As pistas de Darwin
Pistas encontradas em Galápagos levaram Darwin a concluir que a diversidade dos seres vivos se devia ao mecanismo de seleção natural
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Edição 107 - As pistas de Darwin - borboleta <em>Hypothyris ninonia daeta </em>
Mattias Klum
Uma borboleta Hypothyris ninonia daeta se destaca em uma folha na Mata Atlântica, no Brasil, uma das primeiras paradas que Charles Darwin fez como naturalista a bordo do HMS Beagle. Em seu diário, ele descreveu o encanto de suas primeiras incursões na natureza da América do Sul: "Depois de passar por algumas terras cultivadas, entramos em uma Floresta, cuja grandeza de todas as suas partes não pode ser excedida".
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Edição 107 - As pistas de Darwin - roedor <em>Mus darwini</em>
Foto de livro The Zoology of the Voyage of HMS Beagle; reproduzida com autorização de John Van Wyhe (ed.), The Complete Work of Charles Darwin Online
Na América do Sul, Darwin coletou 27 espécies de roedor, entre as quais o Mus darwinii. O vasto conjunto de espécimes que enviou para Londres a fim de serem estudados incluía 5 436 peles, ossos e carcaças.
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Edição 107- As pistas de Darwin - Mata Atlântica, Parque Estadual Carlos Botelho
Luciano Candisani, Minden Pictures
Mata Atlântica, Parque Estadual Carlos Botelho, São Paulo, Brasil. "O dia todo foi um deleite. No entanto, deleite é um termo fraco para expressar os sentimentos de um naturalista que, pela primeira vez, perambula sozinho por uma floresta brasileira." - A VIAGEM DO BEAGLE, 29 DE FEVEREIRO DE 1832
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Edição 107 - As pistas de Darwin - Preguiça-gigante Megatherium
Foto de livro The Zoology of the Voyage of HMS Beagle; reproduzida com autorização de John Van Wyhe (ed.), The Complete Work of Charles Darwin Online
Coletados por Darwin, os fósseis da preguiça-gigante Megatherium tinham dentes afiados, muito diferentes de suas parentes vivas e arbóreas.
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Edição 107 - As pistas de Darwin - Tartarugas-de-Galápagos na Caldera Alcedo, Ilha Isabela
Frans Lanting
Tartarugas-de-Galápagos na Caldera Alcedo, Ilha Isabela. "Junto das nascentes, era um intrigante espetáculo contemplar muitas dessas enormes criaturas, um grupo avançando com os pescoços esticados, outro retornando, após terem saciado a sede". 8 DE OUTUBRO DE 1835
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Edição 107 - As pistas de Darwin - Crânio de Toxodon
Foto de livro The Zoology of the Voyage of HMS Beagle; reproduzida com autorização de John Van Wyhe (ed.), The Complete Work of Charles Darwin Online
Com um crânio que lembrava tanto um rato como um elefante, o Toxodon deixou perplexo Darwin, que o considerou "um dos animais mais estranhos já descobertos".
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Edição 107 - As pistas de Darwin - Herbívoro extinto de <em>Toxodon platensis</em>.
Foto de livro The Zoology of the Voyage of HMS Beagle; reproduzida com autorização de John Van Wyhe (ed.), The Complete Work of Charles Darwin Online
No Uruguai, Darwin pagou a um agricultor 18 pence pela "cabeça de um animal grande como um hipopótamo". Os cientistas batizaram o herbívoro extinto de Toxodon platensis.
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Edição -107- Pistas de Darwin - Baía Pia, Terra do Fogo, Chile
Peter Essick
Baía Pia, Terra do Fogo, Chile. "É quase impossível imaginar outra coisa mais bela que o azul de berílio dessas geleiras, sobretudo quando contrastam com o branco profundo da zona superior nevada". 29 DE JANEIRO DE 1833
A viagem do jovem Charles Darwin a bordo do navio britânico HMS Beagle, durante os anos 1831 a 1836, é um dos episódios mais conhecidos e romanceados em toda a história da ciência. Darwin embarcou no Beagle como naturalista, visitou o arquipélago de Galápagos, na região leste do oceano Pacífico, e ali topou com tartarugas gigantes e tentilhões. Havia várias espécies dessa ave, e elas distinguiam-se pelo formato variado do bico, sugerindo que cada qual era apropriado a uma dieta especí8 ca. E as tartarugas, de uma ilha para outra, também exibiam carapaças com formas diferentes. Tais pistas encontradas em Galápagos levaram Darwin a concluir que a diversidade dos seres vivos na Terra se devia a um processo orgânico de transmissão hereditária de modi8 cações – ou seja, um processo de evolução –, baseado em um mecanismo de seleção natural. Darwin escreveu então um livro intitulado A Origem das Espécies, e convenceu todo mundo, com exceção dos líderes da Igreja Anglicana, que era assim que as coisas haviam ocorrido.
