Ricardo Castanho é editor de restaurantes do Guia Quatro Rodas, é dele a avaliação (anônima) de 2 287 restaurantes brasileiros. Uma, duas, ou três estrelas? É o estômago dele que entende do assunto.
Sugestões de pratos em uma cantina paulistana: um atentado à língua italiana
Antes de começar minhas aulas de italiano, costumava brincar com as pessoas que me perguntavam se eu falava bem a mais latina das línguas. Minha resposta era sempre a mesma: “Falo muito bem o italiano de cardápio.” Verdade pura. A vasta experiência em restaurantes da “bota”, tanto como avaliador do Guia Quatro Rodas como em refeições “enquanto ser humano” (adoro massas e risotos), me transformaram em especialista de nomes de ingredientes e de receitas italianas. Minha sorte, nesse processo de aprendizado, foi registrar na memória apenas as grafias utilizadas em casas mais sofisticadas. E uma experiência recente me mostrou como essa é uma tática acertada para não reproduzir bobagens por aí.
Depois de quinze dias mergulhado em menus italianos de Florença e Milão, aceitei um convite para comer em uma cantina italiana de São Paulo (e resolvi minha primeira crise de abstinência nesse segmento gastronômico). No cardápio, quase tão grande quanto o número de pratos era o número de mutações ortográficas (veja a foto que ilustra esse post). Que tal um “Osso Buco com Fattucine”? Ou uma interpretação diferente para algo originário da região italiana do Piemonte: o “Frango Piamantese”? O “Capelete ao 4 format”, por sua vez, passa uma falsa sensação de que a informática chegou a todas as cantinas (mas o termo inglês é mesmo uma corruptela de formaggi, “queijos” no aqui longínquo idioma italiano). A “Brochola com Inhoque” resume bem o clima deprê que toma conta do cliente depois de uma leitura completa do cardápio (recheadíssimo de outros desvios lingüísticos).
Servir filé à parmegiana com presunto e mussarela ainda dá para engolir (faz parte de uma licença poética das cantinas paulistanas), mas tratar o idioma da culinária que eles representam dessa forma tão desleixada é um abuso dispensável. É por isso que abro esse espaço para outras denúncias de maus tratos à língua italiana em restaurantes (garanto anonimato para aqueles que participarem) e inauguro, aqui, uma campanha pela contratação de revisores de cardápio nesse segmento tão querido de São Paulo.
P.S. – Agradeço de coração a pessoa que me comunicar o significado do “molho map” que acompanha o “Espaguete Ragu c/ Isca de Filet migniom”. Não tive coragem de perguntar; muito menos de pedir.
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