Uma fila, tipicamente paulistana, esquenta a noite regada a rock e uivos de um velho carioca. Não é sexta-feira, mas como (aqui em São Paulo) quarta é feriado, esta terça tem clima de dia que não acaba.
O teatro de arena do
Centro Cultural São Paulo está com os dois andares lotados. Os 631 ingressos gratuitos foram distribuídos a partir das 22h e acabaram em inimagináveis 10 minutos. Algumas pessoas esperavam desde às 19h e quem chegou depois das 21h, provavelmente não conseguiu entrar.
Nos primeiros lugares da fila, duas meninas parecem ter saído de um show do
Rolling Stones: calças justas, botas, camisetas apertadas e cabelos bem pretos e curtos. Sim, as duas. Mais atrás alguns cabeludos, famílias, pessoas levemente embriagadas, jovens com os pais, mais cabeludos. Gente de preto, gente colorida, dreadlocks, carecas, meninos, velhos, enfim, todas as tribos.
O espetáculo tão esperado não é um filme hollywoodiano, é o show (acústico) do
Lobão.
Os espectadores se acotovelam na Sala Adoniran Barbosa para ver um cantor sem madeixas, mas com hits que nunca morrem, como “sangue e porrada na madrugada”, insistentemente gritado por uma senhora ao meu lado, e outras frases típicas como “ela adora me fazer de otário” e “me chama”.
O som não está dos melhores, mas a platéia não parece se preocupar, nem mesmo os que ficaram do lado de fora, vendo o show pelo vidro.
Lobão entra em silêncio, emenda uma música na outra, apenas avisando qual será a próxima canção. Faltou “paudurecência”, afinal, mesmo desplugado, isso é um show de rock e sentado não dá para mexer a pélvis, como o Elvis, nem chacoalhar a cabeça como um headbanger, muito menos tocar uma guitarra imaginária, ou ameaçar uma roda de pogo.
Ao anunciar as duas últimas canções, Lobão vê uma platéia rodeá-lo como uma presa. Era uma tentativa de prolongar por alguns minutos uma apresentação que uniu gerações. E ao sair da banda, o público canta, chama, vibra e pede um bis que não houve.
Pedro Henrique Araújo não viu o Lobão no Circo Voador, mas ficou com saudade
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