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Caetano, Roberto e São Paulo

Direto de São Paulo - 29/08/2008

Montagem fotográfica: Caetano e a Ponte Estaiada (Crédito: Fernando Azevedo e Jair Magri)

Tava demorando. Caetano Veloso resolveu bater, em seu blog, nos jornalistas da Folha e do Estadão que ousaram falar mal de seu show com Roberto Carlos. Noves fora sua destemperança usual (ela, da Folha, é "boba" e ele, do Estado, é "burro"); seu eterno incômodo com qualquer crítica que não seja elogiosa; e sua verborragia; Caetano deixa entrever uma birra antiga com outra coisa: São Paulo. Diz ele que, se tivesse direito a convite, teria chamado Augusto de Campos, "quem escreveu o primeiro texto de apoio crítico à Jovem Guarda, prefigurando o tropicalismo e opondo a energia da turma de Roberto e Erasmo à pretensão da turma de Elis. São Paulo é isso." Isso o quê?? Continua: "Quando vi a Ponte Otávio Frias em frente aos prédios pós-modernos da Marginal Pinheiros (prefiro prédios pós-modernos aos chamados modernos que encheram nossas cidades de desarmonia, em nome da racionalidade) me senti esperançoso." Esperançoso de quê? Em seguida, vêm menções à "província paulista" e ao "provincianismo fraco" dos jornalistas.

Caetano é autor de uma das mais bonitas canções sobre São Paulo. Mas sua relação com a cidade, nessa letra como na vida real, é ambígua. Amor e ódio. As resenhas que saíram tanto no Estado quanto na Folha não fazem menção ao fato de ele ser baiano e Roberto, carioca (o fato do Rei ter nascido em Cachoeiro do Itapemirim é um acidente geográfico) e, portanto, a música produzida ser boa ou ruim. Para Caetano, porém, soaram como uma bravata de paulistas babacas, mais uma da turma da Elis, que se acha superior ao resto do país apenas por ser de Sampa. Caetano, um sujeito viajado, cultivado, bem sucedido aqui e lá fora, tem um complexo de inferioridade com São Paulo. O Rio, ele domina. No Rio, ele está em casa. Em São Paulo, ele tem problema com os prédios, com os jornais, com os paulistanos, com nosso "provincianismo fraco".

Esta não é uma defesa ufanista de São Paulo. Nosso cantor-símbolo é um italianinho do Brás, feio e de voz rouca, chamado Adoniran Barbosa. O paulistano típico não gosta de se jactar. Quem faz isso bem é o carioca e o baiano, mestres dos hinos às suas paisagens, às suas mulheres, aos seus sambistas etc. Os provincianos somos ruins em dizer que somos os maiores. São Paulo, qualquer um vê, é feia. Mas também não é justo ser penalizado por ter prédios "pós-modernos" e pela Elis, que nem está mais aqui para se defender. Como diz Caetano Veloso em seu blog, chega de verdade. Ou melhor, vamos à verdade: Caetano Veloso não gosta de Sampa. E isso, francamente, faz mais diferença para ele do que para os paulistanos.

Kiko Nogueira é diretor de redação do viajeaqui, do Guia Quatro Rodas e da Viagem e Turismo


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O show histórico de Caetano Veloso e Roberto Carlos em São Paulo

Direto de São Paulo - 27/08/2008

O show foi marcado pela descontração dos artistas - Foto: Divulgação

Como quase todas as milhares de pessoas que tentaram comprar ingresso para o show de ontem, em que Roberto Carlos e Caetano Veloso celebraram Tom Jobim, eu também não consegui. Ou melhor, achei que não tivesse conseguido. Não desgrudei do telefone e da internet durante uma hora, sem sucesso. Antes de a página da Ticketmaster cair pela enésima vez, meu namorado chegou a digitar o login e o número do cartão. Nada. No dia seguinte, para nossa surpresa, uma funcionária da empresa ligou dizendo que a compra tinha sido efetuada. Só acreditei mesmo quando estava com os bilhetes na mão, quatro dias depois: talvez os sessenta reais (mais doze de entrega) mais bem pagos da minha vida.

Às 21h, horário previsto para o início do espetáculo, o Auditório Ibirapuera estava lotado. Meia hora depois, o crítico musical Zuza Homem de Mello subiu ao palco e falou sobre como os dois gênios da MPB foram influenciados por Tom: Roberto começou a carreira cantando Bossa Nova e Caetano optou pela carreira artística após ouvir Chega de Saudade na voz de João Gilberto.

Com um atraso de 45 minutos, as cortinas se abriram, revelando o cenário simples. Ao fundo, um painel dividido em dois: um dos lados exibia uma foto de Tom quando jovem, enquanto o outro era uma tela em branco – que durante o show seria usada para projetar imagens. No melhor estilo Bossa Nova, Caetano e Roberto surgiram sentados em banquinhos e começaram a cantar Garota de Ipanema. Foram acompanhados com brilhantismo por suas respectivas bandas de apoio e por uma orquestra de cordas. Ao piano estava Daniel Jobim, neto de Tom. Comovida, a platéia de mais de 800 pessoas ficou em total silêncio, resistindo ao impulso de cantarolar os versos da música brasileira mais tocada de todos os tempos.

