Saia pelo Mundo

Sonhar é preciso. Sempre.

por Saia pelo mundo em

Estou em Jenin, ao norte da Palestina. Mais precisamente, me encontro no campo de refugiados da cidade, alvo de ataques do exército israelense e constantes toques de recolher desde a Segunda Intifada, em 2000, sob o argumento de prender (ou matar) suspeitos de planejar ataques suicidas. Impossível ignorar as marcas da ocupação ou das invasões; sob a atmosfera conservadora e religiosa que paira sobre o campo, misturam-se agressividade, traumas diversos e lembranças doloridas. Todos os moradores conheceram pelo menos um “mártir” – aqui, o termo é usado tanto para os inocentes que morreram sob o fogo inimigo quanto para os rebeldes que, armas na mão, se punham a defender o campo e atirar contra os israelenses.

Mas uma jóia rara brilha no meio da aridez da vida cotidiana em Jenin: o Freedom Theatre, resultado do sonho de Arna, uma mulher nascida em família judia que optou por viver no meio dos palestinos e trabalhar com crianças, oferecendo-lhes um espaço de livre expressão. Arna morreu de câncer em 1995, passou o bastão a seu filho Juliano Mer Khamis, mas seu projeto segue vivo e reluzente: propiciar às novas gerações uma oportunidade de, por meio da arte, entender a realidade em que vivem e se tornarem fator de mudança para além das fronteiras de sua comunidade. Muitos dos pequenos sofrem de traumas decorrentes das incursões noturnas do exército israelense: depressão, pesadelo, medo… Aqui, crianças e jovens de Jenin têm aulas e workshops de teatro, circo, jornalismo, inglês e computação, entre outras atividades. Brincam e aprendem. Podem ser simplesmente crianças e jovens como quaisquer outras.

Estou há poucos dias aqui, tenho apenas mais um pela frente (com pedidos e promessas de retorno), porém a experiência foi intensa. Todo mundo é muito bacana – da equipe que cuida do teatro aos voluntários estrangeiros. Amani, de 21 anos, não mora no campo de refugiados, mas não se importa em caminhar mais de 20 minutos todos os dias para coordenar oficinas de produção de textos. A espevitada moça sonha em estudar fora e poder driblar o conservadorismo de sua comunidade. Por isso, trabalha como voluntária no Freedom Theatre: lá ela encontrou sua turma. Ahmad, de 24, é um dos atores do grupo. Seu sonho? Poder levar ao mundo, por meio da arte, uma mensagem de paz e de dignidade: no peito de um palestino refugiado – que vive sob ocupação – também bate um coração… Ahmad sonha com Hollywood e com os palcos europeus. Talentoso esse rapaz. Tenho certeza de que, graças ao Freedom Theatre, ainda ouviremos falar muito de um jovem de Jenin, cheio de bossa e de humor, mostrando que sonhar é preciso. E fazer arte, imprescindível.

 

Postado por Mafê Vomero, de Jenin, Palestina

 

 

 

Comentários (1)

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  • Por: Anônimo
  • -
  • 19 de agosto de 2009 at 5:08

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