Viagem é o ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado, como dizem os dicionários? Ou é chegar a um lugar em que sempre estivemos, ainda que sem termos ali colocado os pés? Qual é a sua viagem?
Um dos corredores da cobertura do Bretagne
A marca distintiva de muitos prédios de Higienópolis, um dos raros bairros viáveis – e certamente um dos mais bonitos – de São Paulo, deve muito a um construtor paulistano de ascendência espanhola chamado João Artacho Jurado. Ele assinou os edifícios Piauí, Sabará, Cinderela e o famoso Bretagne, no trecho final da Avenida Higienópolis. Outros na área central, como o Louvre, na Avenida São Luiz, e o Viadutos, em frente à Câmara Municipal, são postais famosos da cidade.
Jurado, nos informa seu biógrafo, Ruy Franco, não freqüentou bancos escolares e não se formou arquiteto. Seu pai era anarquista e não admitia que o filho tivesse de jurar bandeira na escola. Para driblar as restrições corporativas, um arquiteto laranja assinava seus projetos.
Numa época de arquitetura racionalista, Jurado pregou a exuberância. Misturou pilotis, pastilha, gradis, ornatos, boulevards internos, piscinas sinuosas nas coberturas, curvas acintosamente decorativas. Forma não era função, definitivamente. Era um “hollywoodiano”, um Gaudi dos anos 50. O espetáculo não era apenas o que saía de sua prancheta, mas também as estratégias de comercialização. Afinal, ele era empreiteiro antes de ser arquiteto. Ao Bretagne, em 1958, trouxe uma delegação americana, e, nela, um punhado de mariners, que, em foto promocional, mostram-se em seus uniformes sobre as passarelas externas do edifício.
O interessante é que sua carreira, tão associada a esses edifícios, começou com um conjunto de casas e prédios na Vila Romana – que continuam de pé e são muito atraentes - e um bairro inteiro, uma urbanização nova, o Brooklin (oficialmente: Cidade Monções), onde, nas casas, experimentou enormes pórticos que dão um toque rural a elas.
Piscina no alto do Edifício Louvre
Sou admirador dos prédios do Jurado, mas não conheço muito bem seus interiores. Exceto o do Viadutos, em frente à Câmara, que tinha o famoso néon da Garbo no topo – foi o primeiro prédio da cidade a explorar a publicidade para reduzir os custos de manutenção, outra idéia dele. Morava ali uma amiga e, após uma visita, o elevador subiu caprichosamente e me deixou num andar inteiramente vazio, o do salão de festas. As escadas ali eram fechadas e o elevador jamais voltava. Demorou pelo menos uma hora.
O livro de Ruy Franco sobre Jurado saiu pela editora Senac e não custa menos de 50 pratas. Ache a melhor cotação por meio do Buscapé ou sites do tipo. Fotos coloridas só no final do livro – detalhes de vários dos prédios de Jurado.