Viagem é o ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado, como dizem os dicionários? Ou é chegar a um lugar em que sempre estivemos, ainda que sem termos ali colocado os pés? Qual é a sua viagem?
Se a de Atenas era celebrada com festa e emoção, a de Pequim provoca prisões, segurança reforçada e, nesta segunda (7 de abril), em Paris, chegou ao cúmulo de precisar ser transportada dentro de um ônibus. A tocha olímpica dos Jogos de Pequim não tem vida fácil: por onde quer que passe, provoca protestos contra o regime ditatorial chinês, especialmente a opressão contra os naturais do Tibete.
Com a China em superexposição, lembrei-me de um livro que li aos 17, 18 anos, Henfil na China. O celebrado cartunista (1944-1988), que à época era irmão do irmão do Henfil – ou seja, era ele mesmo: bem mais conhecido que o Betinho – e que não viveu o suficiente para ver o degelo do regime militar no Brasil (o lado bom do negócio: imagine o cara metido em dossiês, alopramentos e as outras maracutaias do PT), faz o livro de viagem mais chapa-branca que alguém poderia fazer. Um bom livro, diga-se, com descrições minuciosas de sua viagem de julho de 1977, mas de saldo terrivelmente positivo ao regime chinês. Mao, que havia morrido dez meses antes, sai santificado. Sempre ficou na minha memória a condenação incontinenti de Henfil ao Bando dos Quatro – encabeçado pela mulher de Mao, Jian Quing. Henfil esteve na China numa época brava, que veria logo a ascensão linha-dura do grupo de Deng Xiaoping – que colocou Quing e o resto do bando na cadeia.
Logo nos primeiros dias, Henfil é levado a conhecer o Centro das Minorias Nacionais de Pequim. Diz o cartunista:
"Me desculpem o entusiasmo. Mas, se tem uma coisa imaculada na Revolução Chinesa, é o trabalho com as minorias nacionais. Podem tirar o chapéu e recolher a má vontade. Palmas para os chineses.”
Henfil descreve o que aprendeu lá, mais uma ode ao Santo Mao: “Na Velha China, as classes dominantes negavam a multirracialidade da China. (Com Mao e a Revolução Chinesa) oficializaram a personalidade de cada raça: tibetano é tibetano; tibetano não é Han (a raça dominante). Independente da população que tiverem, as minorias participam da direção do Estado (...) Não dependem da boa vontade da maioria Han para se protegerem ou votarem leis que os interessem. É como se, no Brasil, o Congresso Nacional tivesse obrigatoriamente representantes índios.”
Serão cerca de 300 páginas nesse estilo, mas vale também contar como ele descreve o trajeto do aeroporto à Praça da Paz Celestial, um itinerário que parece ter mudado bastante nesses 30 anos:
“Não tem autopistas como no Ocidente, tipo Via Dutra. Tudo de uma pista. Asfaltadas e só. As estradas vão cortando ou ligando plantações. Tudo plantado, do aeroporto até dentro de Pequim. Você não nota a divisão campo-cidade. Sabe que está no centro de Pequim por causa das avenidas e dos edifícios administrativos. A lavoura vai quase até na praça central de Pequim.”
Lavouras no centro de Pequim? Quem sabe uma cândida homenagem do Grande Timoneiro ao povo que liderou na Revolução? Se elas ainda existissem, e se a China não dobrasse seu PIB a cada 7 anos, os maratonistas não teriam razões por temer pela saúde nos próximos Jogos.
Que diria o Dalai Lama ao pai do Fradim?