Amazônia ilegal
A Amazônia, a maior floresta do mundo, está dividida entre megaprojetos do agronegócio e os esforços de conservação
Alex Webb
Alex Webb
Madereiro derruba uma árvore nobre na Amazônia
No rastro do Jaguar
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No coração da selva
Fantasma da noite
As forças do mercado globalizado estão invadindo a Amazônia, acelerando a destruição. Nas últimas três décadas, contam-se às centenas as pessoas que morreram em conflitos por terras um número incontável de outras vive sob o império do medo e da incerteza, com as vidas ameaçadas. Nessa fronteira agrícola sem lei e dominada por armas, motosserras e tratores, os funcionários e agentes do governo podem ser corruptos e ineficazes ou então mal equipados e desprovidos de recursos. Agora, produtores de soja estão se juntando aos madeireiros e aos criadores de gado, intensificando o desmatamento e fragmentando ainda mais a imensa floresta tropical do Brasil.
Ao longo dos últimos 40 anos, quase 20% da floresta amazônica foi derrubada mais que em todos os 450 anos anteriores de colonização do país. Os cientistas temem que outros 20% das árvores sejam eliminados nas próximas duas décadas. Será o início do colapso ecológico da floresta. Intacta, a Amazônia respondepor metade de toda a chuva que cai na região, graças à umidade que libera na atmosfera. Com o fim de parte dessas precipitações devido ao desmatamento, podemos chegar a um ponto em que as árvores remanescentes vão morrer por falta deumidade. Se tal processo for intensificado pelo aquecimento global, secas violentas irão abrir as portas a incêndios capazes de consumir ainda mais a floresta. Em 2005, uma dessas secas reduziu em até 15 metros o nível dos rios e deixou isoladas centenas de comunidades. Ao mesmo tempo, como as árvores estão sendo queimadas para abrir novas áreas de cultivo nos estados do Pará, Mato Grosso, Acre e Rondônia, o país tornouse um dos maiores emissores e todo o mundo de gases que contribuem para o efeito estufa. Os sinais da tragédia já são visíveis por toda a parte.
Tudo, sempre, começa com a abertura de uma estrada. Com exceção de um punhado de vias estaduais e federais entre as quais a Transamazônica, no sentido lesteoeste, e a polêmica BR163, a rodovia da soja que, com seus 1 770 quilômetros, atravessa a Amazônia desde o Mato Grosso té a cidade de Santarém, no Pará, quase todas as estradas da região são clandestinas. Há quase 170 mil quilômetros desses caminhos, em sua maioria abertos sem autorização por madeireiros m busca de mogno e outras madeiras nobres que alcançam altos preços no exterior.
No Brasil, as conseqüências da exploração da madeira quase sempre são mais danosas que a própria extração. Uma vez que as árvores são derrubadas e os madeireiros seguem adiante, as estradas proporcionam acesso a uma explosiva mistura de posseiros, especuladores, fazendeiros, lavradores e, invariavelmente, pistoleiros. Os açambarcadores de terras seguem até interior da floresta, antes impenetrável, e ali devastam imensas áreas a fim de lhes dar uma aparência de propriedade legítima. A apropriação ilegal de terras possibilitada por corrupção, táticas violentase escrituras forjadas – é uma prática tão comum que tem um nome específico: grilagem. Tal nome devese ao fato de no passado os grileiros colocarem os falsos títulos de propriedade em uma gaveta onde grilos famintos roíam o papel, fazendo com que parecesse antigo. Ao auditorar registros de fazendas na Amazônia relativos aos três últimos anos, o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) cancelou cerca de 62 mil títulos por causa de indícios de fraude.
Em Guarantã do Norte, cidade de 32 mil habitantes na extremidade norte do trecho asfaltado da BR163, no Mato Grosso, fica a sede regional do Ibama, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis. Contando com apenas alguns fiscais para monitorar um território que se estende por milhares de quilômetros quadrados, o responsável pelo escritório, Márcio da Costa, pouco pode fazer. Ele trabalha em uma sala improvisada atrás dos restos chamuscados da antiga sede, incendiada em 2004 por uma multidão furiosa com o fato de fiscais do Ibama e policiais terem desmantelado uma quadrilha de traficantes de madeira, fechando serrarias clandestinas e multando em milhões de dólares madeireiros na cidade vizinha de Alta Floresta. A investigação sobre o incêndio criminoso não conseguiu apontar sequer um suspeito.
Um barulhento aparelho de ar condicionado pouco alivia o ar denso e úmido quando visito Márcio da Costa e ele me mostra um certificado de exploração de madeira emitido em 2004, assim como uma cópia feita com papelcarbono. A cópia, assinada por um fiscal de exportações a 2 414 quilômetros dali, no Sul do país, relacionava milhares de metros cúbicos de madeira que simplesmente não constavam do documento original – toda ela comercializada de forma ilegal. “Ontem, apreendemos cinco caminhões carregados vindos da mesma área”, comenta.
Em 2005, depois que pistoleiros contratados por grileiros assassinaram a freira e militante ambientalista Dorothy Stang, nascida nos Estados Unidos mas naturalizada brasileira, o governo aumentou a repressão, cancelando autorizações de exploração de madeira em toda a Amazônia – a maioria das quais adulterada para justificar o contrabando. A Polícia Federal e o Ibama ampliaram suas investigações. Tropas foram enviadas ao Mato Grosso e ao Pará e confiscaram caminhões e caminhõs de madeira extraída ilegalmente. Dentre mais de 300 pessoas detidas, cerca de 100 eram funcionários do próprio Ibama envolvidos em um amplo esquema para a venda de milhões de metros cúbicos de madeira de lei a compradores dos Estados Unidos, Europa e Ásia.
A fim de reduzir as fraudes, as autoridades pretendem implantar um cadastramento eletrônico das licenças florestais. Por outro lado, os agentes do governo estão recorrendo a dados fornecidos por satélites e sistemas de sensoriamento remoto para manter sob controle as atividades dos grileiros. No entanto, mesmo quando surpreendem um desmatamento ilegal, em geral pouco podem fazer, dada a falta de pessoal e equipamentos. Se ocorre alguma ação policial, os recursos mobilizados costumam ser de proporções modestas.
