Viagem é o ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado, como dizem os dicionários? Ou é chegar a um lugar em que sempre estivemos, ainda que sem termos ali colocado os pés? Qual é a sua viagem?
Clemente é um cara do Limão, Zona Norte de São Paulo, que decidiu, fiel ao lema punk “Do it yourself”, fazer uma banda punk. Tinha uns 13 anos, mas foi aos 18 que montou aquela que ficou conhecida como a mais importante banda do punk paulista – Os Inocentes. O gênero já teve seu tempo, mesmo a temática sendo imorredoura: você consegue imaginar uma sociedade não-opressiva?
Bem, Clemente já foi encarregado de produção numa empresa "gigantesca" que fabricava cadarços. "Tinha que controlar as remessas para Novo Hamburgo, para o interior de São Paulo... Eu ficava maluco." Nesse tempo escreveu uma das músicas do LP (isso, LP) “Pânico em SP”, lançado pela WEA Discos, em 1986. A música começa assim:
Acorda cedo para ir trabalhar/ O relógio de ponto a lhe observar/ No lar esposa e filhos a lhe esperar/ Sua cabeça dói, um dia vai estourar, com essa/ Rotina (...).
Conheci o camarada exatamente em 1986. Eu trabalhava como divulgador da tal WEA Discos e algumas vezes dei uns "cavalos" de moto (caronas) para o sujeito, que não tinha carro, da gravadora, na Avenida Brasil, para a casa dele, lá pelas bandas da Deputado Emílio Carlos. Também presenciei o histórico show do Sesc Pompéia, em que a banda foi espinafrada por alguns radicais da platéia, que não aceitavam que Os Inocentes, logo eles, lançassem um disco por uma “major”, uma grande gravadora multinacional. Coisa de "vendidos" e "traidores do movimento punk". Muitos desses loucos invadiram o palco e “interagiram” com a banda, tocando nos instrumentos e nos músicos, correndo entre eles e chegando mesmo a retirar as baquetas da mão do Tonhão, o baterista. Um happening total, e a banda nem tinha como reclamar – aquilo era punk, afinal.
Estes dias, pensando sobre minha própria rotina, lembrei da música e do Clemente, e liguei pro cara para ele contar algo sobre os seus dias. E como ele poderia nos ajudar a fazer a nossa rotina menos penosa.
Vai, Clemente.
"Velho, acho que a primeira coisa é gostar do trabalho. Se não, não há jeito. Se o cara gosta de quebrar pedra, e quebra pedra, isso já é um grande passo para ele ser feliz."
E como não cair na rotina mesmo nas férias - supostamente um ótimo momento para sair da rotina?
"Acho que não ir para os mesmos lugares, não fazer as mesmas coisas que todo mundo, já é uma quebra de rotina. Eu, por exemplo, evito ao máximo viajar em épocas em que todos viajam. Também vale não levar muito a sério roteiros fechados de viagem."
Clemente anda viajando para uns lugares estranhos. Esteve no Tocantins com a Plebe Rude, a velha banda de Brasília dos anos 80 ("Posso Vigiar teu carro/ Te pedir trocados/
Engraxar seus sapatos..."), em que ele agora também toca e canta. E faz discotecagem nuns lugares legais de São Paulo. "É melhor que quebrar pedra - e cuidar das encomendas dos cadarços."