Petrópolis: aconchego, preguiça, natureza e comida
Bruno Agostini - 12/08/2008

Este texto foi escrito há dois anos. Mas acabei nunca publicando. Então, aproveito que pediram dicas aqui sobre Petrópolis para publicá-lo. Mas alerto: há de se ter paciência, tá meio grandinho...
A baiana Lidiane vem ao Rio em outubro e pediu umas dicas:
“Bruno, seu blog foi um achado pra mim... Tem umas dicas bastante práticas, adorei! Meu marido e eu somos da Bahia, e faremos nossa primeira visita ao Rio em outubro, chegaremos num sábado no final da tarde, e retornaremos numa terça, tb no final da tarde. Não somos muito de balada e agitação, a gente quer curtir o visual, a natureza. E quem sabe tb, dar uma "chegadinha" em Petrópolis pra conhecer. Vc pode nos mandar umas dicas? Desde já obrigada!”
Vou tentar fazer uma sugestão de roteirinho básico, privilegiando programas ecológicos.
Se quiserem mais alguma sugestão específica, escrevam, por favor. Porque adoro responder.
Petrópolis agasalha a receita perfeita para os que desejam degustar a temporada de inverno nas montanhas fluminenses com o que elas apresentam de melhor: frio e boa mesa. Cachecol, gorro e par de luvas são itens indispensáveis na bagagem. Lareira, fondue e vinho formam a tríade dos objetos de desejo para aconchegar os dias gelados e criar o clima, perfeito tanto para casais em busca de romantismo quanto a famílias a fim de momentos de reunião e contato com a natureza. A julgar pelo que os termômetros indicaram já no mês de abril, a estação promete ser uma das mais frias dos últimos anos - nada que um bom edredom ajudado pela quentura dos comes e bebes tradicionais da estação não possam combater. Para acolher os visitantes que sobem a Serra dos Órgãos atrás das baixas temperaturas combinadas às altas calorias sugeridas pela meteorologia há opções de pousadas para todos os perfis de viajantes.
Os que desejam exclusivamente se entregar às tentações culinárias têm à disposição celebridades turísticas consagradas, como a Locanda della Mimosa. Como define Danio Braga, o chef e proprietário da casa considerada um dos melhores endereços gastronômicos do continente "trata-se de um restaurante onde as pessoas podem dormir. Além de não precisarem se preocupar em tomar vinho e depois dirigir".
A bebida de Baco, aliás, é coisa séria ali: a adega subterrânea é uma das mais poderosas do país, um verdadeiro museu enófilo que guarda alguns dos rótulos mais cobiçados do planeta, além de uma seleção de preços e procedências capazes de agradar a todos os bolsos e graus de exigência. Para enfeitar, quadros temáticos e toda a sorte de apetrechos ligados ao vinho, além de garrafas de Petrus, Sassicaia, Romanée Conti, Mouton Rothschild e todo o elenco estelar dos grandes vinhos planeta. A maioria já aberta, mas há também algumas jóias fechadas que tornam a carta de vinhos uma das melhores do país. Entre as mais preciosas jóias da cave, há um Château Lafite Rothschild, safra 1976, que custa R$ 4.987,50. Ou que tal um Château Margaux, ano 1982, por R$ 4.750. Mas há também bons vinhos mais acessíveis aos meros mortais apreciadores da bebida.
São apenas seis exclusivas suítes, cada uma com uma decoração diferente. Menores de 8 anos não são aceitos nem na pousada nem no restaurante, que muda o cardápio a cada fim de semana buscando aproveitar os melhores ingredientes do mercado.
- Toda a sexta, pela manhã, faço a feira no Rio e elaboro o cardápio para o fim de semana - conta o chef italiano.
Com tantos mimos à mesa, muita gente nem aproveita as atrações petropolitanas além dos domínios de Danio Braga, que na pousada restinge ainda mais o público: não aceita menores de 16 anos. Tudo em nome do sossego dos hóspedes. Não é à toa que a Locanda foi eleita pela Guia Quatro Rodas o melhor hotel para casais.
- Há hóspedes que passam o fim de semana inteiro aqui. Não saem para nada. Tomam café pela manhã e chá à tarde, almoçam, jantam, bebem vinhos e, entre uma e outra refeição, aproveitam a sauna e a piscina. Vamos ampliar a pousada com mais três suítes que devem ser inauguradas nos próximos meses - revela Danio, único chef na América Latina a figurar na pomposa lista dos Les Grandes Tables du Monde, guia gastronômico que é referência, elegendo anualmente os 100 melhores restaurantes do planeta.
