J. Pinto Fernandes, 51 anos. Mineiro. Fumante. Heterossexual, com uma escorregada em Paris nos anos 70. Ex-militante da organização terrorista Var-Palmares. Ex-craque do time dente-de-leite do Banespa. Fundador, com Carlinhos de Jesus, da Academia de Dança Acadêmicos da Profilaxia. PhD em Ciência do Turismo pela Faculdade Clowes Ross de Boston. Tem 253 países carimbados em seu passaporte, mas gosta de uma meia-dúzia. É casado em quintas núpcias com uma moça bem mais nova.
Por que tem sempre alguém que faz questão de dizer que já viu tudo o que você viu - e muito mais?
Um amigo me fala de outro amigo em comum. “Adoro o Lopes. O problema é que ele é incapaz de ter uma conversa sobre viagens sem parecer que ele já conhece todos os lugares que você menciona - e mais um montão. E ainda só ele viu aquele buraco em Turim que tem a melhor trufa do mundo”. Esse tipo de chato é um clássico. Ele nunca deixa você à vontade. Ele nunca pode demonstrar interesse sem querer participar ativamente da história. Ele não pode ser um espectador.
Mostrar fotos e contar causos de viagem é um hábito milenar. Pobres e ricos fazem isso. No passado, em álbuns. Hoje, pela internet. Ao vivo, sempre. O Lopes é o estraga-prazeres que não admite que ninguém fique contente com a própria viagem. O Museu do Vaticano? Pra quê?? Ele é amigo de um padre italiano que tem, no teto do banheiro, em cima do bidê quebrado, um afresco do Rafael. O Marais, em Paris? Ele tem todas as dicas de um outro bairro, muuuito mais legal, cheio de bares de imigrantes chineses e albaneses descoladíssimos. O cheesebúrguer do Corner Bistro, em Nova York? Magina! O do Jim Jones, no Village, tem uma maionese feita com batata irlandesa que é sensacional.
No final do papo, você está assim: “Poxa, podia ter sido tão mais legal. Se ao menos eu fosse esperto como o Lopes!”
Até que você se lembra de que a cidade que o Lopes visitou simplesmente não é a mesma que a sua. Pode até ser igual e ter o mesmo nome. Mas a dele é infinitamente mais chata. Como ele.
J Pinto não se deixa impressionar pelos carimbos que uma pessoa exibe no passaporte. A não ser os do Colin Powel.
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