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ESPECIAL PLANTADORES DE FLORESTAS 06/12/2011

Cap. VI - A guardiã do verde nas pequenas propriedades catarinenses

Faltavam mudas? Miriam Prochnow criou um viveiro. Escassearam os recursos? Ela recorreu a estudantes. Ainda precisavam de motivos? Ela inventou os bosques comemorativos

por Liana John (reportagem)

Desde o início, uma das cachoeiras do rio Dona Luiza assistiu ao namoro de dois catarinenses, descendentes de alemães: Wigold Schäffer e Miriam Prochnow. Cercada por um pedacinho precioso de floresta nativa, a cachoeira atualmente é o coração da Reserva Particular do Patrimônio Natural Serra do Pitoco, de propriedade do casal. Está protegida e é parte do jardim de florestas do município de Atalanta, no Alto Vale do Itajaí, Santa Catarina.

Outra cachoeira do mesmo rio – chamada Perau do Gropp – agora fica dentro do Parque Natural Municipal Mata Atlântica, de 54 hectares, cujos limites também foram estabelecidos pelos dois ambientalistas. Eles ainda se encarregaram do plano de manejo do parque e estão sempre por perto para cuidar de sua preservação.

A mata do parque pertencia a uma serraria e uma fecularia (indústria de farinha de amido), cujas instalações foram reformadas, dando origem a um museu, um auditório e uma estrutura para eventos, na entrada da unidade de conservação. Aos poucos, o parque se transforma num centro de referência em educação ambiental, recuperação de áreas degradadas e enriquecimento de florestas secundárias. Durante a semana, as trilhas em meio à mata servem para estudos do meio e, nos finais de semana, são opções de lazer e turismo.

Além disso, as laterais das cachoeiras abrigam plantas naturalmente raras, como a efêmera rainha-do-abismo, cientificamente conhecida como Sinningia tomentosa. As plantas desse gênero se fixam em paredões rochosos verticais, permanecendo dormentes por meses, só com as raízes e uma “batatinha”. Quando chega a primavera, elas emitem folhas e flores, transformando as rochas em vertiginosos canteiros.

As intervenções de Wigold e Miriam na paisagem de Santa Catarina começaram quando ambos eram crianças, ele em Atalanta, ela em Agrolândia. E tomaram a forma de uma organização não governamental há 25 anos, em conseqüência da dificuldade em convencer os pequenos produtores rurais a reflorestar com árvores nativas. “Começamos pesquisando porque eles desmatavam tanto e não replantavam. As desculpas eram as mais esfarrapadas. Mas, de fato, não havia viveiros com mudas de nativas, só de exóticas como pinus e eucalipto”, conta Miriam. “Então começamos o Jardim das Florestas, com 18 mudinhas no fundo do nosso quintal. E essa iniciativa deu origem à Apremavi (Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida)”.

Fundada em 1987, a Apremavi teve Miriam como presidente e coordenadora de projetos por várias gestões. Ela passou ao Conselho Consultivo em 2003, quando assumiu uma série de compromissos em Brasília, incluindo a coordenação geral da Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), por 4 anos. Mesmo com menos tempo em campo, a atenção ao reflorestamento no interior catarinense nunca foi para segundo plano. O viveiro não parou de crescer e, hoje, o Jardim das Florestas tem capacidade para produzir 1 milhão de mudas por ano, destinando entre 700 a 800 mil mudas anuais a projetos de reflorestamento de Áreas de Preservação Permanente (APPs) em terras privadas ou públicas; ao plantio de florestas para sequestro de carbono (programa Clima Legal) e à conciliação da recuperação de florestas com alternativas sustentáveis de renda rural (projeto Matas Legais e programa Planejando Propriedades e Paisagens), entre outros.

Numa ampla estufa, voluntários e técnicos da ONG semeiam árvores de pelo menos 120 espécies, todas originárias do Planalto Catarinense ou do Paraná. Quando acontece de sobrarem mudas, elas são vendidas a prefeituras e empresas, para plantio em eventos comemorativos, como o Dia da Árvore.

O atual presidente da Apremavi é Edegolg Schäffer, irmão de Wigold. Segundo ele, o grande diferencial da Apremavi é o trabalho com mudas aclimatadas, de sementes coletadas localmente, complementado com assistência técnica e capacitação dos produtores rurais. Todos os projetos têm uma etapa de sensibilização e orientação técnica para o sitiante aprender a lidar com as nativas desde o plantio até a efetiva formação das árvores. Um dos resultados mais visíveis é a alta taxa de sobrevivência das matas plantadas e o vigor das árvores em formação.

