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Ricardo Castanho é editor de restaurantes do Guia Quatro Rodas, é dele a avaliação (anônima) de 2 287 restaurantes brasileiros. Uma, duas, ou três estrelas? É o estômago dele que entende do assunto.


Seqüestro de cartão de crédito: nem Buda salva

Sábado à noite. Uma das mais badaladas novidades gastronômicas de São Paulo fervia com som de DJ e uma eclética clientela de endinheirados. Bar e lounge eram pontos de encontro de uma moçada jovem e bonita. Nas mesas do salão, casais e grupos de amigos jantavam e gastavam a voz para competir com a música que inundava o lugar. Uma mistura de restaurante e casa noturna emprestava ao Buddha Bar, instalado em um shopping de luxo, um clima de total descontração. A noite prometia. Mas perdeu boa parte do encanto depois do seguinte diálogo:
– Por favor, será que o Sr. poderia me emprestar um cartão de crédito?
– Não entendi. Por que o Sr. precisa do meu cartão de crédito? Eu devo pagar agora o que estou consumindo no bar?
– Não. É só uma norma da casa. Nós ficamos com o cartão de crédito do cliente até ele ir para a mesa. Depois o cartão é devolvido.
Resolvi não criar polêmica e, confesso, curioso para ver onde aquilo ia dar, emprestei o cartão. Na hora, senti vontade de fazer piada, e quase disse para o garçom não usá-lo em compras na vizinha Daslu. Mas o bom humor foi embora logo depois de ver meu cartão sumir de vista nas mãos de um desconhecido.
Passei boa parte dos longos e tensos 90 minutos de seqüestro do meu cartão – 30 deles já sentado na minha mesa no salão, pensando que boas razões a casa teria para um ato tão antipático. Descobri duas:
1) De posse do meu cartão, eles poderiam evitar que, depois de pedir uns drinques, eu e minha mulher corrêssemos pelo lounge, driblássemos as duas hostess, atropelássemos os seguranças, e pedíssemos o carro para os manobristas sem chamar a atenção.
2) De posse do meu cartão, eles poderiam acessar informações sobre a minha vida e descobrir uma ficha suja na polícia (na Receita Federal não seria problema aqui) ou uma participação em atos terroristas. Suspeitas confirmadas, eu seria gentilmente demovido da idéia de prolongar minha estada para além do bar.
Pensando como meu advogado, encontrei 4 boas razões para não entregar meu cartão de crédito ao garçom:
1) As administradoras de cartão recomendam que o cliente nunca perca o cartão de vista durante uma compra – muito menos por uma hora e 30 minutos.
2) Esse tempo é mais do que suficiente para um cartão de crédito ser clonado.
3) O período também é perfeito para que alguém realize compras em qualquer lugar do mundo, utilizando uma conexão de internet, o número do seu cartão e o código de segurança dele.
4) O restaurante pode facilitar os golpes descritos nos itens 2 e 3 sem assumir qualquer responsabilidade posterior.
Há cerca de dois anos, lembro que meu colega Josimar Melo foi bem duro com um restaurante que obrigava o cliente a passar o número do cartão de crédito na reserva por telefone. Hoje, parece que a nova moda vai além disso. Eles também querem passar um tempo com o seu cartão. Os comentários estão abertos para vocês, leitores e donos de restaurantes. Reter o cartão de crédito de um cliente dessa maneira é uma prática justa? Eu vou me abster de opinar... mas quem tiver outras histórias sobre casas que tratam consumidores como meliantes, fique à vontade para relatá-las aqui.


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Comentários



Isabel - Engraçado... eu pensei que esses lugares metidos só fossem preconceituosos com pobre. Agora gente que pode freqüentá-los também é "suspeito"? Infelizmente, uma sugestão de boicote a esse lugar não pega, porque quem vai até lá, esses endinheirados que vc cita, não devem se importar em literalmente pagar o preço do seqüestro do cartão para aparecer e se mostrar. Com a comida, alguém se importa? É boa, pelo menos? - 21/04/2008 - 10:16

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