A pamonha doce, coisa difícil de encontrar, chega embrulhadinha na palha, cremosa, uma delícia.
E os bolos, que, como dizia, são os melhores bolos caseiros da cidade. Os de laranja e de aipim eu poderia jurar terem saído do forno da minha mãe, tamanho é o conforto que me causam. O formigueiro, fofíssimo, com calda quentinha de chocolate, lembra o que minha avó fazia, nos tempos em que ainda tinha disposição pros fogões. E tem ele, o fondant de chocolate, bolo que ocupa lugar de destaque entre as minhas preferências. Comer uma fatia quentinha é, pra mim, como receber um abraço. Ouso dizer que minha vida sem aquele bolo ficaria um tantinho pior…
Da Casa da Táta – Rua Professor Manoel Ferreira 89 – Ljs. N/O – Gávea
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Paxeco Bar: o melhor é o céu do Jardim Botânico
Desde que soube que havia sido inaugurado um bar ao ar livre, no terraço de um sobrado da rua Pacheco Leão, de frente pro Jardim Botânico, me prometi uma visita. Sou apaixonada pelo Jardim Botânico – o bairro e, especialmente, o parque –, portanto, não podia deixar de conferir. Voltei umas duas vezes da porta, sem conseguir mesa. Há algumas semanas, enfim, consegui entrar pra ver o que é que o Paxeco tem…
Como prefiro começar sempre pelas más notícias e reservar as boas pro final, aviso logo o que é que ele não tem: boa comida. Dispa-se de maiores pretensões gastronômicas e vá com outras intenções. Pelo menos, foi o que fiz na noite em que estive lá. Já desconfiava que não fosse um lugar onde depositar a minha fome e, ao arriscar alguns pedidos, a suspeita se concretizou. Dentro do (meu) script, sem espaço pra grandes frustrações.
Mas o que o Paxeco tem? Tem o charme dos sobrados que pontuam aquelas imediações. Uma decoração meio kitsch, que tem lá a sua graça. Janelões voltados pras árvores do parque. E, acima de tudo, tem o céu do Jardim Botânico como telhado. Passa-se a noite sob a vigilância, de um lado, do Cristo Redentor e, de outro, de uma solitária e majestosa palmeira que encontrou morada na calçada do bar.
Dia desses, sou até capaz de relevar a cozinha meia boca e voltar. Só pra passar a noite sob aquele céu…
Paxeco Bar – Rua Pacheco Leão 724D – Jardim Botânico
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Arroz e Feijão: o novo menu do Le Pré Catelan
Numa entrevista com o chef Roland Villard, no final do ano passado, ele me contou que estava concebendo um novo menu, dedicado a dois dos elementos que mais presentes na mesa do brasileiro: arroz e feijão. Eu ainda alimentaria, por alguns meses, imensa curiosidade a respeito desse trabalho. Somente em julho foi lançado o “Arroz e Feijão”. Estive lá no mês passado pra conhecer as novas criações.
Como já disse aqui, considero Roland um dos maiores chefs em atividade no país. O que o moveu no novo menu foi a intenção de dar vida a pratos que trouxessem pra o universo da alta gastronomia a dupla de ingredientes, provando que é possível levá-los muito além do trivial, permitindo-se ir além das referências do receituário brasileiro e evocando influências diversas. Grande ideia. Mas confesso que, ao conferir a descrição dos pratos, instalou-se em mim a desconfiança de que, talvez, nem tudo funcionasse bem nas leituras propostas ali. Em alguns pratos, isso se confirmou. Em outros, fui absolutamente surpreendida.
O abre-alas é um duo de amuse-bouches: delicioso caldinho de feijão vermelho com chantilly de gorgonzola e delicado rolinho de folha de arroz com lagostim, mamão verde e vinagrete de açaí.
Em seguida, uma das minhas maiores surpresas naquele jantar. Quando li “feijão manteiguinha, mozzarela, tomate, creme de atum, pesto de arroz basmati”, achei muita coisa num prato só e tive dúvidas sobre a harmonia do resultado. Engano. Um levíssimo blini de feijão manteiguinha coberto com perfumado creme de atum e coroado com fatias de mozzarella e tomate e, ainda, um pesto com grãos de arroz basmati, revelou-se um candidato a melhor prato da noite.
Quase tão bom quanto estava o cremoso risotto com carnaroli, feijões verdes, camarões e uma bisque de frutos do mar e azeite que era uma maravilha.
