Do clássico A Dama de Xangai (1947), de Orson Welles, ao desastroso Surpresa de Xangai (1986), com Madonna e Sean Penn, passando pela abertura de Indiana Jones e o Templo da Perdição (1984), Xangai sempre foi para Hollywood a terra do exotismo, das prostitutas e trambiqueiros, dos cabarés e portos esfumaçados. Ah, se Orson Welles pudesse pisar lá hoje - se é que pisou algum dia... Centro comercial e fi nanceiro da China continental, Xangai é hoje, com 14 milhões de habitantes, a mais populosa cidade do país. E também a de vida noturna mais vibrante, a mais bem servida em gastronomia, a mais cosmopolita.
Uma conjunção de fatos geográficos e históricos explica tais superlativos. Surgida na Dinastia Sung (960-1279), Xangai era uma simples vila de pescadores banhada pelo Mar da China Oriental e pelo Rio Huangpu, afluente do maior rio do país, o Yang Tsé. Por causa do rio e do mar, tornou-se um porto regional durante a era Qianlong (1736-1796) da Dinastia Ching. No século 19, após a derrota nas duas Guerras do Ópio, a China teve de abrir seus portos ao comércio exterior e fazer concessões territoriais à Inglaterra, França, Rússia e aos Estados Unidos.
Nas décadas de 1920 e 1930, Xangai era o centro do comércio da Ásia com o mundo. Mas a chegada dos comunistas ao poder, em 1949, pôs fim à ascensão da chamada "Paris do Oriente". Pelo menos até o início dos anos 90, quando o processo de reabertura econômica iniciado em 1978 permitiu a Xangai se firmar como a plataforma de embarque para o - parafraseando o título de um velho kung fu com Bruce Lee - "vôo do dragão" da novíssima China.
O YIN E O YANG Em nenhum outro lugar do país o Ocidente e o Oriente andam tão de mãos dadas - uma relação íntima também na economia, como se viu entre fevereiro e março de 2007, quando a queda da Bolsa de Xangai causou efeito dominó nos mercados mundiais. Com ou sem abalos na economia, a cidade segue irresistível. Estrangeiros, chineses de outros cantos do país e os próprios xangaienses não se cansam de olhar o skyline iluminado.
Para entender onde está pisando, o turista pode começar pelo Shanghai Urban Planning Centre. Nesse museu, uma maquete mostra como será a cidade no ano 2020. Esqueça tudo que você já viu em termos de maquete. Essa mede 600 metros quadrados, com uma plataforma elevada de metal para os visitantes andarem ao redor. Tudo bem que ainda falta mais de uma década para 2020, mas o modelo permite visualizar os bairros, as atrações turísticas e, principalmente, o Rio Huangpu a dividir a cidade em duas.
O DINHEIRO E A DIVERSÃO Com 97 quilômetros de extensão e 400 metros de largura, o Huangpu é a fronteira entre duas Xangais: a da margem oeste, que se diverte nos restaurantes e casas noturnas instalados em prédios históricos da área chamada de The Bund, e a da margem leste, que ganha dinheiro em Pudong, uma inexpressiva área rural convertida a centro financeiro por decisão do governo. A transformação levou menos de dez anos.
Vários restaurantes do The Bund têm a vista do rio como atrativo extra. Nem precisava. A culinária européia do M on The Bund ou a chinesa do Whampoa Club falam por si. Não se come tão bem no agitado Bar Rouge, no sétimo andar de um prédio comercial, mas a vista de lá põe a maioria dos concorrentes no chinelo.
Se preferir um programa mais tranqüilo, siga algumas quadras adiantes até o Peace Hotel - palacete art déco construído em 1929. Sim, é jazz o som que vem lá de dentro. E, sim, é tocado por chineses. O quinteto Old Man Jazz Band se apresenta todas as noites, desde 1980. Todos os instrumentistas já passaram dos 50 anos, mas o único remanescente da formação original é o saxofonista Sun Jibin, 76 anos. "No auge do comunismo, tocar jazz era pior do que matar alguém", diz. "Mas a gente 'matava', na medida do possível."
A CARNE E O ESPÍRITO Para entender como os chineses se divertem na balada, vá até o Fu Xin, parque onde ficam o Park 97 e o Guandii. Freqüentado por trintões, o primeiro tem pista de dança e lounge onde às segundas uma brasileira requebra no samba - para delírio dos chineses. O agradável jardim na entrada do Guandii precede um salão escuro, com paredes de espelho. Nas pick-ups, os DJs disparam hip hop e música eletrônica.
Em busca de paz de espírito, visite o Jade Buddha Temple. Com 150 milhões de praticantes declarados, a China é um país majoritariamente budista. É divertido ver uma antiga urna de metal no pátio do templo e, no canto oposto, monges falando ao celular. Além de 10 yuans para entrar, pagam-se outros 10 para ver a estátua que dá nome ao templo: um Buda feito de jade da Birmânia, com 205 quilos e 1,90 metro. Há ainda outro Buda de jade, com 1 metro de altura, exposto ao lado de uma loja de chá.
O VELHO E O NOVO Os chineses consomem chá como os ocidentais consomem vinho. Há safras, regiões e, é claro, experts no assunto. Em Nanshi, a parte velha da cidade, uma casa de chá resiste à febre de modernizações que assola Xangai. O prédio assobradado da Huxin Ting encontra-se ali, em frente a um lago, desde 1784. Sentar-se perto da janela no segundo piso e tomar um chá de rosas enquanto aprecia o movimento das lojinhas é o tipo de experiência que só a China pode proporcionar.
Pouco adiante, uma outra construção histórica se revela ainda mais encantadora. Trata-se do Yu Garden, o jardim que o ofi cial Pan Yunduan mandou erigir para seu pai entre 1559 e 1577. São jardins dentro de jardins, com torres, lagos com carpas vermelhas e pavilhões unidos por pontes arqueadas.
Ao redor da casa de chá e do jardim, há um fervilhante mercado de casinhas brancas, com janelas de um marrom avermelhado e telhados cinza pontiagudos. Não se deixe iludir pela aparência de antiga. O centro velho foi praticamente todo demolido para dar lugar a essa réplica moderna, que tem espaço até para McDonald's e Starbucks. Bem-vindo a Xangai.
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