Foi possuído pelo espírito aventureiro do marinheiro inglês sir Francis Drake (um dos mais famosos e temidos piratas de todos os tempos) que me integrei à tripulação da escuna batizada com seu nome. Nosso objetivo era tomar de assalto as praias semidesertas próximas a Parati. No roteiro, estabelecido com o jovem comandante da embarcação, teríamos de passar pela temível Ponta da Joatinga, conhecida entre navegadores como o "Cabo das Tormentas brasileiro". E só então chegaríamos ao nosso destino final, Martim de Sá.
Assim, com uma bússola na mão e um sol ameno sobre a nossa cabeça, zarpamos do porto de Parati. Em menos de uma hora já tínhamos contornado a Ponta da Cajaíba e avistado a primeira praia deserta de nosso microcruzeiro, cujo nome era, exatamente, Praia Deserta. Que, diga-se de passagem, não era deserta: uma casa de pescador integrava-se harmonicamente à paisagem. Intrigado com a moradia, ordenei ao jovem comandante que se aproximasse o máximo possível da areia.
Segui a nado e depois a pé até a casa, e minha desconfiança foi dando lugar a algumas certezas: era, sim, uma casinha de pescador, só que bastante melhorada. E estava ocupada pela simpática família Cermelli: o papai Cermelli, Carlos, um arquiteto argentino, a mamãe Cermelli, Sandra, e as irmãzinhas Cermelli, Thaís e Sandra. Cansados da vida estressante de Parati, onde ainda mantêm uma loja de produtos artesanais, instalaram-se por lá há cerca de um ano. Carlos contou-me que comprou aquelas terras há 40 anos: "Vendi uma Kombi velha e arrematei este terreno de 40 alqueires. Na época, meus amigos acharam que eu estava fazendo um péssimo negócio..."
Integrei-me novamente à tripulação do Sir Francis Drake e seguimos viagem. Para atingir à Ponta da Joatinga, nosso Cabo das Tormentas, ainda teríamos de passar por algumas praias desertas, onde eu poderia dar vazão ao meu latente instinto de conquistador. A primeira, que só margeamos, foi a Praia Grande. Muito normal. A segunda, Itaoca. Igual à Grande, só que menor. A terceira, Calhaus, atraente mas longe de ser deserta. A quarta, esta, sim, com um nome conhecido mundialmente, Ipanema, mostrou-se uma autêntica praia deserta. "Vamos saqueá-la...", sussurrei no ouvido do jovem comandante. Mas as aparências enganam e, por detrás da vegetação beira-mar, escondiam-se dezenas de moradias de pescador. Por fim, passamos ao largo da Praia de Cajaíba, a menos deserta das praias desertas, ainda que linda.
Seguimos em ritmo triunfante rumo à Ponta da Joatinga. Já passava das 3 da tarde quando ouvi o marinheiro Mudinho confabulando com o jovem comandante: "Acho que não vai dar..." Aproximei-me dos dois. "O que não vai dar?" "O mar está muito crispado e perigoso. É melhor voltarmos para a Praia de Cajaíba e fazermos a trilha até Martim de Sá", disse-me prudente e convicto. Assim, ancoramos em Cajaíba. E, minutos depois, nos embrenhamos na mata que dá acesso ao caminho até Martim de Sá.
A primeira meia hora de caminhada requereu de minha parte o chamado "esforço físico sobrenatural". Íngreme e árida, devido à evidente predação da vegetação nativa, fui obrigado a parar várias vezes sob o sol torrente. Contudo, em contraste com essa primeira meia hora, a segunda se deu numa estradinha que, além de ser quase toda feita de deliciosas descidas, era margeada por um trecho de Mata Atlântica intacta.
A entrada da praia fomos recebidos pelos cachorros do seu Maneco, o Manoel dos Remédios, que nos brindou com um sorriso e algumas dezenas de copos d'água. Só então fui conhecer sua majestade, Martim de Sá. Deserta, desertíssima, bela, belíssima. "Só na temporada é que vem gente aqui", contou-me seu Maneco, estirado em sua rede de pescador na sacada de sua casa típicamente caiçara, "e, em janeiro e fevereiro, chega a ter até 100 barracas na área de camping." Ele nasceu e se criou em Martim de Sá e é, por uso capião, o proprietário daquelas terras, que foram habitadas por seu bisavô no começo do século passado. Ali educou seus nove filhos, todos pescadores, que lhe deram "mais ou menos 33 netos", sempre aconselhando-os a respeitar o mar e a mata. "Eu sempre dizia pra eles: o mar e a mata... O mar-mata...", poetizou naquele magnífico fim de tarde, incorporando, ainda que de forma involuntária, o espírito pirata de sir Francis Drake.
