J. Pinto Fernandes, 51 anos. Mineiro. Fumante. Heterossexual, com uma escorregada em Paris nos anos 70. Ex-militante da organização terrorista Var-Palmares. Ex-craque do time dente-de-leite do Banespa. Fundador, com Carlinhos de Jesus, da Academia de Dança Acadêmicos da Profilaxia. PhD em Ciência do Turismo pela Faculdade Clowes Ross de Boston. Tem 253 países carimbados em seu passaporte, mas gosta de uma meia-dúzia. É casado em quintas núpcias com uma moça bem mais nova.

É curioso como a imprensa tratou, recentemente, dois heróis nacionais: João Gilberto e Dorival Caymmi. Cada um deles ajudou a forjar uma imagem do Brasil. De certa maneira, essa imagem é uma extensão de suas personas. João reinventou o violão, criou a batida da Bossa Nova e, com ela, inventou um país – um país otimista, eternamente ensolarado, onde viviam presidentes simpáticos e civilizados, onde todas as praias eram Ipanema e Copacabana, todas as moças bonitas e os rapazes, inteligentes. Evidentemente, esse lugar nunca existiu (mas isso é outra conversa). O Brasil de Caymmi tem jangadas, morenas sestrosas e o mar que quebra na praia, bonito, bonito – e que também nunca existiu (aliás, Caymmi não sabia nem nadar).
Mas esses dois Brasis têm diferenças importantes. João Gilberto fez um show em São Paulo que trouxe à tona um Brasil deslumbrado, envelhecido. Parte disso se deve ao próprio JG. Seu culto à personalidade é ilimitado. Ok. Trata-se de um recluso. Direito dele. Mas desconfio que há uma vaidade imensa nisso, uma falsa modéstia, uma aversão estudada a se mostrar, o que apenas alimenta seu mito de gênio difícil. Demorar uma hora e meia para subir ao palco é só desrespeito, mais nada. Ele não estava ensaiando, não estava passando mal, não houve problema técnico. Atrasou porque ele simplesmente decidiu se atrasar. O silêncio absoluto e reverente com que o escutam e que ele exige, a neurose com o ar condicionado, a necessidade patológica de ser incensado, de ter seguidores e discípulos não aumentam a figura de João. Só o diminuem. E a mídia completamente a seus pés, com coberturas laudatórias e intermináveis dele, de sua namorada, de suas não-entrevistas.
Por outro lado, vejo entrevistas antigas e recentes de Caymmi. O homem que cultuava a preguiça e que, em 60 anos de carreira, não chegou a compôr 200 músicas, morava em Minas Gerais, numa cidade pequena chamada Pequeri. “Desconfiava” que sua obra ia resistir ao tempo. Mas nunca se deu ao trabalho de mandar fotos de festa de aniversário para a Caras ou de se trancar num sítio, cultivar a fama de maluco-beleza e nunca mais ser visto por nenhum ser vivente. “Meu dia-a-dia em Pequeri? É ser preguiçoso. É um lugar de descanso muito agradável. Tem coisas como essas, que me vêm ao coração: lembrar da minha mulher, a Stella Maris do rádio, que nasceu aqui. Aqui é um ponto de Minas Gerais daqueles de muita paz, muita tranqüilidade, noites muito agradáveis, amizades também boas, tudo muito sereno.”
Caymmi não será esquecido. Sua carreira e sua vida foram celebradas como ele mereceu. O Brasil de Dorival Caymmi, com as baianas e os joões valentões, as itapoãs e as lagoas de Abaeté, nunca foi real. Mas é melhor do que a fantasia da ditadura do bom gosto imposta por João Gilberto. E, na terra de Caymmi, o ar condicionado e a rede estão eternamente liberados.