Viajante consciente

Claudia Carmello
É jornalista e membro da ONG Repórter Brasil. Adora uma trilha no mato, um edredon macio e férias em um destino surpreendente. Aqui, tenta provar que turismo sustentável existe.

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A Costa Rica é melhor do que a gente?

Claudia Carmello - 19/07/2008

A Costa Rica, de boba, não tem nada. Com um território de 51 mil km quadrados – o tamanho do Rio Grande do Norte –, consegue receber, por ano, 1/3 dos turistas que o Brasil recebe. (Chegam lá, anualmente, 1,7 milhão de estrangeiros, contra 5 milhões aqui – estatísticas da Organização Mundial do Turismo, de 2006. Veja o ranking dos países mais visitados do mundo aqui).

Bem, eles têm ondas ótimas pra surfe (nós também). Quilômetros de orlas paradisíacas tanto no Atlântico como no Pacífico (ficamos só no Atlântico, mas com zilhões de km a mais!). Muitos parques nacionais para proteger sua floresta tropical (bem, nós até temos vários, mas a maioria não-implementado, de fato). Mais belos vulcões (sã 112) e lagos, o que também ajudou a fazer do ecoturismo e dos esportes de natureza a sua marca – famosa mundialmente.

Até o slogan turístico deles deixa o nosso no chinelo: enquanto o Brasil vai de Sensational!, assim bem vazio, meio qualquer nota, os costarriquenhos vão de No Artificial Ingredients (Sem ingredientes artificiais). Convenhamos, ele passa seu recado com bem mais eficiência, e ainda é trendy – a moda agora não é ser natureba, eco, buscar a simplicidade, a pureza etc? Pois então, todo mundo quer “sem ingredientes artificiais”.

(Tem outra coisa que me dá muita inveja da Costa Rica: eles não têm exército. Não é espetacular? Mas isso é outro assunto).

Pois agora eles ainda tiveram uma grande idéia para aproveitar a onda do Carbon Free (pagar em dinheiro para neutralizar suas emissões de CO2 na atmosfera), e martelar um pouco mais sua vocação para destino “verde”.

Funciona assim: todo viajante que entrar ou sair da Costa Rica é convidado a bancar US$ 5 por tonelada de CO2 emitido no seu vôo até/desde o país. Um viajante alemão, por exemplo, pagaria US$ 30 pelo deslocamento de casa até lá. O destino do dinheiro são instituições de conservação das florestas costarriquenhas.

O programa se chama Viaje Limpo e a contribuição é voluntária – pode ser paga com qualquer cartão, com respaldo do Banco Nacional da Costa Rica, e um certificado ou recibo é dado em troca. (Leia a notícia completa aqui).

Ou seja, o turista já chega pras suas férias todo satisfeito por ter ajudado a preservar aquela maravilha que ele vai desfrutar. E, convenhamos, pra quem gasta milhares numa viagem internacional, o que são mais US$ 30?

Imaginem se adotássemos uma estratégia dessas no Brasil. Que turista gringo ia se recusar a neutralizar suas emissões de carbono pra proteger a Amazônia? Com o tema do aquecimento global bombando, qualquer morador da Sibéria tende a acreditar que salvar a Amazônia é salvar sua própria pele.

Vamos copiar? Pegaria bem pra nossa imagem e ajudaria, de fato, a arrecadar um dim-dim para nossa falida estrutura de fiscalização de parques nacionais, por exemplo. Poderia ter efeitos colaterais significatvos? (A falta de credibilidade do governo brasileiro para reter e encaminhar esse dinheiro, será?)
 
E você, aceitaria deixar uma grana no aeroporto de Guarulhos, ou Galeão, ou Salgado Filho, o que for, antes de voar até Buenos Aires ou ao Japão?

ViajeAqui também, nos posts que já escrevi sobre neutralzação de carbono:
Aviação Verde: quando o Brasil entra nessa?

Atitude Verde a prestação - o furo da neutralização de carbono.


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Europa Verde: como rodar o Velho Mundo de bicicleta

Claudia Carmello - 07/07/2008

Eu disse, num post passado, que, em Estocolmo, na Suécia, todo mundo andava de bike pra cima e pra baixo. Mas, pensando bem, no ano passado eu estava na Croácia e na Eslovênia e também vi que todo mundo pedalava pra cima e pra baixo pelas estradas. E, na volta da Suécia, aqui em Bologna, vejo que, sim, todos estão pedalando entre cidades - não só dentro das cidades - por aí.

O cicloturismo está cada vez mais bombando. Tem muita gente viajando com suas malas apropriadas pra garupa de bicicleta, capacetes e roupas “técnicas” – eles chamam assim aqui na Itália as roupas especiaia para os esportes, e eu acho um sarro.

A ECT, organização que promove o turismo na Europa, sabe bem disso. Já falei disso aqui num post pré-histórico desses que o sistema engoliu nas reformas dos blogs: a Europa tem um belo projeto de estímulo a esse veículo que não polui, não enfeia a paisagem e ainda facilita o contato do viajante com os locais – a ultra sustentável bicicleta.

