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Praga e Budapeste passaram por tempos difíceis. Mas hoje o clima
é de final feliz
Ao som da ópera La Bohéme, piso pela primeira vez na Ponte Carlos, em Praga. Acompanhada por uma orquestra em fita cassete, a cantora arranca aplausos do público. Passos adiante, um garoto cativa turistas com o doce som da sua flauta e uma garota punk se rende ao caricaturista. Surge uma dupla que ganha trocados arrancando agudos e graves da borda de taças de vinho, lado a lado com uma indefectível banda de jazz. Demoro a completar a travessia, mergulhada nas expressões das estátuas barrocas que enfeitam a ponte desde o século 17 (a maioria, réplicas), estupendas contra o céu cor-de-rosa do fim de tarde. Os olhares dos santos, repousados sobre os artistas de rua, parecem aprovar a trilha sonora, assim como o sorriso de um senhor cego. Mesmo sem ver o vai-e-vem de gente e o Rio Vltava (diga "váltva"), que corre gracioso sob a ponte, ele sente a magia.
Há séculos, as torres góticas, os santos barrocos, o castelo - banhados freqüentemente por uma luz dourada - imprimem um jeitão de conto de fadas a Praga. Como é de praxe em contos de fadas, a cidade passou por maus momentos: a era comunista, dos anos 50 até o fim da década de 80, e uma devastadora enchente em 2002, para citar alguns. Hoje o clima é de final feliz. Membro da União Européia desde maio, a República Tcheca e alguns vizinhos do antigo bloco de satélites soviéticos vêm recebendo investimentos do clube dos países ricos do continente e estão na moda. Os turistas querem conhecer suas particularidades e pagar preços mais baixos do que no resto do continente. O termo Leste Europeu está fadado ao desuso, já que, geograficamente, lugares como Praga e Budapeste estão no centro continental.
Na capital tcheca, as mesmas pessoas que se reuniram na Praça Venceslau para pedir o fim do comunismo, em 1989, na Revolução de Veludo, hoje comemoram as melhorias trazidas pela União Européia. "Passei os anos do comunismo estudando línguas, me preparando para quando ele terminasse", diz Martin Zicha, parte da multidão que, na época, balançou chaves e cantou hinos de libertação. Hoje guia de turismo, ele me mostra, entusiasmado, as rodovias em reforma no caminho entre Praga e a encantadora Cesky Krumlov, uma pequena cidade que abriga o segundo maior castelo da Boêmia (só perde para o de Praga) e quase 300 casas de arquitetura renascentista, todas originais, cercadas pelo Rio Vltava - antes segredo entre os viajantes descolados, mas que hoje caiu nas graças de todos os que têm pelo menos três dias no país.
Por: Anna Renata Angotti | Foto: Anna Renata Angotti
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