Viajar Bem e Barato

A incrível capacidade do brasileiro de criar fetiches (ou: compras de marcas estrangeiras – tô fora!)

por Rachel Verano em

carrinho(foto: James Steidl)

 

Ontem fui a Shopping Iguatemi, em São Paulo, e voltei escandalizada. Como pode um chinelo da Camper, a marca espanhola de sapatos que eu mais amo, custar exatos 398 reais? Um chinelo de plástico metido a besta, que nem bonito é? E uma cafeteira Nespresso por 1.700 reais, que tal? 

 

Eu já tinha visto vestidinhos básicos na Zara por 299 reais. Blusinhas simples por quase 100. Sandálias a quase 200. Juro, não entendo. Para mim essa loucura toda começou com as calças da Diesel a mais de 1.000 reais. Calças que, todo mundo sabe (ou não, sei lá), são vendidas a cerca de 100 euros na Europa. Na época das promoções, elas caem pra tipo 40 euros. Mas aqui no Brasil seguem custando quase dez vezes mais. E viraram fetiche.

 

Assim como virou fetiche ter sapato da Camper, que custa 800 reais ou mais. Na Espanha, nunca gastei mais de 100 euros num par (na maioria das vezes, metade disso). Nas botas de couro, no máximo 250 (tenho até medo de saber quanto custam aqui). Cafeteiras Nespresso custam a partir de 150 euros em qualquer loja (algumas ainda devolvem um cheque de 50 euros pelo correio). Roupas da Zara saem desde 5 euros, sem exagero. E o Smart, aquele carrinho minúsculo e fácil de estacionar? Custa menos de 15 mil euros, e chegou aqui por cerca de 60 mil reais.

 

Eu não vou entrar aqui no mérito do imposto de importação (que certamente encarece muito qualquer coisa) e quetais do economiquês. O que mais me intriga é como marcas corriqueiras, de dia a dia, ganham um ridículo status instantâneo de fetiche por aqui. É a coisa mais chique do planeta ter um sapato Camper, uma calça Diesel, uma cafeteira Nespresso (que vira objeto de decoração nas casas, muito mais que a utilidade doméstica que é, apesar do indiscutível apelo design). Seguindo esse raciocínio, provavelmente no dia em que a rede de móveis e objetos de decoração IKEA (famosa por oferecer todo tipo de artigos para a casa a preços baixos) chegar ao Brasil, os preços serão compatíveis com os do shopping D&D. E morreria a ideia. Enquanto for assim, prefiro deixar as coisas no armário. Tô fora desse consumismo desvairado e sem noção.

 

Moral da história: eu, que sempre preguei contra a compração em viagem, começo a rever meus conceitos… :-)

Comentários (22)

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  • Por: Mariana - Hotel Querido
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  • 19 de janeiro de 2011 at 10:39

Falou tudo, Rachel. Olha, no blog perdi as contas de quanta gente me pergunta por lojas de uma tal de Abercrombie que nunca ouvi falar na vida. As pessoas estao DESESPERADAS por uma marca de camisetas FEIAS que traz o logotipo ENOOORME estampado no peito e pagam carissimo por isso, pq TA NA MODINHA, o Kaka usa blablablabla

  • Por: cesar Augusto
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  • 3 de abril de 2010 at 16:45

Nas minhas ferias em Amsterdam, comprei sapatinhos Camper a 70 euros….. Brasil, pais ridículo…..

  • Por: Rachel Verano
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  • 15 de dezembro de 2009 at 10:49

Thaty, exatamente, não é fashion, é escolha! E a Ikea é o máximo, vc monta a casa bonitinha gastando muito menos! Pensa se faz sentido ela custar caro aqui… arara.

  • Por: thaty
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  • 13 de dezembro de 2009 at 19:24

ah esqueci de comentar: nossa casa inteira era da Ikea! e é uma coisa beeeem tok stok, por isso, se um dia isso vier para cá a preços absurdos, vou fazer a campanha contra (os preços altos! rsrsrsrs…)

  • Por: thaty
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  • 13 de dezembro de 2009 at 19:14

acho que este consumismo medíocre dos brasileiros é ainda mais gritante para quem pode viver na europa por exemplo… morando em milão por 2 anos, eu estudei em escola pública, almoçava um lanche na praça em frente a escola, comprava minhas roupas em feiras, brechós e lojas de departamento. meu irmão, lá até hj, tinha um desses carrinhos do mr bean que minha mãe deve ter pago uns U$2000, pq era bem velhinho… rsrsrs… eles viajam pela europa toda e se hospedam em hosteis baratos e isso não é “fashion” é escolha! é mais barato!

  • Por: Natalie
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  • 9 de dezembro de 2009 at 14:24

Mas essa situação não acontece só em São Paulo – capital. Aqui em Campinas eu vejo esse mesmo cenário. As pessoas estão se perdendo no meio desse consumismo maluco.

  • Por: Rachel Verano
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  • 8 de dezembro de 2009 at 14:58

Rodrigo, Claudia, exatamente. É o fim.

  • Por: Claudia Acourt
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  • 8 de dezembro de 2009 at 10:06

Rachel, também sou de acordo com o que vc escreveu e sempre fiz a mesma critica. Infelizmente, numa situaçao como esta, eu observo como a mentalidade de “colonia” continua presente no Brasil moderno. Sempre lembro das aulas de historia quando se podia comerciar somente com Portugal, mais tarde Inglaterra, e tudo o que vinha da Europa significava status. Assim, absurdos como patins de gelo faziam sucesso nas terras tupiniquins, e eram vendidos ao preço de alguns escravos (mercadoria de ouro), produtos que encontramos nos supermercados por menos de €10 valem mais de R$200 no Brasil (vinho italiano Pinot Grigio).
Parece que a logica do Brasil colonial continua valendo hoje: o importante è pagar caro por algo que venha da Europa. Mesmo que se faça uma brutta figura.

