Viajar Bem e Barato

Mochilão na América do Sul: saiba como economizar sem sofrimento

por Marcela Braz em

Foto: Thinkstock

Fazer um mochilão é sempre mais barato? Não necessariamente. A receita albergues, mochila nas costas e roteiros alternativos não é sinônimo de poupar. Sem os devidos cuidados, um mochilão pode ter o mesmo preço de uma viagem comum, com direito a hotéis, pacotes e tours manjados e mais caros. Tudo depende do viajante.

No meu primeiro mochilão da vida, conheci o trio Peru, Bolívia e Chile. Comecei a viagem vivendo despreocupadamente, como se fosse rica, simplesmente porque não queria encanar com dinheiro. Resultado? Cheguei a Cusco, gastei horrores (porque a cidade é cara mesmo) e, depois, surtei de preocupação com dinheiro. Existe um equilíbrio saudável entre a preocupação excessiva e a necessária que encontrei depois, com a experiência e a descoberta do meu perfil de viagem.

Esse é um dos pontos cruciais para viajar bem e barato: determinar que tipo de viajante você é. O que você prioriza? Do que pode abrir mão? Quão planejada a viagem deve ser? Depois de determinar isso, aí sim a economia pode começar.

Existem alguns pilares essenciais de toda viagem: alimentação, estadia, passeios, transporte, dinheiro e vida noturna. Quem tem problemas de estômago ou faz questão de comer bem provavelmente terá de economizar em outro setor para compensar, como transporte, por exemplo. Saber de antemão com o que se vai poupar ajuda a evitar estresse desnecessário, você com você mesmo ou com seus companheiros de viagem.

É importante analisar também até onde vai a economia e onde começa o perrengue que estraga o humor, coloca a saúde em risco e, consequentemente, a viagem. Quando a preocupação financeira se sobrepõe à viagem, não vale a pena, a meu ver. Pois aí até o pouco que se gasta é perdido mesmo: não trouxe prazer, foi em vão.

Em cada cidade e em cada país há macetes para poupar. Veja abaixo algumas dicas para um mochilão pela América do Sul, em cada setor da viagem, que adquiri na minha primeira experiência e em conversas com outros viajantes:

Estadia

>Antes de tudo, faça um cartão Ho.La (Hostels Latinoamérica). Com ele, você ganha 10% de desconto nos albergues associados e até em algumas passagens e passeios (veja a lista em http://www.holahostels.com/es/descuentos-para-miembros.html)

>Em sites como Hostelworld e Booking.com você encontra críticas dos viajantes e pode fazer sua reserva. O site Hostelbooking.com tem preços um pouco mais baixos do que nos outros dois citados, o que pode fazer diferença no fim da viagem.

>Na hora do check-out, sempre confira o preço anunciado no site no momento da reserva e confronte com o que estão cobrando. Às vezes o site tem preços melhores do que os tabelados e, na pressa, você pode pagar mais do que havia planejado. Quando fiz meu primeiro check-out em um albergue de Cusco não me dei conta de quanto estava pagando. Na minha segunda saída da cidade, percebi que me cobravam mais do que eu pretendia gastar.

>Quanto mais pessoas no quarto, mais barato e melhor, certo? Minha experiência mostra que não. Às vezes os quartos são pequenos e podem ficar apinhados de gente. À noite, com pouco espaço para se movimentar no escuro (para não acordar os outros), você pode se arrepender da escolha. Olhe as fotos dos quartos antes e imagine todas as camas cheias e você precisando arrumar o mochilão sem trombar nas coisas e fazer barulho.

>O albergue mais barato fica longe de tudo que você quer ver? Então pondere se a economia não será gasta depois com transporte e se, à noite, a localização da hospedagem não te inibirá de sair por questão de segurança.

>Se você está num grupo grande de amigos, dá para pechinchar desconto em hostels e hotéis, pois muitos preferem reduzir o preço para garantir os clientes.

Passeios

>A carteirinha de estudante internacional ISIC dá desconto em muitos passeios, como no caso do Vale Sagrado de Cusco, no Peru. Não a esqueça no Brasil (ou faça uma antes de ir). É possível fazê-la no destino também, mas é preciso apresentar comprovante de estudo.
Para quem não tem privilégios de estudante, vale recorrer ao fato de ser sul-americano. Sim, ser brasileiro, por si só, pode reduzir o preço do passeio. Pergunte sempre.

>Por mais que eu não goste, os tours valem a pena às vezes, quando as distâncias são grandes e quando pode ser perigoso ir sozinho. Do contrário, pode ser mais barato, mais divertido e menos corrido ir só ou com amigos. As ruínas de Sacsayhuamán e Qenko são muito próximas a Cusco. Fui a pé com um pessoal que conheci na cidade e pude ver tudo com mais calma do que o faria em um tour.

>Nos passeios organizados há quase sempre aquele momento “vamos comprar artesanato aqui”. Vai de cada um, mas, na minha opinião, é um saco – os produtos normalmente são mais caros e você perde tempo que poderia ser usado nas atrações. O ideal é escolher bem aonde você vai se dedicar às lembrancinhas, como na Bolívia, que é mais barata. Nas proximidades de Ollantaytambo, no Peru, me distanciei da feirinha de artesanato, andei até o final das ruazinhas e encontrei um campo verde e vazio, rodeado de montanhas. Uma paisagem linda que eu não teria visto se estivesse escolhendo ímãs de geladeira superfaturados.

