Um calor descomunal reinava nas ruas de pedra do Pelourinho naquela sexta-feira. O sol esquentava as cabeças dos baianos em ritmo de São João e dos turistas bem protegidos por seus protetores fator 50. O sobe e desce de caixas de cerveja aguçam a sede e a correria dá certa preguiça.
No número 2 do terreiro de Jesus encontra-se a Cantina da Lua, à primeira vista um restaurante comum de Salvador, mas ao sentar para ouvir um pouco dos “causos” o espaço ganha uma porção bem servida de histórias.
A começar por Seu Clarindo (Clarindo Silva, proprietário do estabelecimento), um senhor de mais de 70 anos, que só veste branco, mesmo não sendo filho de santo. A princípio pensei que a vestimenta era por causa do dia de Oxalá, mas ele estava com a mesma elegância branca no dia seguinte.
Há muito tempo é uma importante peça para os interesses dos comerciantes. Já foi rei momo, mesmo sendo magérrimo e entregou uma carta nas mãos do papa João Paulo II. Está sempre lá, com uma educação ímpar.
Ele me recebe para um bate-papo informal. Quase de velhos amigos, se não fosse o fato de ele saber tanto e eu tão pouco. Fala sobre a história da Bahia, dá uma aula sobre o Pelourinho e olha com ares otimistas os novos rumos do Centro Histórico. Em meio ao seu discurso, de tempo em tempo, levanta para cumprimentar um cliente antigo ou um amigo, ou para atender alguém que precise de um guardanapo ou um talher.
No meio da nossa resenha, chega um rapaz perguntando pelo dono do restaurante, para que ele programe alguns shows. Seu Clarindo, com toda malícia baiana, retruca. “Tem que ser só com o dono?”, sem assumir a sua função. Troca poucas palavras com o músico desempregado, pede para que retorne depois do período de festas, em seguida, olha para mim com um sorriso de menino que acabou de ganhar um mugunzá.
A conversa durou mais do que seu Clarindo poderia doar e muito menos do que eu queria, mas foi desses minutos que só acontecem na sexta-feira à tarde. Leve, descompromissado e cheio de novidades.
De lá trouxe na bagagem, além das fitinhas do Senhor do Bonfim e de outros mimos para familiares e amigos, um pouco de histórias agradáveis e lembranças de um passado que eu não vivi, mas que pediria naquele dia de Oxalá, para que voltassem.
Pedro Henrique Araújo trabalha na Viagem e Turismo e aprendeu um pouco mais sobre a sexta-feira em Salvador
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