48 Horas em São Luís e Alcântara
Um roteiro de dois dias no norte do Maranhão, com muita cultura e patrimônio histórico
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São Luís é um excelente local para aprender o significado de termos como meia-morada, morada, solar e sobrado ou de expressões como 'fazer nas coxas' e 'sem eira, nem beira'
Como num romance de Josué Montello, passaremos um dia entre tambores e outro sob uma noite: São Luís e Alcântara, no Maranhão. Uma é patrimônio da humanidade, a outra uma cidade histórica para todos os brasileiros. Experimentaremos peixes assados, doces de buriti, ouviremos o boi e contos dos casarões. Conheceremos belas igrejas e ouviremos poesias e narrativas de gente boa desta terra, como Aluísio de Azevedo e Gonçalves Dias. Sim, porque são nestas terras que estão as palmeiras, onde canta o sabiá.
São Luís é a única capital brasileira fundada pelos franceses e, curiosamente, pelo menos externamente, a mais portuguesa de todas. São dezenas de casas revestidas de azulejos - o isolante ideal para o calor equatorial e os torrenciais meses de chuva, entre janeiro e junho. Mas esse balaio de influências cruzadas não para por aí. Aqui também imperam um certo ar amazônico e o reggae é ouvido em cada barzinho. Sem dúvidas, o Maranhão é o menos ‘nordestino’ dos estados de nosso Nordeste. É uma experiência única.
Já a antes próspera e cosmopolita Alcântara hoje é mais conhecida por sua base aeroespacial do que por seu melancólico, porém aindabelo, casario. Aliás, dos dois lados da baía de São Marcos o precioso patrimônio arquitetônico rui a olhos vistos, vítimas de políticas inábeis. Mesmo assim, vale a pena aprontar as malas e partir para o Maranhão, explorar um pouco de nossa história nestas 48 horas em São Luís para depois se encantar com as indescritíveis belezas dos Lençóis Maranhenses.
Dia 1
Se você chegou a São Luís na noite anterior, talvez estranhe que o mar que avistou ao chegar não esteja mais lá pela manhã. No lugar dele, um baita areião. A região possui uma das maiores diferenças de maré do planeta, girando entre seis e oito metros. Como o leito do mar em parte da baía de São Marcos é razoavelmente plano, o resultado é um recuo da linha d’água que chega a dezenas de metros.
Deixando essa curiosidade de lado, vamos começar a explorar o centro histórico, que valeu à cidade o título de Patrimônio da Humanidade pela Unesco. São quatro mil imóveis de típico desenho colonial português, que vão dos amplos e arejados solares às simples meia-moradas - com suas fachadas de porta e duas janelas. Infelizmente boa parte delas está bem deteriorada ou mesmo abandonada, um visível exemplo de descaso do serviço público.
O ponto ideal para começar nosso roteiro é a Casa das Tulhas. Observar os artigos à venda nos boxes da feira é uma pequena introdução à cultura maranhense, com o camarão seco, a explosiva tiquira e licores diversos. Dali inicie uma caminhada meio sem destino pelas ruas de paralelepípedo, observando o casario das ruas do Giz e da Estrela.
Pelo caminho você se deparará com a igreja de Nossa Senhora do Desterro, do século 17, construída por ‘desterrados’ (imigrantes, fugitivos e exilados) que por aqui aportaram. Próximo dali está o Convento das Mercês e seu elegante pátio de traço ibérico, atualmente fechado, idêntica condição do centro cultural Casa do Maranhão, onde se poderia ver um pouco da história e das cores da festa do boi. Ambos não têm previsão de reabertura. Na falta dos dois, vale a pena conhecer a Casa da Festa, que conta um pouco da trajetória de manifestações como o Tambor de Mina e a Festa do Divino.
Faça uma pausa para o almoço experimentando os pescados da região, em um dos restaurantes no entorno da rua Portugal, ou no SENAC, com sua comida variada.