São os Eurovelos: 12 mega trilhas de ciclismo que cruzam todo o continente, em mais de 65 mil km. O projeto começou em 1995 e até 2010 todos os Eurovelos teriam que estar prontos (metade já estão, veja os traçados vermelhos no mapa abaixo).

Por enquanto, tem rota que começa no norte da Noruega e acaba em Sagres, Portugal, passando por Irlanda, Inglaterra, Gales e Escócia, França e Espanha (o Eurovelo 1). Que cruza toda a França pelo interior, levando a Suíça, Floresta Negra alemã, Áustria, Eslováquia, Hungria, Sérvia, Croácia e Bulgária (Eurovelo 6), ou a inspiradora Mediterrânea, que sai de Cádiz, na Espanha, e acaba em Chipre, passando por França, Itália, Eslovênia, Croácia, Grécia etc (Eurovelo 8).

Todas mapeadas nos mínimos detalhes pela Federação Européia de Ciclimo, nos links que coloquei acima: assim você pode pegar só um pedacinho de um Eurovelo, na sua viagem à Europa. Também na página deles, em inglês, eles compilam informações sobre trilhas de bike no continente, divididas por país. Dá uma passadinha lá pra pesquisar.

Ou na página pra própria ECT, no item cicloturismo. Ali, em português, aparecem vários links pra páginas sobre as Vias Verdes (outras trilhas que atravessam a Europa, mas também para trekkings e cavalgadas, normalmente em linhas ferroviárias desativadas) na Espanha, sobre experiências de ciclismo na Itália, como essa página com um vídeo do ciclita na Costa Amalfitana etc.

É um ótimo ponto de partida pra pesquisar e rodar o continente inteiro sobre duas rodas.

E você, já fez alguma travessia de bike na Europa? Tem vontade da fazer alguma? Conta?


ViajeAqui em posts anteriores sobre ciclismo:
Em Estocolmo, Suécia
Em Ljubljana, Eslovênia 
Com piquenique


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Europa Verde: a vida silvestre em Bologna e a dúvida cruel

Claudia Carmello - 01/07/2008

Antes de voltar da Suécia pra mais posts de Bologna, na Itália, só uma dúvida, flagrada no caminho do centro de Bologna para Pianoro, uma cidadezinha bem rural anexa à terra do ragu:

Olhe a foto acima. Essas placas pontuam toda a estrada, sempre com quilometragens diferentes e extatas. Siginifica: nos próximos 2,5 km, há chance de um animal silvestre cruzar a estrada - atenção. (Daqui a 2,6 km, fique tranquilo).

Pergunto: os ecologistas italianos mapearam tão bem o entorno das cidades a ponto de prever exatamente onde é que os veadinhos cruzam a pista? Ou os veadinhos europeus que - claro, sendo europeus - são tão obedientes que só cruzam onde a placa manda?

;o)

PS: pessoal do Guia Quatro Rodas podia me ajudar: nossas placas de animais na pista também vêm com quilometragem exata?

 


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Suécia: o melhor país do mundo para ter um filho (e para levar o seu filho)

Claudia Carmello - 26/06/2008

Dizem os mandamentos do turismo sustentável que você deve se informar sobre a realidade social e ambiental do país ou da comunidade que visita antes de chegar lá. E assim você pode fazer das suas férias uma experiência mais integrada e uma contribuição àquele lugar (ou ao menos uma não-agressão a ele). Enfim, isso geralmente significa entrar em contato com a cultura e a natureza, mas também com as mazelas ou perrengues do destino.

Eu fiz toda a minha lição de casa antes de chegar à Suécia. Só que, sabe como é, a Suécia é o país da anti-mazela. E teve uma coisa que me marcou muito lá. As zilhões de crianças que andam com os seus pais pelas ruas. Eles têm uma filharada! E o zilhões de carrinhos de bebês empurrados por homens, numa quinta-feira à tarde?

Foi bom eu ter me informado direitinho. Só assim eu descobri o que existe por trás desse fenômeno. A Suécia deve ser o melhor lugar do mundo para se ter um filho. Tanto é que eles estão no pódio da taxa de natalidade na Europa atualmente.

Funciona assim: a cada filho que um casal tem, os dois, juntos, ganham uma licença paternidade/maternidade de 450 dias. Não é brincadeira. Somando o tempo que o estado paga para que o pai e a mãe fiquem sem trabalhar pra cuidar da criança, chega-se a mais de um ano de benefício. Os pais podem decidir como se dividir com esse tempo, e quanto da licença usar, mas é obrigatório que cada um tire no mínimo 60 dias. Porque, se um deles não tirar, o outro também não pode.

Por quê? É que, na prática, muitos suecos não usam toda a licença. A gente acha sensacional o benefício porque não podemos nem sonhar com isso no Brasil, mas a verdade é que nem todo mundo topa largar o seu trabalho por um ano para ficar em casa com o bebê. Ainda mais que, depois do 1 ano de idade, o estado paga integralmente creches legais para as crianças, o que leva a uma taxa de 80% de mulheres trabalhando fora. E, para muitos homens suecos, dois meses já é demais – a maioria deles não usa mais do que esse piso obrigatório.

