Viagem é o ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado, como dizem os dicionários? Ou é chegar a um lugar em que sempre estivemos, ainda que sem termos ali colocado os pés? Qual é a sua viagem?
Ter cruzado de van, por um dia inteiro, uma boa parte do Marrocos para chegar a uma franja do deserto do Saara, subir num camelo e “camelar” por uma hora até um ponto qualquer do deserto onde as dunas chegam a 40 metros e lá passar uma noite ao relento – minto: havia tendas confortáveis armadas para nós, turistas - pode parecer um feito e tanto. O relato desperta certa comoção quando contado, especialmente ao telefone (“preciso te falar: dormimos no deserto”). Mas, para consumo interno, não impressiona muito. Viagens de aventura, de descoberta, de seja lá que nome se dê, são tão previstas e previsíveis quanto um pacote da CVC para Maceió. Você vai a uma agência perto da praça central de Marrakesh, combina o dia, paga uma importância em euro e é levado pelo motorista no dia aprazado. Entra nos kasbahs (velhas cidadelas fortificadas onde às vezes pequenas populações ainda vivem), compra um tapete de um artesão local (as mulheres podem escovar a lã de carneiro), se chapa com os visuais do Vale do Rio Dades e exercita rudimentos de francês nas paradas. Sim, é uma linda viagem, mas nada que fique para a posteridade, como um pouso forçado nos Andes, um seqüestro na Venezuela ou, como no caso de meu amigo Eduardo Albarello, o Velho, seu encontro com Megaron e Raoni.
O Velho não concorda com a assertiva. Para ele isso é trabalho, e, se compararmos suas quatro ou cinco viagens ao Alto Xingu com o que fizeram (e fazem) os sertanistas, seu meeting com os caciques de fato é pinto. O Velho vai com grana da ONG Rainforest, do Japão, fotografar os índios caiapós que vivem no Parque Indígena do Xingu, no norte do Mato Grosso, nas localidades de Metotiri e Capoto. Parte de suas fotos foi usada numa exposição recente em Tóquio, e que pode vir este ano para o Brasil – talvez para Belo Horizonte.
O que faz venturosa a jornada do Velho não é tanto o deslocamento – dias de estradas difíceis entre Brasília e São José do Xingu, numa região não muito distante de onde caiu o Boeing da Gol, e o dia inteiro de barco descendo o Rio Xingu. O que torna mais interessante sua viagem é justamente o que não há (ou houve) no Marrocos, o imprevisto.
Embora tudo sempre esteja previamente acertado entre a ONG japonesa e os caciques, quando o Velho chega, numa expedição há muito anunciada, tem que negociar longamente com Raoni e Megaron. “Cobram-nos coisas prometidas anos antes por entidades que nada têm a ver conosco.” Leva-se um dia inteiro nisso, até a autorização final. Depois, está liberado para fotografar parte dos 400 índios de cada localidade e suas atividades. Mas às vezes Velho nem chegar às reservas consegue. "Numa das viagens, ficamos parados à espera dos índios liberarem a balsa. Não houve jeito de atravessarmos para o Parque."
Se consegue chegar, Velho não vive vida fácil. Para buscar água ou banhar-se é preciso caminhar 1,5 quilômetro. Às vezes há caça, e Velho gosta de preá. Velho não gosta muito de dormir em redes, por se mexer muito à noite, mas vai se habituando.
Perguntei a Velho o que os homens fazem enquanto as mulheres vão buscar água, função feminina por excelência - fazem isso duas vezes ao dia. “Porra nenhuma.”
Velho está pensando em se mudar para Metotiri.
O retrato deste post é do catálogo da exposição de Tóquio.