>Vale a pena pagar menos por um serviço ruim? Quando fiz a viagem de três dias pelo Salar de Uyuni, na Bolívia, fechei o tour com uma trambiqueira mentirosa só porque ela aceitou o preço que eu queria. Mas o guia-motorista não tinha conhecimento algum para passar. Quando perguntávamos como tal rocha foi esculpida ou qual era a origem de determinada formação geológica, a resposta era sempre “la naturaleza”. Aprendi a lição e fechei bons tours no Atacama com a World White Tour, indicada por uma amiga que havia experimentado. Os guias tiraram todas as minhas dúvidas, não tive preocupação alguma e valeu cada centavo investido.

Alimentação

>Compre um galão de água pra deixar no hostel e, antes de sair, encha garrafas de diferentes tamanhos, dependendo do passeio. Em áreas urbanas, uma garrafinha de 500 ml basta. Mas, em um passeio pelo Deserto de Atacama, por exemplo, prefira levar uma de um ou dois litros. Quando fui a Buenos Aires ano passado, fiquei chocada ao encontrar água sendo vendida por 20 pesos. No albergue tinha de graça, então enchi as garrafas lá e as carregava pela cidade. É o peso na bolsa que vale a pena.

>Compre lanchinhos no mercado para levar na mochila e comer ao longo do dia. Sem tanta fome, sobra mais paciência e disposição para procurar o melhor cardápio pelo melhor preço. Morrendo de fome, é fácil entrar no primeiro lugar que aparece e pagar mais por uma refeição meia-boca: duplo arrependimento.

>Muitos países da América do Sul têm menu de almuerzo: entrada, prato principal e sobremesa (ou suco, chá, café) por um preço fixo. Você pode escolher entre diferentes pratos (alguns têm até menu vegetariano), normalmente com bom custo-benefício. A dica pra quem gosta de comer é aproveitar a deixa para experimentar aquele restaurante mais caro. Também é uma boa perguntar no hostel e para nativos quais são os restaurantes bons e baratos.

>Outra ideia é preparar a comida você mesmo. Pesquise antes se o albergue tem cozinha. Em caso de viajantes solo, proponha aos novos amigos participar da refeição: assim as porções rendem, não é necessário guardar as sobras na geladeira e todos pagam. O preço cai absurdamente, é uma forma de socializar e de se sentir em casa.

>Nunca deixe para comprar as comidinhas da viagem na rodoviária ou no aeroporto, pois nesses lugares os preços são sempre muito mais caros.

>Nos tours você normalmente é obrigado a almoçar onde a empresa escolhe, e os preços quase nunca agradam. Em Arequipa, no passeio de um dia para o Cânion del Colca, levei sanduíches que eu mesma preparei. Comprei bebida e batatas fritas no restaurante e poupei o caro buffet que me foi oferecido como única opção.

Transporte

>Às vezes o aéreo não é muito mais caro do que o ônibus e te dá mais tempo em uma cidade. A dica é procurar por voos em companhias aéreas locais.

>A bicicleta é sempre uma boa opção para conhecer a cidade de um jeito divertido. No Atacama, dá pra ir à Quebrada del Diablo e à Pukara Quitor. Leia o post sobre o passeio de bike pelo Atacama com as dicas.

Dinheiro

>É sempre bom dividir o dinheiro em espécie e cartões. Para mim o Visa Travel Money foi um problema na hora de fazer transferência: aconteceu de me pedirem o RG para fazer cadastro (que eu já havia feito, obviamente). Por sorte eu tinha escaneado o documento e a imagem estava no meu e-mail. As melhores opções são cartões de débito e crédito internacional para complementar o dinheiro vivo – evite guardar todo o montante junto, procure colocar parte na mochila e parte na carteira, por exemplo.

>Às vezes é melhor sacar o dinheiro em dólares e buscar a casa de câmbio com a melhor oferta. Essa é uma pesquisa essencial, nunca troque todo o dinheiro no primeiro lugar que vir pela frente. Outra dica é, como em todos os outros serviços, barganhar.

>Mesmo no comércio informal é comum pedirem “propina” por um serviço prestado – não se trata de esmola, veja bem, mas de um reconhecimento extra, como os 10% cobrados nos restaurantes

>As cholas, por exemplo, exigem propina dos turistas que querem tirar fotos delas e de suas lhamas – afinal elas estão lá com seus trajes típicos e entendem que têm esse direito, na verdade se trata de um complemento essencial para uma renda restrita à eventual venda de artesanato e de artigos de lã. Neste caso não há preço fixo, vai da boa vontade e da compreensão de cada viajante. Definitivamente, não é isso que vai estourar o orçamento de sua viagem, por mais apertado que ele seja. Se mesmo assim você não concordar, evite fotografá-las para não arranjar problemas. Mas lembre-se: o respeito aos nativos e a seus costumes não tem preço.

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Manual do Viajante – viajeaqui – Passagens baratas

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