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Edição 44/Dezembro de 2003 31/08/2011

A alma argentina

A dor e o lamento do tango surge como uma terapia perfeita para uma nação abalada com as perdas econômicas e os dramas pessoais

por Alma Guillermoprieto

Pablo Corral Vega

Casal dança tango

Pablo Corral Vega

Tango, a dança libidinosa e a música sombria de Buenos Aires, na Argentina, do século 19

Alicia Monti, cabelo preto curtinho, vestido cor-de-rosa justo, toda vigorosa e séria, atravessa o corredor do shopping center Abasto a passos largos, em cima de seus saltos agulha de couro brilhante, com 13 centímetros de altura. Os poucos freqüentadores das lojas que estão por ali vão abrindo caminho, cheios de respeito, para deixá-la passar. São 19h25 e ela percorre o piso de mármore, passando por lojas de sapatos e de ponta-de-estoque de utensílios de cozinha e pela praça de alimentação, em direção ao átrio central do shopping, onde a aula de tango de terça-feira que ela e seu parceiro ministram no local vai começar em exatos cinco minutos. Gravações de tangos venerados já se fazem ouvir pelos alto-falantes, com o som um tanto abafado, e, naquela noite fria, uns tantos homens e mulheres de todas as idades (alguns em pares, outros sozinhos) vão tirando os casacos e os cachecóis de lã e sorriem, ávidos.

O parceiro de Alicia, Carlos Copello, aparece alguns instantes mais tarde com o leve ar de cafajeste de praxe a iluminar seu caminho. O cabelo, ajeitado com pomada, brilha como couro lustroso; o terno tipo jaquetão é uma escultura ambulante; o caminhar, deslizante e alegre, já é por si só uma dança. Os alunos aproximam-se dele, cheios de expectativa. O visual da turma é bem diferente da aparência estonteante dos instrutores: a maior parte está de tênis ou mocassim. Alguns homens têm as mãos ásperas de quem faz trabalho braçal, e suas roupas parecem baratas.

Seguindo as instruções animadas e zombeteiras de Copello, os homens formam pares com as esposas, amigas ou com mulheres desconhecidas. Copello ajeita a mão direita em volta das costas de Alicia; com a esquerda, segura a mão direita dela e a ergue; os alunos fazem o mesmo. Copello segura Alicia com firmeza, mas a certa distância, como se houvesse entre eles uma terceira pessoa, e os outros tentam imitar o porte do casal. Copello diz aos alunos que endireitem as costas, não olhem para o chão e se atenham à contagem de oito tempos.

A música começa. Quem poderia adivinhar que, em um cenário daqueles, a magia logo tomaria conta do ambiente? O tango da grandiosidade de partir o coração, do amor impossível, da respiração sincronizada e das pernas entrelaçadas vai começar bem no meio de um shopping center, como tem acontecido todos os dias, há um século, em algum lugar de Buenos Aires. “Mi Buenos Aires querido”, diz a letra da música. Os casais lutam para conectar-se. Um parceiro não pode movimentar-se sem o outro, mas não é permitido trocar nenhuma palavra. Apenas a mão do homem mostra à mulher aonde ir, e as pernas dizem umas às outras que movimento fazer, com as coxas encostadas. Um, dois, três, quatro, cinco. “Buenos Aires, mi Buenos Aires.” Um moço muito jovem de tênis e uma mulher de mocassim sorriem, cheios de alegria. Acabaram de compreender a coordenação do passo básico, e agora rodam e rodam pelo salão de dança improvisado, no sentido anti-horário, em harmonia.

Há quase um século, o tango tomou conta de Buenos Aires. Hoje, continua a ocupar o lugar central na vida emocional dos portenhos, porque o lirismo amargurado, sublime e ardente da música faz parte da definição essencial do que significa fazer parte dessa cidade tão castigada e resplandecente. De fato, parece que o interesse pelo tango se renovou durante o período negro de 2002: depois de curto intervalo de prosperidade no início da década de 1990, que encheu Buenos Aires de glamour, a crise econômica mais severa da história da Argentina deixou mais da metade da população do país abaixo da linha de pobreza. Mesmo assim, enquanto se esforçavam para pagar as contas de serviços básicos e não ser despejados, muitos encontraram novo significado em um tipo de música (e dança) que não era fácil nem frívolo. Combinava perfeitamente com a situação.

Um shopping center parece um lugar estranho para aprender dança de salão. Mas, para falar a verdade, esse shopping modernoso está cheio de fantasmas do tango. Foi construído há apenas alguns anos, dentro do esqueleto do antigo mercado central da cidade, o Abasto, em um bairro operário. Por volta do final do século 19, uma onda de imigrantes europeus, em sua maior parte italianos, estabeleceu-se na Argentina, e muitos deles acharam ou inventaram uma ocupação para si nesse mercado e em seus arredores. Com sua cantoria melódica (pode-se dizer que tinha um quê de ópera), enriqueceram o que era inicialmente uma música bastante despretensiosa e uma dança estabanada: o tango.

Buenos Aires consolidou sua identidade como cidade de imigrantes e, na década de 1920, o tango já era um estilo bem aceito. As danças de roda das comunidades africanas de escravos libertos deram a base rítmica vigorosa, e um instrumento de fole alemão – o bandônion – contribuiu com os lamentos tristonhos típicos do tango.

A música também foi influenciada pelo estilo francês que tomou o mundo na virada do século 19 para o 20, em grande parte graças a um certo Charles Gardes. Ele nasceu em 1890 na França e foi levado pela mãe para Buenos Aires três anos depois. Ficou conhecido mundialmente como Carlos Gardel, a mais completa tradução do amor argentino pela canção. Cantor e compositor brilhante, Gardel fez com que o tango passasse de sua forma picante de bordel para um lamento sofrido. Ele cantava a respeito de tudo aquilo que seus companheiros imigrantes pudessem ter perdido: a terra natal, os pais, a rua em que nasceram. Com sua voz límpida de barítono, cantava os arredores semi-rurais de Buenos Aires e zombava – constantemente – do esforço dos portenhos, que se vestiam bem para tornar-se respeitáveis.

 

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