Ricardo Castanho é editor de restaurantes do Guia Quatro Rodas, é dele a avaliação (anônima) de 2 287 restaurantes brasileiros. Uma, duas, ou três estrelas? É o estômago dele que entende do assunto.
A pizza de um anti-Lugarzinho: reprovada no visual
Já não basta indicar restaurantes badalados, com reconhecida fama. Hoje, o ser humano é forçado pela sociedade a ter seus lugarzinhos na manga. Foi comer no Fasano e gostou? E daí, cara? Qual a novidade nisso? Todo mundo conhece e sabe que é bom! Se você quiser cativar seus amigos, impressionar sua namorada e marcar pontos com seu chefe é preciso ir além. Imprescindível conhecer um lugarzinho para comer que só você e mais meia dúzia de pessoas (fora do seu círculo de vivência) já visitaram. Mas não basta apenas ser um lugar beirando o miserável, com localização inusitada, ótimos preços, dono folclórico e curiosidades beirando o hilário. Esse perfil de lugarzinho dominava as conversas de dez anos atrás. Atualmente, para dizer que você é dono de um autêntico lugarzinho, o restaurante ou bar precisa ter tudo isso e uma ótima comida. Só assim você receberá o título de “insider-rei” da sua turma.
Infelizmente, nessa nobre tentativa de patentear um lugarzinho (e deixar sua marca na história da humanidade), muita gente força a barra. Semana passada, fui em um destes graves desvios de avaliação. Confesso que já não era um lugarzinho novo, mas um comentário em um vídeo do “Diary of a Foodie”, da revista Gourmet (só para quem tem iTunes + iPod), me animou a correr para esse restaurante. No vídeo sobre a simplíssima pizzaria paulistana Venite (av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1141, Vila Mariana, tel. 5579-5316), o repórter afirma com todas as letras que a casa produzia uma das redondas preferidas do chef Alex Atala. Uma pesquisada na seqüência e descubro um blog da Roberta Malta (Jornal do Brasil) tratando a pizza em questão como “a melhor pizza da minha vida”. Peguei meu carro e dirigi eufórico para o lugarzinho certo, famoso por exóticas pizzas de mussarela e ovos inteiros estrelados, e versões doces como a Romeu e Julieta (queijo com goiabada). Tudo preparado com massa fina, em forno a gás.
Ansioso pelo resultado da operação? Vamos lá: casa quase vazia, clima triste, pizza de massa com espessura de papel, um pouco dura e sem gosto, calabresa de segunda, mussarela de terceira, molho de tomate aguado e ralo. Alguma coisa boa? Sim, a cerveja estupidamente gelada. O mais triste é que encheram tanto a bola do falso-lugarzinho que o dono não teve dúvidas. Estampou uma placa enorme no salão avarandado com uma auto-avaliação que quase me levou às lágrimas: “A melhor pizzaria do Brasil”.
Não sei quanto tempo levarei para esquecer essa experiência, nem quando apagarei dos meus pesadelos a idéia de que centenas de outras pessoas vão comprar a propaganda desse lugarzinho e formar um péssimo conceito das pizzarias paulistanas. Mas não despreze minha história na hora de dar à luz a um lugarzinho. Lembre-se que você, ainda que movido das melhores intenções, pode estar criando um monstrinho.
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