Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Edição 119/Fevereiro de 2010 24/08/2011

A força da Patagônia

Com seus picos escavados por geleiras, a Patagônia, no sul do Chile é um dos lugares mais agrestes do planeta

por Verlyn Klinkenborg

Maria Stenzel

Patagônia: vista do Parque Nacional Torres del Paine, no Chile

Maria Stenzel

O Parque Nacional Torres del Paine, no Chile, já recebe mais de 100 mil visitantes por ano

O fundo de um distante fiorde no sul do Chile foi o lugar escolhido por um norueguês chamado Samsing para, em 1925, criar ovelhas no que era um vale coberto de vegetação. Um ano depois, porém, ele foi literalmente expulso de casa - por uma geleira.

Ali onde ficava sua fazenda hoje existe um lago glacial com icebergs. A geleira, conhecida como Pío XI, estacionou durante um período, mas depois voltou a se deslocar. Agora está desenraizando toda uma floresta, empurrando-a lentamente para o lado. Árvores como os ciprestes-das-guaitecas parecem ter feito uma pausa antes de tombar. Suas raízes foram reviradas, as copas, decepadas, e os troncos, desalinhados. Blocos de gelo imensos foram empurrados sob o musgo e sob as droseras, as plantas carnívoras que prosperam em terrenos úmidos.

A área florestada que está sendo deslocada pela Pío XI é denominada floresta subpolar magalhânica - não se trata da floresta pluvial escura e de dossel abundante encontrada nas regiões tropicais, mas do mesmo tipo de mata opaca, retorcida pelo vento, que se vê nas mais altas linhas de árvores nas montanhas. E isso não é surpresa. Os fiordes e as ilhas da Patagônia chilena recebem de chofre os ventos que zunem do oeste, vindos dos mares meridionais. Aqui, no centro das latitudes 40 e 50, os ventos podem soprar com ferocidade constante. E a chuva e a neve costumam cair o ano todo.

Nenhum lugar no planeta está imóvel. É o tempo que cria a ilusão de estabilidade. Às vezes, porém, é possível topar com um lugar no qual o tempo parece comprimido, onde dá para sentir nos ossos a dinâmica da geologia.

Um desses lugares é o litoral do Chile, rendilhado por geleiras. Ali a força da Terra parece quase palpável. As placas tectônicas estão se estendendo e mergulhando sob essa borda do continente, soerguendo os Andes e criando uma zona de forte instabilidade geológica. Desde os campos de gelo do interior, geleiras como a Pío XI descem rapidamente até o mar. Ao largo da costa, a ressurgência da corrente do Peru é um manancial de vida. A linha do litoral estende-se ao longo de cerca de 90 mil quilômetros. Essa é uma Patagônia muito diversa daquela que em geral se imagina - a da imensidão dos pampas. A Patagônia chilena é feita de mar e gelo.

No meio da região agreste fica o Parque Nacional Bernardo O'Higgins. Com 350 quilômetros de uma ponta a outra, a reserva abrange o campo de gelo Sul, que, junto do campo de gelo Norte, forma uma das maiores áreas de gelo glacial fora das zonas polares.

Não há como chegar por terra ao parque Bernardo O'Higgins, tampouco existem voos para lá. O único acesso é pelo mar, numa rota intrincada, através de um dédalo de fiordes com águas profundas que leva ao extremo da geleira Pío XI. Ali, o ar é sacudido por estrondos glaciais, ruídos explosivos vindos do interior do campo de gelo, assim como por detonações mais surdas e profundas, provocadas pelo desprendimento do gelo da Pío XI. De perto, a geleira é tão escura quanto um corvo-marinho, depois a cor vai se atenuando e adquire o tom cinzento de um petrel. Mais longe e mais alto, o gelo fica branco e exibe uma centena de tonalidades azuladas.

Nesse terreno extremo, a história fundamental de nosso tempo está sendo recontada outra vez. Por mais isolada que seja a Patagônia chilena, ela também está à beira de uma transformação. Em terra, as raras moradias rurais passam a impressão de que saíram do século 19. Mas já existem projetos para a construção de barragens nos torrenciais rios ao norte do Bernardo O'Higgins. E, junto à orla marítima, há o constante avanço para o sul das fazendas de criação de salmão, uma fonte de oportunidades econômicas, mas também uma ameaça ambiental.