Divina Angkor
Centro de um império, a cidade sagrada de Angkor pode ter sucumbido à própria engenhosidade
Robert Clark
Robert Clark
Emblema da civilização khmer, Angkor Wat, no Camboja, ainda hoje é um concorrido santuário
Visto do ar, o templo erguido há tantos séculos aparece e desaparece como uma alucinação. No princípio não passa de uma mancha pardacenta em meio à copa das árvores nas florestas setentrionais do Camboja. A cidade perdida de Angkor, agora em ruínas, é povoada sobretudo por lavradores que cultivam arroz. Grupos de casas khmer, equilibradas sobre precárias palafitas para resistir às inundações durante a monção de verão, pontilham a paisagem desde Tonle Sap, o "grande lago" do Sudeste Asiático, 30 quilômetros ao sul, até os montes Kulen, uma serra que se ergue ao norte na planície inundável. Em seguida, enquanto Donald Cooney sobrevoa a floresta com o avião ultraleve, o magnífico templo torna-se visível.
Restaurado na década de 1940, o Banteay Samre, consagrado no século 12 ao deus hindu Vishnu, lembra o auge do Império Khmer. O templo está engastado no interior de duas muralhas quadradas e concêntricas. É provável que tenham sido circundadas por um fosso, simbolizando o oceano em torno do monte Meru, a mítica morada das divindades do hinduísmo. Banteay Samre é um dentre cerca de mil santuários erguidos pelos khmer na cidade de Angkor, em um frenesi de construções cujas escala e ambição podem ser comparadas às dos egípcios na época em que ergueram as pirâmides.
Angkor é o enigmático cenário do colapso de uma das maiores civilizações de toda a história. O reino khmer prosperou desde o século 5 até o 15, e em seu apogeu controlava imensa faixa de território no Sudeste Asiático, desde Mianmar (Birmânia), a oeste, até o Vietnã, a leste. Possivelmente, 750 mil pessoas viviam em sua capital, Angkor, um aglomerado que se espalhava por uma área de mil quilômetros quadrados, naquele que foi o maior complexo urbano do mundo pré-industrial. No entanto, no fim do século 16, quando missionários portugueses foram os primeiros europeus a contemplar as torres em formato de lótus do Angkor Wat - o mais requintado dentre os templos da cidade e o maior edifício religioso do planeta -, a antes resplandecente capital do império já estava agonizando.
Os estudiosos propuseram uma longa lista de prováveis causas desse declínio, entre as quais invasões predatórias, mudanças religiosas e avanço de uma economia baseada no comércio marítimo, que teria condenado à morte uma cidade distante do litoral. No entanto, são apenas hipóteses: embora cerca de 1,3 mil inscrições ainda possam ser lidas em batentes de portas e estelas isoladas, a população de Angkor não deixou nem uma única palavra que explicasse a decadência de um império tão poderoso.
Agora, escavações recentes - não na área dos templos, mas na infraestrutura que assegurava o funcionamento da vasta cidade - proporcionam indícios que sugerem outra explicação da derrocada. Tudo leva a crer que Angkor acabou sendo vítima da própria engenhosidade que transformou um grupo de pequenos principados em um império. Essa civilização, que aprendeu a domesticar as inundações sazonais do Sudeste Asiático, começou a decair à medida que foi perdendo o controle da água, o mais vital dos recursos
Um intrigante relato de uma testemunha ocular nos dá uma ideia de como era a cidade em seu auge. O diplomata chinês Zhou Daguan passou quase um ano na capital khmer, no fim do século 13. Hospedado na casa de uma família relativamente modesta, comia arroz com colheres de casca de coco e bebia vinho feito de mel ou ervas. Daguan descreveu um costume medonho, que seria abandonado pouco antes de ele deixar a cidade: a bile humana era retirada de doadores vivos e usada como tônico para insuflar coragem. Nas festas religiosas havia queima de fogos e combates de ursos. Os maiores espetáculos ocorriam quando o soberano passeava entre os súditos. E as procissões régias incluíam elefantes e cavalos com ornamentos de ouro, e centenas de damas da corte adornadas com flores.
O ritmo de vida em Angkor também pode ser vislumbrado em esculturas que sobreviveram a séculos de deterioração e, mais recentemente, a guerras e regimes brutais. Baixos-relevos na fachada dos templos exibem cenas da existência cotidiana - dois indivíduos debruçados sobre um tabuleiro de jogo, por exemplo, ou uma mulher dando à luz sob um pavilhão sombreado. Também há cenas de guerra. Em uma delas, guerreiros armados de lanças, provenientes do reino vizinho de Champa, aparecem em cerrada formação a bordo de um barco que navega pelo Tonle Sap. A cena só foi perpetuada porque a vitória na batalha coube aos guerreiros khmer.
Ainda que Angkor tenha superado essa ameaça, a cidade estava dilacerada por rivalidades internas, o que aumentava sua vulnerabilidade aos ataques de Champa, a leste, e do reino de Ayutthaya, a oeste. Um dos motivos era a poligamia dos soberanos khmer, o que contribuía para confundir a linha sucessória e provocava intrigas quando os príncipes lutavam pelo poder. "O Estado khmer tinha uma estabilidade precária", afirma o arqueólogo Roland Fletcher, da Universidade de Sydney, codiretor de um programa de pesquisa denominado Projeto Grande Angkor.