Na seqüência, Caetano e Roberto cantaram Wave. Em Águas de Março, Daniel Jobim assumiu os vocais. Depois disso, os dois astros se revezaram: Ela É Carioca, Inútil Paisagem, O que Tinha que Ser, e Por Toda Minha Vida foram interpretadas por Caetano, que se emocionou ao cantar Caminho de Pedra, canção menos conhecida de Tom. Ao final, Caetano disse que costumava ouvir essa música durante a infância e que, quando soube que poderia escolher o repertório, não teve dúvida em incluí-la.

Roberto Carlos interpretou Corcovado, Samba do Avião, Eu Sei que Vou Te Amar (incluindo o Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes), Por Causa de Você e Insensatez. Numa das pausas, o telão exibiu parte de um especial de TV de 1978 em que Roberto acompanhava Tom em Lígia (veja o vídeo abaixo). Enquanto as imagens estavam sendo projetadas, o Rei começou a cantar a mesma canção no auditório. Seguiu até o fim e, ao terminar, colocou aquele momento entre os mais emocionantes de sua carreira.

Caetano voltou ao palco e juntou-se a Roberto em A Felicidade, Tereza da Praia e Chega de Saudade. Para encerrar, os dois interpretaram Se Todos Fossem Iguais a Você, que não estava prevista no repertório oficial do show e soou como a homenagem particular dos dois a Tom. No bis, veio Chega de Saudade. Pela primeira vez na noite, a platéia rompeu o silêncio e cantou junto – talvez por querer participar ao máximo dos últimos minutos de um encontro que, àquela altura, já havia entrado para a história da MPB.

Mirela Mazzola é estagiária do viajeaqui e se segurou pra não cantar todas as músicas do show


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Bossa hi-tech sob o céu de Niemeyer

Direto de São Paulo - 19/08/2008

Foto: Vinicius de Moraes numa praia do Rio, em 1943, no filme Vinicius, de Miguel Faria Jr. (Divulgação)

A exposição Bossa na Oca, no Parque do Ibirapuera, é uma bela homenagem aos caras que revolucionaram a música e o jeito de pensar o Brasil. João Donato, um dos mestres, declarou não aguentar mais ouvir falar dos 50 anos da Bossa Nova. Ele só diz isso porque estava lá, porque participou da coisa toda. Já outras pessoas da minha geração que, como eu, vivem numa espécie de “anacronismo musical” querem ouvir falar mais e mais...

A mostra audivisual é repleta de mecanismos de útlima geração. Um exemplo são as seis janelas da Oca, projetada por Oscar Niemeyer, que servem como jukeboxes e exibem imagens com discos de Bossa Nova, e basta tocá-las que o calor das mãos faz com que a música correspondente ao álbum comece a tocar. Conchas acústicas fazem com que o áudio só seja ouvido por quem está diante das janelas.

Uma linha do tempo conta fatos que marcaram a época antes e depois do surgimento da Bossa. No subsolo, as areias e o calçadão de Copacabana são reproduzidos e grandes telões exibem curtas-metragens com cenas marcantes e depoimentos de artistas como Maria Bethânia e Ed Motta. O documentário Clarão, de Carlos Nader, mostra o impacto internacional da Bossa Nova, não só na música.

As influências que o gênero recebeu do jazz, do samba e da música clássica são lembradas. E, por que não, há espaço também para o silêncio; que está guardado numa pequena câmara isolada acusticamente.

Assim como o documentário Vou Te Contar, de Dora Jobim, trechos excluídos do belíssimo Vinicius, de Miguel Faria Jr., são projetados nas paredes da Oca. No segundo andar, um vídeo mostrando imagens do mar é projetado no teto da Oca e ao som de versões originais em vinil de canções da Bossa Nova.

Serviço:
Onde: Parque do Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Pavilhão 3
Data: 08/07 a 07/09
Horário: de terça a domingo, das 10h ás 21h
Preço: R$ 20 (terças gratuitas)
Informações: www.itau.com.br/bossanova

Por Mirela Mazzola


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Vinho bom e de graça!