Outra estrela no elenco das melhores pousadas da serra é a Tankamana Ecoresort (na foto), aconchegante, isolada e silenciosa, com cabanas simpáticas incrustadas entre araucárias, pinheiros e quaresmeiras. Confirma a tendência romântica da região. É a segunda colocada na lista dos melhores hotéis para casais. Aliás, cabe um parêntese (o terceiro da lista é a Fazenda das Videiras, no Vale das Videiras, igualmente voltado à combinação de gastronomia com exclusividade de poucos quartos e serviço primoroso).
Integrante dos Roteiros de Charme, a Tankamana é procurada essencialmente por casais ansiosos por sossego e romantismo no meio do mato. Assim como na Locanda, a cozinha também trata de seduzir hóspedes e forasteiros. Ali as diversas receitas de trutas de criação própria são o carro-chefe - os peixes nadam sob os comensais nos tanques que invadem o salão e podem ser observados através do piso envidraçado.
- Só não é possível escolhê-las para comer, já que o abate obedece uma programação semanal e não acontece todos os dias - alerta o chef catarinense Hugo Lehmkuhl, recém-chegado da Pousada Zé Maria, uma das melhores de Fernando de Noronha.
É um charme a mais no ambiente rústico-chique observar o balé aquático, que encanta especialmente as crianças – que ali, ao contrário da Locanda della Mimosa e da Fazenda das Videiras, são bem-vindas.
Encantado com tanta fartura de trutas frescas à disposição o chef pretende modificar o cardápio, valorizando ainda mais o peixe que exige águas frias e correntes para se desenvolver.
- No início de junho já teremos outras receitas criadas por mim incorporadas ao cardápio. Farei entradas, saladas, massas e risotos com os filés - adianta.
Só faltará sobremesas de truta. Enquanto eles não as cria, vale saborear o petit gateau, já um clássico do cardápio, assim como a manga grelhada e a pêra ao vinho tinto.
Mas não é feita apenas de suítes ou chalés veteranos o cardápio de boas pousadas da Cidade Imperial e seus distritos mais badalados, como Itaipava e Araras. Ano a ano a oferta se amplia. A cada temporada as novidades incrementam ainda mais a lista de aprazíveis hospedarias petropolitanas, candidatas imediatas ao ingresso na lista de distintas pousadas clássicas serranas, onde os mínimos detalhes conspiram para uma estadia perfeita.
A caçula da turma abriu as porteiras no carnaval e carrega no nome a proposta hoteleira: tranqülidade em meio ao bucolismo campestre. Erguida em um monte rodeado por vales verdejantes a Quinta da Paz conjuga pássaros cantarolantes a instalações de fina elegância erguidas na amplidão de uma chácara de veraneio transformada em pousada pela família proprietária.
A supervisão de Wisley Maciel, que prestou consultoria no projeto e gerencia o início da operação, garante que tudo funcione perfeitamente: da roupa de cama impecável ao atendimento da equipe de funcionários, passando pelos jardins floridos onde repousam espreguiçadeiras e o restaurante.
No farto bufê é mantida a tradição carioca da feijoada aos sábados, convite irresistível à sesta vespertina, que pode ser apreciada em um dos recantos discretos no vasto gramado. Redes e acolchoados pufes cumprem o papel de confortar os hóspedes do lado de fora dos aposentos. Em um desses oásis de sossego acontecem as sessões de massagem em uma aconchegante tenda de bambu. Logo ao lado um ofurô ao ar livre e uma enorme banheira de hidromassagem aguardam para que o fim da sessão de relaxamento seja apoteótico. Um carrinho elétrico de golfe pode se encarregar de transportar o hóspede sem condições de andar após o tratamento.
Uma das mais chamosas adegas do país foi construída no subsolo da sede da pousada. A oferta de rótulos ainda é modesta, aquém da capacidade da cave, mas aos poucos deve incrementar-se.
- Devagar enchemos as nossas prateleiras com o que o hóspede mostrar preferência - revela Wisley, com passagem por alguns dos mais importantes hotéis cariocas, um dos mais conhecidos profissionais da área no estado do Rio de Janeiro.
Ainda com cheiro de tinta fresca também estão as instalações pomposas do Solar do Império, pousada que funciona em uma das mansões da Avenida Koeller, o coração do Centro Histórico de Petrópolis. Respira-se o ar da nobreza que outrora habitou aquelas paragens, quando os Orleans e Bragança elegeram o alto da serra para o lazer e o descanso – hábito logo imitado pela população da corte e que se mantém até hoje.
O casarão de 1875, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Nacional, abriga apenas 16 exclusivos quartos dispersos entre a construção imponente que mistura colunas gregas ao piso em mosaico elegante.