Só que o estado quer ir além. Um polêmico projeto de lei quer estabelecer que o período de licença usado pelo casal para cuidar de seu bebê seja dividido igualmente (50% - 50%) entre pai e mãe, sob pena de perderem o benefício. O argumento? Só assim se pode garantir, de fato, igualdade entre homem e mulher, em casa e no trabalho. Não é incrível? Não consigo imaginar quando é que uma discussão dessas poderia ter espaço no Brasil.

Ok. Para voltarmos ao nosso escopo turístico... (ah, eu tinha que fazer essa digressão aqui no blog. Eu achei essa história quase tão fascinante quando as atrações turísticas de Estocolmo). Lá vai uma lista dos melhores lugares para levar o seu filho na capital sueca:

1. Skansen: é uma mistura de museu de história a céu aberto, zoológico e parque de diversões. Tudo em meio a muito verde. Mais de 150 prédios tradicionais (casas, igrejas etc) são organizados como num mini-mapa da Suécia (a arquitetura do norte no norte, do centro do centro etc). E o Akvariet, lá dentro, é o zológico e aquário – a criançada ama.


2. Vasamuseet: o museu abriga e conta a história de um navio de guerra do século 17, todinho de madeira, gigantesco e lindo, com centenas de esculturas entalhadas – desses de filme de pirata mesmo. O gigante – 69 metros de comprimento e 52,5 de altura – afundou 20 minutos depois de sua viagem inaugural, em 1628. Em 1956 ele foi achado debaixo d’água, e retirado dela cinco anos depois. Até ser restaurado e chegar ao museu em 1991. Vê-lo é absolutamente fascinante.


3. Um passeio de balão que sobrevoa a cidade – veja o post sobre isso aqui – e vários passeios de bicicleta pelas 14 ilhas de Estocolomo – veja o post aqui.





Leia os posts anteriores sobre a Suécia:
Europa Verde: o churrasquinho descartável e o futebol de cueca dos suecos
Europa Verde: a natureza sueca é self-service (ou: como colher lingonberries da casa do vizinho)
Europa Verde: o jeito sueco de ser sustentável
Europa Verde: a Suécia e o subversivo sol da meia-noite


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Europa Verde: as bicicletas e o transporte sustentável em Estocolmo

Claudia Carmello - 20/06/2008

Pra quem não tem coragem ou euros suficientes para encarar o vôo de balão que sugeri no post passado, aqui vai uma idéia bem mais acessível para viajar verde na capital da Suécia.

É preciso meia hora de passeio numa manhã de domingo em Estocolmo pra descobrir. Além dos barcos, a cidade é das bicicletas. O mais divertido é que dá pra ir pedalando pra cada uma das 14 ilhas que compõem a cidade - tudo é ligado por pontes. E dá até pra chegar sobre duas rodas até as principais das outras 24 mil (!!!) ilhas ao redor, que fazem parte do chamado Archipelago, o playground de verão dos moradores de Estocolmo.

Em imagens:

No topo, as meninas que enchem os pneus das bikes nas bombas públicas (essa casinha verde que aparece na foto). Mais:

Uma cena a la centro histórico italiano (mas que foi flagrada em Gamla Stan, a ilha histórica no centro de Estocolomo, onde ficam as vielas medievais de paralelepípedo, o palácio real etc).

A sueca padrão: loirinha, esguia e com modelitos bem femininos, mesmo sobre uma bike.

Desculpem a lerdeza no gatilho... quase perdi a cena do papai e do filhinho, os dois de capacete, na travessia da ponte entre Gamla Stan (a ilha histórica) e Söder (a ilha-baladas descoladas).

Uma esquina qualquer, dois estacionamentos informais de bikes...

A faixa exclusiva do lado direito da rua que garante que você pedale tranquilo, sem nenhum carro te ameaçando.

E o serviço: as bicicletas da Stockholm City Bikes, que você pode "pegar" em dezenas de pontos da capital e devolver em qualquer outro deles, num intervalo máximo de 3 horas, sempre pegando entre 6h e 18h. Se for pedalar o dia inteiro, é preciso devolver em 3 horas e na sequência pegar uma outra (pra garantir que todos possam usar o serviço). 

Vale muito a pena. É diversão garantida, além de zero emissões de CO2 na atmosfera. Basta comprar um cartão da City Bikes válido por 3 dias (13 Euros) ou por toda a temporada de verão, entre 1 de Abril e 31 de Outubro (21 Euros). Dá pra comprar pela internet (mais barato) ou na Central Station.

Leia os posts anteriores:
Europa Verde: os balões e o transporte sustentável em Estocolmo
Europa Verde: o churrasquinho descartável e o futebol de cueca dos suecos
Europa Verde: a natureza sueca é self-service (ou: como colher lingonberries da casa do vizinho)
Europa Verde: o jeito sueco de ser sustentável
Europa Verde: a Suécia e o subversivo sol da meia-noite
Europa Verde: quando seu cartao-postal preferido está em obras
Europa Verde: a onda sustentável por toda parte


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