Direto de São Paulo - 12/08/2008

Ok, confesso que o título aí de cima está bem sensacionalista. Mas e seu eu disser que mesmo sendo sensacionalista é verdadeiro? Acredite. Toda terça-feira, o restaurante Matterello (www.matterello.com.br) realiza degustações gratuitas de vinho. Isso mesmo. Se você buscar por palavras-chave tente “vinho-bom-grátis” e veja o que vai encontrar. Nada. Os convites são feitos a quem está cadastrado pelo restaurante – bom motivo para você aparecer lá para jantar.
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Nesta terça (12 de agosto), serão provados quatro italianos do Abruzzo – um branco e três tintos. Abruzzo é uma região de costas para o Lazio (onde está Roma), de frente para o Adriático. Os rótulos serão da Vinícola Caldora (www.caldoravini.it), que produz vinhos jovens, frescos, fáceis de beber e ótimos para uma primeira degustação – tecla sap: se você for iniciante, é o dia ideal. A noite será encerrada com um tinto top da casa, o Yume, feito com 100% uvas montepulciano.
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Se esta terça for muito em cima para você, relaxe. Terça que vem tem outra. E na seguinte, na seguinte, na seguinte... Com vinhos também italianos, mas já mais robustos que os bons exemplares da Caldora, dia 19 a aula será feita com um rótulo do Chianti (Toscana) e três de Marche, do produtor Zaccagnini (www.zaccagnini.it) – um 100% sangiovese, um Rosso Conero DOC (100% montepulciano) e um Rosso Piceno DOC (60% sangiovese e 40% montepulciano).
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Tem degustação toda terça. No dia 4 de agosto, foram portugueses da boa importadora Lusitana. As experimentações gratuitas do Matterello começaram há cinco anos. Os mais desconfiados podem se questionar, suspeitosos: “Qual a vantagem que Maria leva dando vinho às pessoas?” A resposta está (como sempre) na simplicidade e na sabedoria: quanto mais gente entender de vinho, maior e melhor será o consumo.
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E aí o Matterello será sua opção. Aberto há 15 anos – fará aniversário em novembro – este restaurante produz uma comida italiana que não se encontra facilmente pela cidade. E olha que falamos de São Paulo, onde comer criações da Bota é tão inevitável quanto o trânsito intenso. Exemplos? Onde você encontra por aí Fagiole al Fiasco (32,40 reais)? Prato típico de antigos camponeses da Toscana, numa garrafa são colocados feijão, carne seca, bacon, lingüiça, ervas e muito azeite. A garrafa passa oito horas junto ao fogo e depois é levada à mesa. Meu caro, se você ainda não provou, trate de resolver isso logo. Uma opção mais branda e igualmente deliciosa é o Rotolo di Spinaci (32,40 reais). Uma espécie de rondeli de massa bem fina recheado com ricota, parmesão e espinafre, ao molho de sálvia, é servido com escalopinhos. É de comer de joelhos.


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Para acompanhar... bingo: vinho. E aí vem nova surpresa. Você terá 850 rótulos do mundo inteiro à disposição, com preços que chegam a 701 reais (um supertoscano do mítico Antinori) a achados de 16,90 reais (sim, você leu certo). Basta pedir ajuda ao sommelier Ednaldo Barros. O cara é fera, prestativo e vai colocá-lo na próxima degustação do Matterello.


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A cozinha que falta

Direto de São Paulo - 12/08/2008

Pense na cozinha de um país e provavelmente São Paulo terá um bom representante dela. Em alguns casos, é verdade, haverá poucos endereços – a cozinha grega, a legítima turca (não confunda turca com árabe, por favor) ou mesmo a escandinava estão nessa categoria. Ainda assim, há bons nomes. Mas da cozinha peruana... O que é falta grave para a cidade que se orgulha de suas opções à mesa mais do que de qualquer outro tema.

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A cozinha peruana tem sido cada vez mais incensada. Na América do Sul, além de Lima, evidentemente, tem na moderna Santiago seus melhores representantes. No Brasil, quase não há peruanos. Uma pena, porque com temperos que só se encontram lá e peixes e frutos do mar do Pacífico, os sabores são bem distintos do que temos. Um raro e brilhante exemplar de peruano está em Maceió, o Wanchako (www.boalembranca.com.br).

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Simone Bert, dona e chef, é sócia do restaurante com seu marido, o peruano José Risco Bert. Abriram o Wanchako em setembro de 1996. No começo, pegavam a bicicleta, iam para o trabalho, se enfiavam na cozinha, abriam as portas e ninguém aparecia. Nada de cliente. Como persistência e talento acabam se encontrando, o restaurante pegou. Hoje, recebe gente do país todo. Eu me incluo entre aqueles que trocaria uma tarde de praia em São Miguel dos Milagres por  uma noite de comilança de ceviches no Wanchako. E olha que as praias de lá estão entre as melhores do mundo.

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Como Simone não pensa em trocar Maceió por São Paulo (aqui ela só aparece de quando em quando para dar cursos), a gente anda meio órfão.

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Ok, um post para falar de São Paulo e logo vem o chato tratar do que não se encontra? É. Mas podemos estar perto de uma boa notícia. O restaurante Astrid y Gastón (http://www.astridygaston.com), que nasceu em Lima e se espalhou por Chile, Colômbia, Equador, Venezuela, Panamá, México e Espanha, vai chegar à Argentina e deverá colocar um pé pros lados de cá entre o fim do ano e o começo de 2009 – está prometido. Não ainda com a casa mãe, o Astrid y Gastón, mas com o braço mais new look do grupo, a cevicheria La Mar. Ficará na rua Tabapuã, no Itaim. Até lá, São Paulo nos deve uma opção 100% peruana -- top 5 entre as cozinhas mais vibrantes do mundo.


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