J. Pinto Fernandes, 51 anos. Mineiro. Fumante. Heterossexual, com uma escorregada em Paris nos anos 70. Ex-militante da organização terrorista Var-Palmares. Ex-craque do time dente-de-leite do Banespa. Fundador, com Carlinhos de Jesus, da Academia de Dança Acadêmicos da Profilaxia. PhD em Ciência do Turismo pela Faculdade Clowes Ross de Boston. Tem 253 países carimbados em seu passaporte, mas gosta de uma meia-dúzia. É casado em quintas núpcias com uma moça bem mais nova.
Por que os mochileiros se acham melhores que os turistas comuns?
Acabo de ler que o nosso querido Guga, grande figura, vai aproveitar a aposentadoria para surfar e mochilar pela Europa. Os mochileiros ocupam hoje, de certa maneira, o lugar dos hippies, dos beatniks, ou algo que o valha, no imaginário de viagem. Têm a aura da liberdade: jovens que saem sem lenço nem documento pelo mundo, munidos apenas da coragem e de alguns dólares, e se viram como podem: ficam em albergues, na casa de amigos, praticam couch surfing (dormem nos sofás). Enfim, têm uma experiência do lugar muito mais "autêntica" verdadeira" do que você ou eu, que vamos de pacote da CVC.
Hoje, mochilar é uma religião com adeptos fanáticos. Na hierarquia mundial do turismo, ficam, lá no topo, eles. Em seguida, muitos degraus abaixo, os turistas, esses panacas vestidos de camisa florida e bermuda. Mochileiros sabem pegar trem; turistas andam de van; mochileiros vão a baladas; turistas vão ao almoço incluído; mochileiros sabem andar de metrô; turistas sabem andar no shopping. O fato de ficarem em albergues, muitos deles no limite da vigilância sanitária, não deveria significar que são mais espertos que ninguém. Ainda que papai e mamãe tenham lhes dado um bom dinheiro para praticar a vagabundagem européia, eles vão se achar melhores do que o senhor e a senhora, que pagam sua viagem com as crianças em dez suaves prestações.
A sorte do Guga é que, em sua mochila, caberão alguns milhares dos milhões de dólares que ele ganhou na carreira. O suficiente para ficar no melhor hotel de Londres – sem banheiro coletivo e sem beliche no quarto.
J Pinto passou seis meses na Europa trabalhando como garçom nos anos 80. Quando fez seu primeiro milhão de dólares, voltou ao Brasil.
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