Subindo até o largo da avenida Dom Pedro II, repare na curiosa representação da Justiça na sede do judiciário estadual e visite o Palácio dos Leões, local de assento do governador. Um pouco mais adiante fica a clara e arejada Sé. De lá siga para o bem conservado Teatro Artur Azevedo, onde você poderá fazer uma visita guiada passando pelo palco, camarins e galerias. Na mesma rua, um pouco mais adiante, está o Museu Histórico e Artístico do Maranhão, com várias peças doadas pelos próprios cidadãos.
Um pouco cansado de caminhar? Então pegue o carro e vá até a Lagoa da Jansen curtir o fim de tarde. Escolha um bar para apreciar seu Guaraná Jesus, enquanto vê a movimentação noturna. Para terminar, que tal a carne de sol com baião de dois do Cabana do Sol? Os pratos são fartos e valeram ao restaurante uma estrela do Guia Quatro Rodas.
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Restaurantes como o Maracangalha (foto) oferecem o que há de mais típico do Maranhão: arroz de cuxá, pirões, pescados, frutas e doces. Entre esses dois últimos estão os nativos bacuri, buriti e murici. Isso sem falar nas obrigatórias bebidas tiquira e guaraná Jesus. Foto: divulgação
Dia 2
Siga para o terminal hidroviário para pegar a barca que faz a travessia Alcântara-São Luís. Dependendo da hora da maré, será um chacoalhar tremendo. Para não enjoar, mantenha o olhar fixo no horizonte, senão já sabe.
Outrora uma das mais aristocráticas cidades do norte brasileiro, pontilhada de solares e casarões, Alcântara entrou em profunda e irreversível decadência no século 19. As últimas modas europeias em vestuário e louças deram lugar à ruínas, a juventude que estudara em universidades do Velho Continente migrou para a mais próspera São Luís. As teorias para tal declínio são muitas, de canaviais obsoletos a canaviais esgotados, da abolição da escravatura à falta de um bom porto. O que restou, no entanto, é de uma melancólica beleza.
Enquanto o sol ainda não está muito forte (lembre-se que estamos praticamente no Equador) vale a pena caminhar pelas areias das praias da Baronesa e Itatinga ou da Ilha do Livramento. Para esta última você precisa combinar a travessia de cinco minutos com os barqueiros do porto do Jacaré. Passe a manhã nelas, relaxando um pouco.
Explore um pouco então os ateliês e lojinhas da ladeira do Jacaré e da rua das Mercês (ótimos doces! Não deixe de experimentar o de buriti) até chegar na Praça da Matriz, com as ruínas da matriz de São Matias, o pelourinho e a Casa de Câmara e Cadeia.
Na hora do almoço, desça pela rua de Baixo e ache a rua Direita. Lá você encontrará os bons pescados do Palácio dos Nobres.
Voltando para os lados do centrinho, você dará de cara com a simpática igreja de Nossa Senhora do Carmo e as ruínas de dois casarões. A história por trás destas residências é exemplar de como funcionava o Brasil na época do império. Com a expectativa da visita de Dom Pedro II à cidade, duas poderosas famílias locais iniciaram obras de amplos solares para ter o incerto privilégio de receber o monarca e sua comitiva. Os rivais barões de Pindaré e Mearim dispuseram uma fortuna e movimentaram toda Alcântara, mas, no final, o imperador nunca deu as caras por ali. As casas não foram concluídas e suas paredes e fundações são um símbolo da já aparente decadência social da cidade.
Faça uma curta caminhada entre as ruas Direita e da Amargura para apreciar mais um pouco do casario e termine visitando o Museu Histórico de Alcântara, um antigo casarão com objetos da época. Repare nas boas soluções para manter toda a casa ventilada e fresca.
Pegue o barco de volta a São Luís. Cansado e com a mente efervescendo de tanta história, arquitetura e arte sacra (e de como tantos tesouros estão mal conservados), você merece um generoso jantar de despedida. Tome o rumo da ventania da praia do Calhau e opte pelas fartas mesas dos restaurantes Maracangalha e Dona Maria. É, simplesmente, reconfortante para a alma.
Belas e encantadoras, São Luís e Alcântara são duas damas que merecem um pouco mais de carinho. Seria bom vê-las em seu auge novamente, antes que a noite caia, de vez, sobre ambas.
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