Viajar Bem e Barato
Paixão Índia: nos passos da princesa espanhola de Kapurthala

A cidade de Kapurthala, no Punjab, tem cerca de 50 mil habitantes e um museu de ciências como principal atração para os poucos visitantes. Mas não foi atrás dele que eu viajei uma hora e meia desde Amritsar. Eu queria ver de perto a réplica do Palácio de Versalles que o rajá Jagatjit Singh ergueu ali no comecinho do século 20 e batizou de L’Elisée. Queria refazer o caminho cercado de árvores que levava à Villa Buona Vista, uma residência de caça da família real, à la italiana. Queria, enfim, seguir os passos de Anita Delgado, a bailarina espanhola que viveu um conto de fadas ao se casar com o rajá e se tornar a princesa de Kapurthala em 1907, história real contada no livro “Paixão Índia” (Editora Planeta), do espanhol Javier Moro (e que Penélope Cruz pretende transformar em filme, estreando como diretora).
Não foi fácil encontrar o palácio L’Elisée. Ninguém na rua a quem perguntávamos conhecia. Citando o nome de Jagatjit, fomos parar num clube privado, e foi o segurança quem nos informou que tratava-se hoje de uma escola. Passamos pela portaria cheia de militares sem maiores explicações e de repente estávamos diante dele, inconfundível. A fachada cor de rosa. O telhado de ardósia. As colunas simétricas. O primeiro andar com o pé direito altíssimo, para que a família pudesse montar nos elefantes antes de sair de casa.
Vagamos um bom tempo por ali, passeando pelo jardim, e decidimos entrar para ver de perto, até que nos encaminharam à direção da escola, para pedirmos autorização. Vimos móveis com o brasão de Kapurthala feitos sob medida para o palácio, construído para ser a casa de Anita. E visitamos a impressionante biblioteca, antigo Durbar Hall, cujas paredes estão forradas de quadros com os membros da família de Jagatjit. “Dentro, seiscentos trabalhadores levaram nove anos para deixar tudo pronto. As paredes do Durbal Hall (sala de audiências) estão decoradas no mais puro estilo indiano, com baixos-relevos de madeira que combinam motivos franceses e orientais. O teto finamente esculpido, com um vitral na cúpula, é iluminado por pequenas luzes em forma de estrela. A meia altura, com balaustres a intervalos regulares, há uma galeria reservada às damas da corte para quando forem celebradas cerimônias oficiais”, descreve Javier Moro no livro.
Não satisfeita, eu ainda queria ver de perto a Villa Buona Vista, a primeira casa de Anita na cidade. Foi quando fiquei sabendo que não poderia visitá-la, mas por uma razão empolgante: ainda hoje a casa pertence à família do rajá, e é seu neto, filho de Paramjit (seu filho mais velho) quem mora ali. Encerrei minha visita a Kapurthala ali na porta da casa, imaginando a cena da benção do filho de Anita e Jagatjit pelos hijras (casta misteriosa de eunucos e travestidos, “nem homem nem mulheres”, que se veste de mulher e tem uma certa conotação mística na sociedade indiana). E voltei pela mesma estrada arborizada onde o rajá conduzia o seu Rolls Royce Siver Ghost azul marinho em alta velocidade, numa manhã ensolarada e coberta de bruma.
Comentários (11)
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- Por: Paulo Cezar
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- 20 de agosto de 2010 at 13:12
Obrigado pela inclusão desta fascinante visão, que é os locais onde se deram os eventos do ramance entre essa espanhola Anita e o Marajá. Obrigado, pois veio acrescentar de maneira ilustrativa essa grande viagem, esse roteiro exótico que me fascina tanto. Pena não ter imagens da Vila Buona Vista para poder complementar a caracteristica do temperamento dessa ilustre espanholita preciosa. Muito Obrigado, Raquel Verano, e parabens pela ousadia também presente em sua vida. Abraços Paulo Cezar. Carinhosamente.

uma italiana velejadora que me emprestou este livro e que estou lendo , aqui meste veleiro onde moro e trabalho , e li esta reportagem muito interesante ok abraços