O próximo passo seria o acarajé com foie gras grelhado, chutney de arroz vermelho e molho de maracujá. O acarajé de Roland, extremamente sutil, não é imerso no azeite de dendê, mas apenas pincelado com ele, na finalização, quando ganha recheio de pasta de amendoim. O conjunto era saboroso, mas um tanto pesado. A untuosidade do foie gras pedia algo mais leve. E o chutney de arroz vermelho, me pareceu não encontrar lugar naquele prato…
No intervalo entre uma etapa e outra, outra boa surpresa: uma interessante granité de feijão azuki com álcool de arroz. Sabor e textura remetiam, curiosamente, a um creme de castanhas…
Continuamos com o ballotine de galinha d’ Angola e um petit gâteau de feijão branco e preto, com crocante de arroz selvagem. O ballotine era gostoso, embora a carne não estivesse tão tenra. O petit gâteau de feijões, a meu ver, não funcionou bem. A textura do bolinho me pareceu estranha e aqueles sabores não me soaram como o melhor acompanhamento pro ballotine.
A sequência de pratos se encerrou com um suculento entrecôte sobre uma deliciosa mistura de cebola roxa e feijão de corda marinado em vinho tinto. O croquete de arroz negro que acompanhava a carne não dizia a que vinha…
Imagino que a sobremesa tenha sido um desafio pro grande chef pâtissier Dominique Guerin. Reunir arroz e feijão numa sobremesa notável não deve ser nada fácil. De fato, o último ato do menu “Arroz e Feijão”, uma mousse de feijão roxinho com creme de arroz argolinha branca e sorvete de cupuaçu, não é memorável. O sorvete era excelente, mas a dupla creme de arroz e mousse de feijão não chega a entusiasmar…
Le Pré Catelan – no hotel Sofitel, na Av. Atlântica 4240 – Copacabana
www.leprecatelan.com.br
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Chef Daniel Boulud fará jantar com Roberta Sudbrack e Claude Troisgros no Rio de Janeiro
Em maio, de passagem por Nova Iorque, calhou de meus dias na cidade coincidirem com a semana de inauguração da nova casa do chef Daniel Boulud, o restaurante Boulud Sud – por sinal, excelente jantar. Você deve estar se perguntando: o que é que isso tem a ver com o Rio de Janeiro? Explico. Naquela noite, tivemos o privilégio de ter o próprio Boulud à nossa mesa. Mal chegamos, uma amiga comentou que eu era do Rio e o chef, mostrando o celular, comentou: “Claude Troisgros acaba de me telefonar, convidando pra participar de um jantar no Rio de Janeiro em outubro… O que acham?” Confesso que me entusiasmou a possibilidade, mas tive dúvidas se ele viria mesmo… E foi com grande satisfação que soube, há alguns meses, que o jantar vai acontecer. Boulud vem ao Rio pela primeira vez e, no dia 07 de outubro, vai dividir a cozinha com dois dos grandes nomes da gastronomia carioca: além de Claude Troisgros, a chef Roberta Sudbrack também estará em ação no jantar. Cada um assinando duas etapas do percurso proposto. No último ato, entram em cena, ainda, os chefs Benoît Sinthon e Yves Michoux, do Il Gallo D’ Oro, na Ilha da Madeira.
