J. Pinto Fernandes, 51 anos. Mineiro. Fumante. Heterossexual, com uma escorregada em Paris nos anos 70. Ex-militante da organização terrorista Var-Palmares. Ex-craque do time dente-de-leite do Banespa. Fundador, com Carlinhos de Jesus, da Academia de Dança Acadêmicos da Profilaxia. PhD em Ciência do Turismo pela Faculdade Clowes Ross de Boston. Tem 253 países carimbados em seu passaporte, mas gosta de uma meia-dúzia. É casado em quintas núpcias com uma moça bem mais nova.
Eu já odiei essa cidade. Ou melhor, a desprezei. Com aquele desprezo que só os casados de décadas conseguem crescer entre si. Achava-a feia, sem história, sem personalidade. O Rio, pensava eu, era o ideal de cidade. Um lugar onde se pode praticar uma atividade prosaica e civilizadora: caminhar.
Pois outro dia fazia isso – caminhar – em São Paulo. Mais exatamente, na Pompéia. São poucos os bairros onde dá pra fazer isso em SP. Pompéia não é um deles. Bom, o que eu vi foi uma revelação. Numa rua sem graça como a Cotoxó, 3 bares tinham sido inaugurados. Nos arredores, lojas. Nas travessas, edifícios de alto padrão sendo erguidos. Na Avenida Pompéia, um shopping.
E eu pensei: São Paulo é feia. Mas é rica. E tem uma beleza nessa pujança, nesse monte de gente, nesses guindastes, nessa coisa de não parar, de não dar espaço. São Paulo não é o Mosteiro de São Bento, no Pátio do Colégio ou nas tentativas patéticas de preservar o centrão. São Paulo é feita de rapidez, barulho e novidade.
Voltando de Teresina, no Piauí, ouvi na fila do embarque: “Vocês vão com a gente até a 25 de Março?”. Um sujeito perguntava pra duas moças, provavelmente da mesma empresa. “Vamos. É perigoso?” O cara deu uma risadinha de lado e falou: “É. Mas é bonito. É que nem São Paulo, ué. Tem que ir!”
São Paulo é isso. Tem que ir, senão passa. Nem que você seja assaltado.
J Pinto ainda sonha morar no Rio de Janeiro só pra sentir falta de São Paulo.