“A Mata Atlântica é biodiversa, tem muita coisa para fazer e para descobrir. Você entra na mata e descobre frutas como o baguaçu, essa é a nossa verdadeira riqueza”, prossegue Miriam. “Eu tenho uma pequena teoria: plantar árvores é um vício. Eu consigo ver este mesmo sentimento nas pessoas que já plantaram árvores conosco e sei que elas vão continuar plantando. É um fascínio, é muito bonito plantar e ver crescer. Você quer, inclusive, visitar periodicamente e ver como sua árvore está. É uma atividade que cativa quem já fez”.

Completamente “viciada” em plantar florestas, Miriam gosta de estender a atividade ambientalista às datas familiares, nos chamados “bosques comemorativos”. “Plantamos um bosque quando nasceu nossa primeira filha, Carolina, e outro quando Gabriela, nossa segunda filha, fez um ano”, revela. Carolina agora tem 21 anos e Gabriela, 19, mas ambas parecem pequenas diante das árvores plantadas em sua homenagem.

Outro bosque comemorativo ainda cresce ali por perto, esse bem mais jovem. Foi um presente dos amigos e parentes convidados para as bodas de prata do casal. Em lugar dos tradicionais excessos de comes e bebes, a opção foi festejar de enxada na mão, num claro sinal de que ali estavam reunidas pessoas dedicadas a investir num futuro mais verde.

Um pouco mais adiante, no mesmo morro, encontramos uma área com árvores maiores e uma placa escrita em português e alemão, identificando um dos vários Bosques Heidelberg em Atalanta. Conforme explica a ambientalista, em 1999 ela viajou para a Alemanha a convite da ONG Bund – Freunde der Erde (Amigos da Terra) da cidade de Heidelberg. Lá, fez palestras em escolas municipais sobre o trabalho da Apremavi. As crianças e os adolescentes quiseram colaborar com dinheiro do próprio bolso e assim surgiu um novo canal de financiamento ao plantio de florestas, num pedacinho de Brasil onde ainda predominam os cabelos loiros e os olhos claros dos descendentes de imigrantes alemães.

O dinheiro dos estudantes não é nenhuma fortuna e por isso mesmo prova que recompor matas nativas não é tão caro assim. Quando se une trabalho sério e gente dedicada, os recursos funcionam como sementes e as ações se multiplicam.

Além das doações da garotada de Heidelberg, a ONG de Miriam conta com recursos de um proprietário de terras – Ângelo Sarda – que também mora na Alemanha, em Darmstaed. Ele foi para lá há uns 16 anos para estudar Engenharia Mecânica e acabou ficando. Casou-se com uma alemã e não pretende voltar tão cedo. Mas quer contribuir para recompor as paisagens de infância: já comprou vários pedaços de terra ali na região e cuida de reflorestar com nativas, em parceria com a Apremavi e sob a supervisão de sua mãe, Marily Hoffmann Sarda, que vive no Rio Grande do Sul.

Miriam também esteve na linha de frente de algumas batalhas para salvar espécies de plantas criticamente ameaçadas, algo raro mesmo entre ambientalistas, cujas bandeiras de luta costumam ser escolhidas entre os animais em risco. Graças a ela e seus companheiros, ainda existe uma bromélia chamada Dyckia distachya. As últimas áreas naturais de distribuição dessa planta ficaram sob as águas da usina hidrelétrica de Barra Grande, no rio Pelotas, entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Mas a bromélia ainda é cultivada na Apremavi. Na sede da ONG, inclusive, existe um canteiro com algumas Dyckia desta espécie. Quem passa por ali distraído nem percebe, mas aquelas são plantas sobreviventes, com uma valiosa história de resgate e uma chance de fazer frente à extinção por meio da reintrodução na natureza.

Pedagoga de formação, Miriam ainda produziu uma série de livros e cartilhas, através dos quais leva informações importantes, tanto para os agricultores interessados em tornar suas propriedades sustentáveis como para autoridades do primeiro escalão de governo. Em todos os textos é possível identificar os efeitos do tal “vício” em plantar florestas e promover a restauração dos ecossistemas e biomas brasileiros. Em especial quando o foco é a Mata Atlântica ou a Mata Mista de Araucária, as duas fisionomias vegetais do coração.

Em Brasília, essa ambientalista de 47 anos atualmente participa da coordenação dos Diálogos Florestais, uma iniciativa inédita e independente de interação entre representantes de empresas florestais, organizações ambientalistas e movimentos sociais, com o objetivo de promover ações associadas à produção florestal e ampliar os esforços de conservação e restauração ambiental.

A julgar pela trajetória de Miriam Prochnow como plantadora, os tais Diálogos correm o risco de ampliar os jardins florestais do Planalto Catarinense pelo Brasil afora! Com direito a cercar e proteger muitas cachoeiras como aquelas duas do rio Dona Luiza.