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Edição 1/Maio de 2000 02/12/2011

Rasante sobre a África

A bordo do Silver Queen, réplica de um biplano da Primeira Guerra, três aventureiros refazem o primeiro voo entre Cairo e a Cidade do Cabo

por Peter McBride Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Peter McBride

Voo entre o Cairo e a Cidade do Cabo, na África

Peter McBride

A bordo do Silver Queen, réplica de um biplano da Primeira Guerra Mundial, três aventureiros refazem ao primeiro voo entre o Cairo e a Cidade do Cabo, na África

O Silver Quenn sacolejava, batido pelos ventos, subindo e descendo entre as nuvens baixas. O radar do campo de Manston, na Inglaterra, nos avisou: “Mike Yankee (nosso nome em código), vocês estão deixando nossa área”. Então veio de novo a voz: “Mike Yankee, seu avião é um Vickers Vimy. Correto?” “Positivo. A caminho da Cidade do Cabo.” “Maravilha!” O rádio espocava com uma emoção incomum na voz dos controladores de tráfego. “Boa viagem, vão com Deus!” Sobrevoando o Egito três semanas depois, essa alegre despedida ainda ressoa nos meus ouvidos, mas uma “boa viagem” parece bem improvável. A uma velocidade de cruzeiro de apenas 120 km por hora, levamos mais de 40 horas para chegar até a África. O vento geme nos 112 fios metálicos que prendem as asas, e os dois motores de 350 HP, fabricados sob encomenda pela BMW, fazem um barulho ensurdecedor. Atrás do meu assento, no nariz do avião, onde ficava o atirador, estão espremidos o piloto Mark Rebholz e o co-piloto John LaNoue. Mark tem 20 mil horas de vôo como comandante de jatos comerciais e é apaixonado por aeronaves antigas. John, cenógrafo de cinema, foi quem construiu esta réplica exata de um Vickers Vimy da Primeira Guerra. Com envergadura de 21 metros, é o maior biplano do mundo em condições de vôo. Projetado para lançar bombas nos campos europeus, o bimotor Vimy não ficou pronto a tempo de servir na guerra, mas logo mostrou seu valor em vôos de longa distância. Em 1919, dois britânicos fizeram a primeira travessia do Atlântico sem escalas num Vimy, e com um Vimy, no mesmo ano, dois australianos ganharam 10 mil libras pelo primeiro vôo da Inglaterra à Austrália.

Visando unir seu vasto império com rotas aéreas, o governo britânico abriu pistas de pouso com esconderijos para combustível a cada 160 quilômetros, ao longo da África Oriental. O jornal londrino Daily Mail ofereceu então 10 mil libras para os primeiros aviadores que alcançassem a Cidade do Cabo, na África do Sul, partindo da Inglaterra. Em 1920 cinco equipes aceitaram o desafio, incluindo dois sul-africanos – Pierre van Ryneveld e Quintin Brand – pilotando um Vimy chamado Silver Queen. Todas as equipes se acidentaram. Os sul-africanos arruinaram dois Vimys, abandonando o Silver Queen II na Rodésia, atual Zimbábue. Prosseguiram num terceiro avião e chegaram à Cidade do Cabo 45 dias depois de partir da Inglaterra. Ambos foram agraciados com o título de sir, mas só ganharam 5 mil libras, por não terem completado a viagem na aeronave original.

Nosso Vimy teve a primeira oportunidade de provar sua resistência em 1994, quando seu proprietário, Peter McMillan, refez a viagem de 1919 da Inglaterra à Austrália. Agora, após três anos de economias e preparativos para refazer a rota dos dois sul-africanos, Mark, John e eu estamos por fim no ar, levando aparelhos eletrônicos e mapas detalhados que nossos predecessores não tinham. Mas teremos de atravessar onze países e duas zonas de guerra, enfrentando pistas primitivas, altas montanhas, combustível limitado e o inverno no hemisfério sul. Creio que vamos mesmo precisar daquele “vão com Deus”.

12 de Julho, Etiópia

O dia nem começou e a temperatura é de 32ºC. Sem conseguir despertar os controladores de tráfego e sem licença de vôo, Mark e John partem de Djibuti em 4 de julho, rumo à Etiópia, ao sul, com névoa e ventos contrários. Os combates entre Etiópia e Somália dominaram as horas antes do vôo, em que se conversou sobre aterrissagens forçadas e estradas cheias de soldados que disparam sem hesitar. Para que o avião possa levar mais combustível, sigo para o Quênia num vôo comercial, esperando que tenham êxito. Mas isso não acontece. O Vimy só alcança 2680 metros de altitude e cobre 325 quilômetros em quatro horas. Exaustos devido aos ventos contrários e à turbulência, Mark e John retornam. Depois de uma semana de faxes e noites insones, obtêm permissão de vôo para o dia 12 de julho. O Silver Queen aterrissa em Mandera, no Quênia, após oito horas de vôo. “Em toda a minha carreira, nunca um vôo exigiu tanto de mim”, resumiu Mark.

13 de Julho, Quênia

”Vocês estão entrando para a História”, disse um oficial do Exército, sorrindo e apontando para o único Vickers Vimy do mundo capaz de voar, agora estacionado numa base militar no norte do Quênia. A notícia da nossa chegada logo se espalhou por Mandera, um vilarejo de maioria muçulmana junto às fronteiras da Somália e da Etiópia. De noite, os pilotos locais nos ofereceram suas modestas acomodações.

Às 5 da manhã seguinte, algumas escolares com uniforme roxo nos aguardavam junto ao Silver Queen, bloco de notas na mão, ansiosas para saber algo a respeito da nossa “máquina do tempo” como a chamaram. “Já ouvimos falar dos irmãos Wright” diz uma delas, “mas o que é isso? E por que vocês estão aqui?” Mark improvisa uma aula sobre aviação.

Por toda parte, o Vimy exerce enorme fascínio. Desviando de cegonhas e buracos ao decolar em Mandera, voamos por oito horas e meia até Nairóbi. Mesmo com duas semanas de atraso, somos recebidos com aplausos.

A equipe educativa da expedição vem ter conosco em Nairóbi. Selecionados num concurso de redação, cinco alunos de 14 a 19 anos de idade, de cinco países, acompanharão o vôo por terra, desde o Quênia até a África do Sul, liderados pelos monitores Mick Follari e Matt Bresler. Miriam Alube, queniana de 19 anos, é a primeira aluna a voar no Silver Queen. Ao aterrissar ela chora de tanta emoção.

Junto ao lago Naivasha, no grande vale Rift, todo o grupo se reúne com amigos na casa de Iain e Oria Douglas-Hamilton, um casal que pesquisa elefantes, para desfrutar de uma noitada da tradicional hospitalidade africana. Mas o atraso em Djibuti nos deixou pouco tempo para relaxar. Na manhã seguinte, decolamos outra vez, com dezenas de braços a nos acenar.