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Edição 03/Julho 2000 30/08/2011

A vida made in Samoa

A primeira reserva natural dos Estados Unidos no hemisfério sul, o parque de Samoa tenta preservar um arquipélago paradisíaco

por Douglas H. Chadwick

Randy Olson

Mergulhador apanha moluscos em uma ilha de Samoa

Randy Olson

Um mergulhador apanha moluscos e ouriços na ilha de Ofu, cujos recifes de coral estão entre os mais ricos do oceano Pacífico.

As águas do oceano Pacífico cobrem um terço do planeta. No meio dessa vastidão azul, nos mares da Polinésia, desponta uma pequena ilha conhecida como Ofu. Embora formada por imponentes blocos de rochas vulcânicas, Ofu é recoberta pelo verde intenso de sua exuberante vegetação tropical. Os contornos da ilha são um tanto suavizados pelas brumas que rondam o alto das montanhas, de onde rompem cataratas em direção ao mar.

Estou boiando a alguns metros da praia, as pontas dos dedos ancoradas bem de leve na areia. A poucos centímetros da minha máscara de mergulho, cardumes de peixes-gatilho nadam sobre colônias de coral.

Mantenho a parte superior da máscara acima da água, observando as gotas de chuva morrendo na superfície do mar. Mais além, palmeiras frondosas se espalham numa praia branca, no ponto onde Ofu se estreita em direção à sua ilha irmã, Olosega. Não há ninguém na praia. Apenas gordos caranguejos abrem cocos caídos com suas garras, para depois se fartarem com a polpa doce.

Eu bem poderia ficar assim, horas e horas numa mesma posição, apenas contemplando esse ainda desconhecido paraíso dos trópicos: o Parque Nacional da Samoa Americana, uma das mais espetaculares reservas naturais dos Estados Unidos. Escritas em samoano, tabuletas na entrada do parque recém-criado resumem parte do espírito desse lugar. Nelas está grafado: “Paka o Amerika Samoa” (Parque da Samoa Americana) e “Laufanua Fa‘asaoina” (Terra Preservada). Ouço depois os nativos dizerem que a própria palavra samoa significa “centro sagrado”. O estado selvagem da natureza daqui realmente justifica todas essas referências.

Compõem o arquipélago de Samoa 16 ilhas dispostas sobre o azul do Pacífico, 4200 quilômetros distantes das praias do Havaí e 2900 quilômetros além da costa da Nova Zelândia. Essas ilhas longínquas e suas orlas de coral são o topo de uma cadeia de vulcões que se ergueram do leito oceânico, jorrando lava à medida que as placas da crosta terrestre se deslocavam. Diz uma crença samoana que o mundo começou aqui: a partir de uma pedra, o criador Tagaloalagui fez surgir o céu, a terra e o mar. Depois o mesmo deus polinésio criou o primeiro ser humano.

As lendas ilustram bem o passado cercado de mistérios, os tempos a que remontaria a origem dos ilhéus. Os elos lingüísticos e os artefatos arqueológicos já encontrados sugerem que a primeira cultura polinésia pode ter se desenvolvido aqui, cerca de 3 mil anos atrás. Nos séculos seguintes, navegadores, viajando em barcos de quilha dupla carregados de porcos, cães e frutas, difundiram essa cultura pelo Pacífico, colonizando locais distantes como o Havaí e a ilha de Páscoa.

Os estrangeiros começaram a chegar – e ficar – na segunda metade do século 19, época em que algumas ilhas a oeste do arquipélago caíram sob domínio de colonizadores alemães e, depois, de neozelandeses. Em 1962 essas primeiras ilhas ocupadas se tornaram uma nação independente, a Samoa Ocidental, hoje conhecida apenas como Samoa. Já os Estados Unidos tomaram posse da metade oriental do arquipélago em 1900. A maior ilha desse trecho é Tutuila – a Marinha americana manteve ali uma base, no porto de Pago-Pago, até 1951. Cem quilômetros de mar separam Tutuila de Ofu, Olosega e Ta‘¯u, três ilhas conhecidas em conjunto como Manu‘a. Por muito tempo, Manu‘a foi um poderoso reino independente. E também é considerado o local do nascimento da Polinésia, de acordo com o folclore samoano.

Tutuila e Manu‘a formam a Samoa Americana, onde vivem hoje cerca de 64 mil pessoas. Um território que tem suas próprias leis, um governador eleito e um representante no Congresso americano.