O menu já está definido:
Canapés (por Claude Troisgros)
Croc de shitake
Salmão e caviar de tapioca
Macaron de gorgonzola
Steak tartare com chips
Espuma de cogumelos
Tartelete de baroa
Polvilho dedo de moça
Entrada Fria (por Roberta Sudbrack)
Brandade de bacalhau e foie gras
Entrada Quente (por Daniel Boulud)
Lagostim crocante com iogurte grego, pepino mentolado e gremolata de lima
Primeiro Prato (por Claude Troisgros)
Lombo de cherne com batata doce, vinagrete limão e mel
Segundo Prato (por Roberta Sudbrack)
Barriga de porco braseada com farinha de banana
Terceiro Prato (por Daniel Boulud)
Duo de Black Angus
Sobremesa (por Benoît Sinthon/Yves Michoux)
Fina folha de chocolate amargo Tainori, creme de baunilha e framboesa
Pra quem não quiser perder essa oportunidade, aqui estão os dados para reserva:
R$ 475,00 (vinhos incluídos). Preço por pessoa mediante pagamento antecipado
Telefones para reserva: 21 3860-1701
Gávea Golf Club: Estrada da Gávea, 800, São Conrado
Pra mais informações: www.zahilsaberviver.com.br
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Meus cinco endereços gastronômicos favoritos no Rio de Janeiro
Falo muito aqui no blog de vários dos endereços gastronômicos cariocas pelos quais eu tenho especial apreço. Mas, com alguma frequência, recebo mensagens de leitores me pedindo a crème de la crème. Em bom português, o melhor do melhor. Confesso que não gosto muito dessa coisa de números, listas e rankings, “top” isso, “top” aquilo. Mas, por outro lado, não me eximo de dar minha opinião quando me pedem. Então, como nem sempre dá pra responder a todos os e-mails, aproveito pra responder de uma vez por aqui. Nem de longe com a pretensão de eleger os melhores, mas apenas pra falar sobre aqueles que, por uma infinidade de diferentes motivos, são os meus endereços favoritos na cidade; aqueles dos quais não abro mão. Sem nenhuma pretensão de absoluta objetividade ou de uma avaliação puramente técnica. Uma coisa é eleger tecnicamente o time das melhores cozinhas de uma cidade. Outra é eleger o “seu” time de favoritos e aí entram em campo mil e uma razões que extrapolam a objetividade. Portanto, esta é uma eleição permeada por subjetividade, que fique claro.
E logo eu, que não gosto de números e não me entendo bem com eles, proponho que, pra arredondar, vamos de 5. Três restaurantes e dois bares. Eis, então, meus 5 atuais favoritos.
Le Pré Catelan . Porque Roland Villard é um dos mais talentosos chefs em atividade no país. O ambiente é sisudo demais. Acho até meio cafona, admito. Cheio de turista que não entende lhufas do que está comendo e quer apenas agradar a moça com quem divide a mesa… Mas repito: Roland é um talento. Seu Menu Amazônia, do qual já falei aqui, é das melhores coisas que experimentei no Brasil nos últimos tempos.
Roberta Sudbrack. Porque Roberta Sudbrack é, pra mim, a maior representante no Rio de Janeiro daquilo que se faz de melhor na gastronomia brasileira hoje. Uma cozinha feminina, cheia de nuances, emerge de pesquisas profundas de ingredientes que nos dizem respeito (a nós, brasileiros), seja historicamente, seja emocionalmente. Um verdadeiro laboratório, onde todas as possibilidades de cada produto são dissecadas. E onde um ingrediente nunca é mais do que outro. Roberta lança a todos o devido olhar de respeito.
De quebra, ainda é lá que encontro algumas das minhas sobremesas favoritas. E sobremesa é coisa que levo a sério…
Oro. Porque, contrariando todas as expectativas, desafiando toda a controvérsia que existe em torno de seu nome no mundinho gastronômico carioca, Felipe Bronze vem provando seu talento à frente daqueles fogões. Eu diria que o Oro é, atualmente, meu segundo restaurante favorito na cidade. No meu pódio, só perde pro RS. Em quase um ano de vida, estive na casa quatro vezes. Há sempre uma ou outra ressalva, mas os acertos são sempre em maior quantidade. Sua cozinha é feita com inteligência. E, acima de tudo, tem sabor, ingrediente fundamental, que anda esquecido em muitos restaurantes por aí…
Venga! Porque é um lugar com alma, com personalidade, que une a leveza carioca, típica dos bares e botecos, a um ambiente interessante, atraente, com uma cozinha de qualidade, que não é negligenciada em nome da informalidade do salão. É claro que não é o único a reunir tais virtudes no Rio de Janeiro. Mas é um dos poucos. Apesar do sotaque espanhol, tem muito da essência carioca, inclusive na forma democrática com que havaianas e ternos se esbarram num mesmo espaço. Essa atmosfera é o que me leva sempre de volta ao Venga!
Aconchego Carioca. Porque é, na minha opinião, a melhor comida de bar do Rio de Janeiro. A maior prova de que bares e botecos podem ser leves e informais e, ainda assim, terem uma cozinha notável. Pratos que povoam nosso cotidiano como rabada e feijoada, nas mãos de Kátia Barbosa, transformam-se em bolinhos e croquetes feitos com delicadeza ímpar, como já comentei aqui em post anterior. O simples abordado com arte. Não é fácil encontrar um bar carioca que vá além do folclore e cuja cozinha sustente esses atributos. Difícil, mas não impossível. O Aconchego Carioca está aí pra mostrar isso.
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