As formigas da Praia do Sono
Dois fatos me chamaram a atenção quando seguia a bordo do meu carro rumo à Praia do Sono. O primeiro foi a quase absoluta falta de placas indicativas. Ao turista que quer conhecer a "Sonífera Praia" e não é nenhum adivinho intuitivo de quinto grau, restam duas opções: ou ter um minucioso mapa ao alcance das mãos, ou usar o mais antigo dos métodos, conhecido como "quem tem boca vai à Praia do Sono". No meu caso, usei uma mistura dos dois métodos.
O segundo e mais assombroso e surpreendente fato se deu quando estava a poucos quilômetros da trilha de acesso: havia uma cancela no meio do caminho, no meio do caminho havia uma cancela. Explico: é que, para chegar ao meu destino, tive de passar por dentro do Condomínio Laranjeiras e deixar com um dos guardas que cuidam da segurança o número do meu RG e da placa do meu carro. Ou seja, para chegar a uma praia que não é particular (aliás, por lei, sic, é proibido privatizar praias), tive de atravessar uma barreira de seguranças de um condomínio particular de alto luxo, lotado de (muito) endinheirados avessos a estranhos. Até hoje estou tentando entender. Tudo bem.
Passados esses dois pequenos percalços, estacionei o carro numa pracinha da Vila Oratório, um micropovoado, e me embrenhei na trilha que me conduziria, em 40 minutos, à Praia do Sono. E ela não era diferente das trilhas que passam por dentro de trechos intactos de Mata Atlântica: úmida, agradável e sinuosa. O único senão foram alguns aclives intermináveis, que acabaram sendo responsáveis pela invenção de um método que recomendo ao leitor menos resistente: toda vez que a sua língua sair involuntariamente da boca ponha as mãos sobre os joelhos e veja o vigor com que as formigas passam (elas estão em todas as trilhas de todos os recantos do planeta). Como inventor e cobaia do método, posso assegurar: olhar as formigas transitando é revigorante como um banho de cachoeira.
Assim, de fila de formiga em fila de formiga, acabei chegando. Sentei-me num banquinho de bambu e, olhando a imensidão azulada que unia o céu, o oceano e a minha alma, lembrei-me da frase que a minha competente e poetisa dentista costuma me dizer enquanto obtura meus dentes: "Ciro, a vida é bela, a gente é que estraga ela..." Depois de refazer minhas energias, percorri aproximadamente 1 quilômetro de extensão e, entre um mergulho e outro, fui seguindo em direção à Praia dos Antigos. Nova trilha, esta de dez minutos, novo aclive, novas formigas.
Não seria exagero afirmar que a Praia dos Antigos foi uma das mais bonitas e charmosas que conheci em toda a minha vida. Em parte, porque ela está como veio ao mundo: nua, intacta, dilacerante. Em parte, porque a manhã azulada refletia de maneira sublime a espuma branca de suas ondas. E, enfim, porque estava me sentindo incontrolavelmente feliz naquela manhã.
Da Praia dos Antigos à dos Antiguinhos, foi um pulinho. Dos Antiguinhos à Praia da Ponta Negra, 30 minutos. Quando cheguei à Ponta Negra, já passavam das 3 horas da tarde. Dezenas de crianças brincavam num lago que separa a água do mar da água que desce das montanhas. E eram crianças mestiças, algumas nitidamente indígenas, outras mulatas, todas felizes e saudáveis.
Quando a tarde começou a cair e o sol se alaranjou de maneira histérica, segui de volta ao Condomínio Laranjeiras. Ali, fui posto dentro de uma Kombi e levado ao meu carro. Sob o olhar severo dos seguranças. E a bênção da primeira estrela que estampava o céu.
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