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A nossa vizinhança

A exploração do sistema solar

Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL   |   Por: Michael Lemonick
« Especial espaço

Eu tinha quase 16anos quando Neil Armstrong pisou na Lua, em 1969, e, assim como a maior parte dos americanos que estavam vivos na época, nunca vou me esquecer daquele momento. Mas eu também me lembro de outro marco da exploração espacial com a mesma clareza. No dia 31 de julho de 1964, uma sonda espacial não tripulada chamada Ranger 7 bateu com tudo na Lua,a 9,3 mil quilômetros por hora. O impacto destruiu o equipamento, claro, mas a missão foi um sucesso: ao mergulhar para a morte, a Ranger fez uma série de fotos da superfície lunar. E, apesar de a última delas, tirada de uns 520 metros de altitude, só ter sido parcialmente transmitida antes do choque final, mostrou crateras de menos de 1 metro de diâmetro.

Até aquele momento, a única maneira de fotografar a Lua era da Terra, através de um telescópio – e o equipamento mais potente da época não era capaz de enxergar detalhes da superfície que tivessem menos de 1,6 quilômetro de diâmetro.

Ao longo das mais de quatro décadas que se passaram desde então, a Nasa e outras agências espaciais nos permitiram conhecer bem de perto, quase como se estivéssemos lá, todos os oito planetas (e se você se recusa a aceitar o recente rebaixamento de plutão a “planeta anão”, a missão New Horizons vai chegar lá em 2015). Exploradores robotizados aventuram se a locais onde os seres humanos não podem chegar, enviando até nós fotos com detalhes extraordinários e medidas de dúzias de luas e até mesmo de alguns asteroides. Chegaram até a pousar em Vênus, em Titã (a lua gigante de Saturno) e, o mais importante, em Marte – a primeira vez em 1976, com a sonda americana Viking 1, e a mais recente no último mês de maio, quando a sonda Phoenix chegou para escavar a superfície do planeta.

Tudo isso rendeu uma grande quantidade de informações a respeito da natureza e da origem do nosso sistema solar. Nas décadas de 1960 e 1970, por exemplo, o pouso malsucedido da Ranger 7 se seguiu por uma série de pousos lunares suaves e missões de mapeamento orbital, iniciando-se pela Luna 9, em 1966, empreendida pela União Soviética.

Mesmo depois que os Estados Unidos venceram essa corrida, os soviéticos continuaram a enviar missões não tripuladas que coletaram amostras da superfície e as trouxeram para a Terra. Na década de 1990, as sondas americanas Clementine e Lunar Prospector encontraram indícios de que a Lua tem depósitos de gelo no fundo de crateras sempre coberto de sombras nos pólos – recurso fundamental para o estabelecimento de uma base lunar no futuro.

Assim que Galileu apontou seu telescópio para o céu em 1609, a topografia geral do nosso vizinho celeste mais próximo, com suas crateras, montanhas e planícies, ficou evidente. Mas os telescópios na Terra não nos diziam muita coisa a respeito dos planetas mais distantes. Só quando a sonda Mariner 2 sobrevoou Vênus, em 1962, os cientistas começaram a compreender que a atmosfera do planeta é composta principalmente de dióxido de carbono, que a rotação de Vênus ocorre na direção contrária à da Terra e que a temperatura de sua superfície, graças à capacidade de aprisionamento do calor do CO2, chega a extravagantes 480°C. Sondas posteriores, incluindo a Magellan, que chegou a Vênus em 1990, mostraram que, por baixo daquele manto permanente de nuvens, o planeta, que é praticamente gêmeo da Terra em tamanho, é quase todo coberto de lava e provavelmente ainda tem atividade geológica. A Mariner 10 foi a primeira sonda espacial a visitar Mercúrio, em 1974 e 1975, e revelou que a superfície daquele planeta minúsculo se parece muito com a da Lua, ao passo que seu núcleo denso e supostamente rico em ferro se parece mais com o da Terra.

Nas décadas de 1960 e 70, a Nasa também enviou missões na direção contrária, para a parte externa do sistema solar. Marte, o primeiro alvo, havia muito representava curiosidade especial para a humanidade. A atmosfera local era tão rarefeita que qualquer água em estado líquido evaporaria ou congelaria – e não é possível a existência de vida sem água. As primeiras sondas a chegar a Marte, começando pela Mariner 4 da Nasa, em 1965, mostraram um terreno parecido com o da Lua. Mas, seis anos depois, ela revelou características que ninguém tinha previsto, inclusive vulcões gigantes extintos, cânions e, o mais intrigante, algo que se parecia muito com canais secos. Em algum momento do passado, Marte tinha tido condições mais favoráveis para o surgimento da vida. E se tivesse tido mesmo, pelo menos era concebível que houvesse vestígios microbianos, não ao ar livre, mas sob o solo.

É por isso que as missões gêmeas Viking, em 1976, foram até lá para fazer experiências em busca dessa vida. Cada uma das sondas tinha um módulo de órbita e um de solo; o segundo tirou as primeiras fotos arrebatadoras da superfície de Marte. Enquanto o módulo orbital girava lá em cima, mapeando o planeta, o módulo de solo colhia um pouco do solo e fazia quatro testes que poderiam revelar a existência de micróbios ou de outros tipos de material orgânico. Três deles acabaram dando negativo; o último foi positivo, mas pode ser explicado como uma rara reação química e nada mais.