  • Por: Rodrigo TG
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  • 8 de dezembro de 2009 at 8:23

Some à lista dos maiores ágios: iPhone (de US$ 200 para R$ 2000); syrup DaVinci (US$ 5, por R$ 70 no Café Suplicy). Moral da estória: à parte de impostos, o que é feito para ser acessível a um bom número de pessoas, aqui ganha ares de Daslu…

  • Por: Rachel Verano
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  • 8 de dezembro de 2009 at 1:57

Zé Maria, é o mesmo absurdo! Vinhos fracos lá fora são vendidos a preços altíssimos aqui, vc não acha?

  • Por: Zé Maria
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  • 7 de dezembro de 2009 at 21:55

E os vinhos?

  • Por: duda
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  • 5 de dezembro de 2009 at 18:11

é exatamente por isso que quando as pessoas viajam para o exterior aproveitam para comprar tudo que não podem comprar no Brasil.

  • Por: Alexandra Forbes
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  • 5 de dezembro de 2009 at 0:22

falou TUDO. Eu tava conversando sobre exatamente isso agorinha com amigas brasileiras aqui em Montreal. Os preços de tudo em SP estao absolutamente enlouquecidos, a galera perdeu a noção. bjs

  • Por: Camila
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  • 4 de dezembro de 2009 at 20:21

Rachel, acho que aqui no Brasil muitas vezes o que importa é o preço. Quanto mais caro você paga, maior seu status. Não sei como é lá fora, mas aqui as pessoas ligam muito pra aparência Tô fora dessa…

  • Por: Adolfo
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  • 4 de dezembro de 2009 at 9:28

Infelizmente, não são somente os impostos que encarecem as coisas aqui – dê uma boa parcela de culpa à ganância dos lojistas – vamos à cafeteira por 200 euros, no mais, são 550 reais (numa cotação bem safada) – com os impostos, sairia no máximo 1100 reais (incluindo importação, ICMS e estas besteiras). A cafeteira sai na loja por 1.700 reais. 600 reais de margem ? Certamente a loja aqui não paga 200 euros, deve pagar 100…

Por isso que compro somente o necessário no Brasil e de baixo valor. O resto, e incluo as roupas, compro lá fora. Com o que economizo, pago a passagem, hotel, passeios, comida e ainda conheço um lugar diferente !

  • Por: Paula Bicudo
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  • 4 de dezembro de 2009 at 8:17

Rachel, vc já viu o excelente blog Classe Média Way of Life: http://classemediawayoflife.blogspot.com/?

  • Por: Helder
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  • 4 de dezembro de 2009 at 8:09

Quando eu lembro, há uns anos, que uma bateria sobressalente pra minha digital (modelo amador!) tava sendo vendido aqui por 200 reais e no site do fabricante dos EUA era US$ 19,95, eu entendo porque virei um costumaz comprador do eBay. :)

Eu não me importo de pagar pela qualidade de um produto, especialmente se isso significar que ele dure muito, ou tenha garantia lifetime, etc. Mas me incomoda pagar extra por uma etiqueta!

Aqui no país, se for marca conhecida = caro. Mesmo que não signifique qualidade. O nome aumenta o preço. E em geral, se for importado, pior ainda.

O eBay e outros sites de venda internacional passaram a ser minha vitrine, e eu sempre economizo uma grana. :)

  • Por: Paula Bicudo
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  • 4 de dezembro de 2009 at 8:08

Rachel, concordo em gênero, n° e grau. É muita pobreza de espírito, pra não dicer outra coisa. Voltei de NY num vôo lotado de brasileiros no qual uma mulher fez um escândalo com a comissária e um americano que tentava acomodar a bagagem dele no compartimento de mão já lotado porque ele estava amassando a bolsa carérrima dela de grife. Sério, só brasileiro faz esses vexames. E adivinha onde ela vai com a bolsa? Obviamente passear no Shopping Iguatemi. Estive lá final de semana passada, para levar minha filhinha ver a (bela) decoração de Natal e me irritei muito com o tipo de frequentador wannabe e com os preços. Sabe quanto custa um Ipod Shuffle lá? Mais de 400 reais! Um absurdo.
Só para fazer uma comparação, comprei agora em novembro um par de sapatos Camper lindos de morrer por 79 libras (240 reais), em Londres, que é uma cidade considerada cara.

  • Por: Alexandre
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  • 4 de dezembro de 2009 at 8:07

Sendo fetiche ou não fetiche, os impostos encarecem TUDO no Brasil, infelizmente. Acabei de voltar dos EUA e tudo , desde compras no mercado a jantares em restaurantes estrelados, está mais barato por lá.

  • Por: Mari Campos
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  • 4 de dezembro de 2009 at 7:47

Querida, show. EXATAMENTE o que eu penso. Sem falar nessa fissura de trocar de carro todo ano, que eh so aqui q existe nessa neura.

  • Por: Rachel Verano
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  • 4 de dezembro de 2009 at 0:36

Maryanne, que bom, alguém me entende! ;-)

  • Por: Maryanne hotelcaliforniablog.wordpress.com
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  • 3 de dezembro de 2009 at 18:54

Concordo 100% com vc e sempre fico pensando quem sao os trouxas que pagam esse preço pelas coisas? Ma so pior é que tem muita gente, por isso a coisa ta cada vez mais feia. Cada vez que vou pro Brasil eu fico até chata de tanto falar “nao acredito que vc pagou isso, nos EUA custa 1/10″. E os restaurantes entao? Me recuso a ir no DOM e pagar muito mais do que por um jantar no bistrot do Thomas Keller aqui.