Viagem é o ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado, como dizem os dicionários? Ou é chegar a um lugar em que sempre estivemos, ainda que sem termos ali colocado os pés? Qual é a sua viagem?Fui informado, tempos atrás, que o nome do nosso país foi escolhido por haver aqui grande quantidade de árvores chamadas pau-brasil. Eu devo ter ficado tão satisfeito com a explicação que nunca me dei ao trabalho de saber a razão de a árvore chamar, afinal, pau-brasil. Hoje, ao folhear "A Viagem à Terra do Brasil", do francês Jean de Léry, talvez o primeiro viajante estrangeiro a publicar em livro o que viu por aqui, aprendi que a palavra Brasil tem a mesma raiz de “brasa”. O traço comum da árvore e da brasa é a cor “vermelho-fogo”.
O pau-brasil devia ser bem valioso, a ponto de nominar um enorme território – e derrubar nomes bem mais conformes para um império católico como Vera Cruz. No século 16, um corante extraído dela era muito usado em tinturaria – e também na escrita. A madeira, pesada e resistente, também aprazia. Diz Lery: (...) Direi que tanto por causa da dureza, e conseqüente dificuldade em derrubá-la, como por não existirem cavalos (...) para transportá-la, é ela arrastada por meio de muitos homens; e se os estrangeiros que aí viajam não fossem ajudados pelos selvagens, não poderiam nem sequer em um ano carregar um navio de tamanho médio.”
De tão duro, o pau-brasil é considerado incorruptível. Diz o Aurélio: “Árvore da família das leguminosas, de matas mais ou menos secas, e cuja madeira é vermelho-alaranjada e depois vermelho-violácea, pesada, dura e incorruptível.”
Desconheço outros países que fizeram questão de homenagear um representante da sua flora. Butão, talvez? (Dragão do Trovão, diz-me a internet) Noruega? (Caminho para o Norte) Costa do Marfim? (Peraí, lá não é Costa do Ébano.) Mas não fizemos bom proveito desse tributo. Além de detonarmos a espécie junto com a Mata Atlântica, de onde ela provém, tornamo-nos tudo menos incorruptíveis. Feio.
Vai levar uma cara - ou melhor, esse dia não chegará nunca - em que no exterior sejamos associados a uma árvore. Se isso acontecesse, e se fosse para ser uma espécie típica da Amazônia, meu chute seria a cana. Ou a soja.