Piscina aquecida, ofurô e sauna, itens essenciais ao ócio invernal, relaxam os hóspedes após as caminhadas pelas atrações culturais ao redor: a menos de cinco minutos a pé chega-se ao Museu Imperial, um dos melhores e mais visitados do país; à Catedral de São Pedro de Alcântara; famosa pelo deslumbrante estilo gótico e pelas missas dominicais concorridas, e à Casa de Santos Dumont, conhecida como A Encantada, uma curiosa construção que revela toda a criatividade do pai da aviação. São os três mais procurados e importantes pontos turísticos de uma seleção que inclui ainda o Palácio de Cristal e o Palácio Rio Negro, tudo ao alcance de uma aprazível caminhada que contempla a história em cada esquina. Charretes convidam ao passeio mais preguiçoso pelas consagradas heranças dos tempos do Império.
No mesmo Vale do Cuiabá onde funcionam a Tankamana e a Quinta da Paz a pousada Les Roches, foi inaugurada no ano passado e já abocanhou a honrosa inclusão na lista das cinco melhores novidades de 2005. Título também concedido pelo Guia Quatro Rodas deste ano.
Chalés simpáticos sobem uma encosta florida de onde se tem uma deslumbrante vista. O café da manhã é servido sem hora para acabar. Um dos diferenciais da pousada é o Espaço Gourmet, uma cozinha estrategicamente localizada ao lado da sauna e da piscina. Nela os hóspedes podem cozinhar. E, o que é melhor, não precisam nem se preocupar com as compras tampouco com a pia suja, naturalmente.
- É só eles nos passarem a lista dos ingredientes que querem que vamos ao mercado comprar - conta Américo Palha, o proprietário da pousada, recordando o casal que escolheu um bom vinho na adega e passou a noite à beira da piscina, iluminados pelas velas providenciadas pela pousada, a degustar a produção culinária do rapaz.
Do todas as novidades a Altenhaus é a que apresenta um perfil mais familiar. Instalada em uma casa de veraeio estilosa, com a cara dos anos 50, de amplas áreas envidraçadas e linhas retas formando ângulos agudos, ao contrário das demais não aposta pesado na gastronomia. Mas para quê? Entre todas é a mais próxima do animado centrinho de Itaipava, uma das maiores concentrações de bons restaurantes por metro quadrado que se tem notícia no Brasil. A culinária fala vários idiomas ao longo da Estrada União e Indústria e suas simpáticas ruas perpendiculares.
A menos de cinco minutos de carro chega-se a clássicos como o português Parrô do Valentim, o espanhol Parador Valência, o italiano Il Perugino, o japonês Nikko Sushi, o asiático Tai Tai, entre tantos outros bons endereços da boa mesa, como a filial da pizzaria Fiammetta.
Mas apesar da abundância de excelentes restaurantes nas redondezas, da cozinha da pousada Altenhaus saem algumas gostosuras como ravióli de lagosta e receitas de truta. Pratos que não decepcionam nem os mais exigentes paladares.
A piscina derrama-se sobre o vasto gramado de onde observa-se de ponto privilegiado a imponente montanha que batiza a região. Itaipava, a pedra que chora, em tupi, ganhou este devido devido às águas que escorrem pelo paredão em um dia de chuva. Quem estiver ali com tempo ruim tem algo mais a fazer além de se refugiar no chalé para curtir o tempo londrino: apreciar o espetáculo da paisagem que se descortina do salão.
Sauna, churrasqueira, quadra de tênis, sinuca, mingolfe e uma coleção de plantas floridas montam um cenário adequado à confraternização de pais, filhos, avós, tios e amigos. Espreguiçadeiras debaixo das árvores são o recanto preferido para a leitura de livros, jornais e revistas. Quem preferir mexer o esqueleto pode percorrer a trilha que corta a floresta.
Vale aproveitar dois agradáveis detalhes do café da manhã: o pão de queijo que vem de Barbacena, divino, e as rabanadas feitas na hora, como manda a regra, crocantes por fora, macias por dentro, com a doçura na medida exata.
Outra boa nova é a Pousada Caminho Real, na Fazenda Inglesa. A proposta é também familiar, com chalés que podem hospedar até quatro adultos. Crianças recebem atenção especial. Recreadores divertem a petizada que tem à disposição restaurante próprio, além de uma série de brinquedos e jogos.
Os pais podem desfrutar da gastronomia mediterrânea de orientação francesas enquanto os filhos aproveitam as delícias do restaurante infantil Fazendinha.
Hora de fazer as malas, sem esquecer o gorro, o cachecol e o par de luvas. A lareira, o vinho e o fondue estão esperando.
Na foto, a piscina natural da Pousada Tankamana.