48 Horas 13/08/2012

48 horas em Porto Alegre

Movido a chimarrão, um divertido passeio regado a parques, museus e um belo pôr do sol

por Fernando Leite

" Ó céus de Porto Alegre, como farei para levá-los para o céu?”. Em toda a sua obra, o poeta Mario Quintana sempre demonstrou um grande carinho por Porto Alegre, que nem era sua cidade natal. Exagero ou não no breve poema, a verdade é que quando chegamos de avião, chama a atenção o skyline composto pelos prédios, morros e o Rio Guaíba. Uma vez no solo, basta atravessar os 8 km da Avenida Farrapos para começar a curtir um roteiro de 48 horas em Porto Alegre: uma singular cidade de sotaque característico e proeminente vida cultural.

 

Dia 1

O Guaíba é um orgulho porto-alegrense. Chamado de rio, na verdade é um lago. Praticamente ladeia a cidade do sul ao norte. Muitos hotéis aproveitaram esse cenário e instalaram sua sala de café na cobertura para aproveitar a simpática vista.

Nada melhor do que ir a um parque para ter um primeiro contato com o jeitão singular do gaúcho. Atravessando as alamedas do tradicional Parque da Redenção (Farroupilha) ou contornando o pequeno e belo Parcão, é certeza de cruzar com várias pessoas munidas de cuia e garrafa térmica sorvendo um quentíssimo chimarrão. Povo receptivo, aproveite para emendar um bom papo e aprender o trilegal vocabulário porto-alegrense, cheio de gírias e interjeições.

Como a ideia do programa vespertino é um walking tour pelas ruas centrais e sabendo que são vários locais a ser visitados, o jeito é almoçar cedo. De preferência no Centro, para não perder tempo. Misto de cantina italiana e galeria de arte, o Atelier de Massas é todo decorado por quadros – muitos artistas gaúchos. No cardápio, fazem sucesso as massas preparadas diariamente na casa. Mas vá preparado para momentos de aperto, a casa é bem pequenina e repleta de mesas.

Deixe para tomar o cafezinho no Café do Mercado, instalado em um dos boxes do Mercado Público, o ponto de partida para o período da tarde. Dentro da construção de 1869, o que não faltam são barracas vendendo erva-mate para o preparo do chimarrão, uma profusão de marcas e cores. No pavimento superior, vale conferir a loja de artesanato típico do Sebrae.

Santander Cultural, Porto Alegre, Rio Grande do Sul

<p> Zé Carlos Barretta / Creative Commons</p>

A antiga sede do Banco Nacional do Comércio tem exposições de arte, o Acervo da Moeda (com cédulas antigas) com mostras de cinema a R$ 6 o ano todo. A sala de projeção fica em um dos antigos cofres – no outro, funciona o Café do Cofre - Foto: Zé Carlos Barretta/Creative Commons

Saia do Mercado e siga pela Rua Sete de Setembro. Três atrações aparecerão na sequência, na Praça da Alfândega. Ocupando a antiga sede do Banco Nacional de Comércio, o Santander Cultural exibe exposições temporárias, um museu com cédulas antigas e um café instalado no antigo cofre do banco. A história gaúcha é esmiuçada em uma interativa Linha do Tempo, a cereja do bolo do Museu Memorial do Rio Grande do Sul. No mesmo espaço, a Coluna Personagens destaca os grandes nomes do estado, como Bento Gonçalves, Getúlio Vargas e Elis Regina. Próxima parada: Museu de Arte do Rio Grande do Sul. Detentor de um consistente acervo de quase 3000 obras, o museu traça uma boa panorâmica da arte produzida nos quatro cantos do planeta durante o século 20.

Seguindo agora pela Rua dos Andradas, em poucos minutos chega-se à Casa de Cultura Mario Quintana. Instalada no antigo Hotel Majestic, que serviu de moradia para o maior poeta gaúcho por 12 anos, a casa expõe obras do escritor e a reprodução fiel do quarto em que Quintana viveu, além de uma mostra sobre Elis Regina. Quem não está hospedado num hotel com vista para o Guaíba, pode curtir a vista no café localizado na cobertura do edifício.

A tarde vai caindo, mas ainda dá tempo de caminhar até o fim da Rua dos Andradas. O gramado da Usina do Gasômetro cria o cenário perfeito para um belo pôr do sol à beira do Rio Guaíba. Melhor ainda se estiver degustando um chimarrão.

Comer bem em Porto Alegre é praticamente um pleonasmo. Especialmente se a direção for o bairro Moinhos de Vento. Na “periferia” do bairro, o restaurante Koh Pee Pee há anos é considerado o melhor tailandês do Brasil pelo GUIA QUATRO RODAS. É preciso reservar ou chegar bem cedo para provar receitas cotidianas tailandesas, como frutos do mar com curry amarelo e o arroz frito com camarões, shitake e alho poró.

Moinhos de Vento tem seu epicentro no quadrilátero formado pelas ruas Padre Chagas, Dinarte Ribeiro, Barão de Santo Ângelo e Fernando Gomes. Bares, restaurantes e lojas transadas servem como um ímã para um público jovem em busca de agito. Os efervescentes Z Café (Rua Pe. Chagas, 314, Moinhos de Vento, 51/3029-6088) e Mulligan Irish Pub (Rua Pe. Chagas, 25, Moinhos de Vento, 51/3029-3725) são ótimas opções para fechar o exaustivo dia.

 

Dia 2

Programe-se para despertar relativamente cedo. Só assim o programa proposto será realizado sem nenhum arrependimento. Você deverá estar às 9h (sábados e domingos abre às 10h) na portaria do campus da PUC – a 8 km do Centro – para se divertir um bocado no Museu de Ciência e Tecnologia. Reserve pelo menos três horas para descobrir que todas aquelas aulas chatérrimas de química, física e afins dos tempos escolares poderiam ser bem mais animadas. Vale reforçar: ao menos três horas de visita, ok? Abusando da interatividade, vários experimentos são mostrados nos três pavimentos do museu. Entre um “brinquedo” e outro, ocorrem shows interativos como o planetário e um gerador que deixa os cabelos em pé. Resumindo: uma estupenda atração que agrada a adultos e crianças.

É certo que a fome bateu forte após uma manhã de atividades indoor. Você merece um banquete, correto? Não muito distante do museu, a mesa do restaurante Polska é farta. Como o próprio nome diz, aqui é o endereço para provar típica culinária polonesa, tão rara no território tupiniquim. A grande pedida é provar a Mesa Polonesa, composta de cinco sopas e 14 pratos quentes. Ao final, você poderá contar aos amigos que colocou um pierogi (pastel de ricota) e um knedel (bolo de batata cozido) na lista do que já experimentou na vida.

Uma grande paixão brasileira vai tomar parte da tarde: o futebol. Como bons rivais na acepção mais plena da palavra, Grêmio e Internacional possuem ótimos memorias a contar a história dos clubes. No Olímpico Monumental, sede gremista, troféus e uniformes se misturam com a locução dos principais gols da história do clube. O tour termina no acesso ao gramado e à arquibancada (exceto em horário de jogos). A visita ao arquirrival Internacional é mais interativa com direito a uma arquibancada virtual. Devido às obras no Estádio Beira-Rio para a Copa do Mundo de 2014, o acesso ao gramado está suspenso.

Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre

<p> lu_gerghi / Creative Commons</p>

À beira do Guaíba, a Fundação Iberê Camargo tem quatro andares interligados por rampas, que circundam o saguão. Os três primeiros pisos são ocupados com mostras temporárias de arte contemporânea, e o quarto andar é dedicado às pinturas do gaúcho Iberê (1914-1994) - Foto: lu_gerghi / Creative Commons

Se o pôr do sol do primeiro dia foi às margens do Guaíba, o de hoje não será diferente. Só muda o cenário, desta vez em frente ao belo prédio da Fundação Iberê Camargo. Como o museu fecha às 19h, dependendo do horário de chegada é viável curtir o sol morrer no rio antes de admirar as obras de um dos principais artistas plásticos gaúcho. As gravuras de Iberê sempre dividem o espaço com uma exposição temporária de outro artista. Isso sem falar da construção em si, toda branquinha com rampas externas. Idealizada pelo arquiteto português Álvaro Siza , foi premiada na Bienal de Arquitetura de Veneza.

Sair de Porto Alegre sem provar um churrasco pode parecer uma heresia, afinal essa é uma das primeiras imagens associadas ao Rio Grande do Sul. Se você quer badalação, rume para a Barranco. Se preferir uma churrascaria bem simples, num bairro residencial, com atendimento familiar, seu destino é a Portoalegrense.

Ainda sobrou disposição para curtir a sempre efervescente noite da capital gaúcha? Siga para a Cidade Baixa, o reduto dos boêmios. Na esquina das ruas João Alfredo e da República, o Bar Ossip (Rua da República, 677, Cidade Baixa, 51/3224-2422) se consagra como o boêmio dentre os boêmios. Basta chegar, pedir uma cerveja e ficar na calçada observando o movimento.

 

Se você tem mais dias em Porto Alegre:

- Adicione o Palácio Piratini e o Theatro São Pedro no seu passeio pelo Centro

- Faça um passeio de barco que sai do Rio Guaíba e vai até o delta do Rio Jacuí

- Visite o Pampas Safári, um programão família, na cidade de Gravataí, a 40 km de Porto Alegre