Bem, mais ou menos. Esse relato simplista da viagem do Beagle e suas consequências contêm boa dose de verdade, mas também confundem, distorcem e omitem muita coisa. Por exemplo, os tentilhões não foram tão esclarecedores quanto à diversidade de sabiazinhos existentes no arquipélago, e Darwin não conseguiu tirar nenhuma conclusão com base neles antes de recorrer à ajuda de um especialista em aves na Inglaterra. A escala em Galápagos foi uma breve anomalia no final de uma expedição dedicada sobretudo ao levantamento do litoral da América do Sul. Além disso, Darwin não embarcou no Beagle como naturalista da expedição; ele não passava de um rapaz de 22 anos, recém-formado pela Universidade de Cambridge e destinado a uma carreira como clérigo rural – perspectiva que não o animava muito. Na verdade, ele foi convidado a participar da viagem para servir de companhia ao capitão do barco, Robert Fitzroy, um jovem brilhante e instável aristocrata.
Darwin, a despeito de sua função oficial no navio, acabou desempenhando o papel de naturalista e, no decorrer da viagem, passou a se ver como tal. No entanto, a sua teoria foi se delineando, e A Origem das Espécies (cujo título completo era Da Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural, ou a Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Vida) apenas seria publicado em 1859. Muitos cientistas, assim como alguns clérigos vitorianos, resistiram durante décadas às evidências e aos argumentos por ele propostos. O conceito de evolução foi bem-aceito enquanto Darwin ainda vivia, mas a sua teoria específica – na qual a seleção natural era a causa primordial – somente iria triunfar por volta de 1940, após ter sido integrada com êxito à genética.
O primeiro indício importante que colocou Darwin no rastro da evolução, na realidade, não surgiu nas selvagens ilhas Galápagos, mas três anos antes em uma tempestuosa praia no litoral norte da Argentina. Não tinha nada a ver com o formato do bico das aves. Nem sequer com alguma criatura viva. Era uma jazida de fósseis.
Luciano Candisani, Minden Pictures
Em Setembro de 1832, o Beagle ancorou ao largo de Bahía Blanca, um povoado na extremidade de uma baía situada cerca de 650 quilômetros ao sul de Buenos Aires. Na época, o general Rosas travava uma guerra inclemente contra os indígenas da região, e Bahía Blanca era um posto avançado e fortificado, guarnecido por militares. Durante mais de um mês o Beagle permaneceu ali, com alguns dos tripulantes realizando levantamentos, outros se encarregando de tarefas em terra firme – como assegurar o reabastecimento de água, lenha e alimentos. A paisagem circundante eram os pampas argentinos, férteis campos relvados que, perto da costa, davam lugar a dunas de areias estabilizadas por gramíneas. Os tripulantes que se embrenhavam no interior retornavam com veados, cutias e outros animais, entre os quais vários tatus e uma grande ave que não voava, a qual Darwin chamou de “avestruz”. Claro que não era um avestruz (que é nativo da África e, antes, do Oriente Médio) – mas sim uma ema, especificamente uma Rhea americana, parecida com o avestruz e endêmica na América do Sul, onde é a ave mais pesada do continente.
“O que comemos hoje no jantar iria parecer muito bizarro na Inglaterra”, anotou Darwin em seu diário em 18 de setembro, deleitando-se com os “bolinhos de avestruz & tatu”. Ele estava mergulhado em uma aventura exótica, e não apenas em uma expedição de história natural; e o diário que manteve a bordo (mais tarde transformado em um livro de viagens que viria a ser conhecido como A Viagem do Beagle) reflete seu interesse por distintas culturas, povos, políticas e assuntos científicos. A carne vermelha da ave de tamanho avantajado lembrava a bovina. O tatu, despojado de sua carapaça, tinha o mesmo gosto e se assemelhava a pato. Suas experiências culinárias nos pampas, e depois na Patagônia, acabariam desempenhando papel crucial no desenvolvimento de suas ideias sobre a evolução.
Pouco depois, em 22 de setembro de 1832, Darwin e Fitzroy tomaram um pequeno barco para visitar um local conhecido como Punta Alta, a 16 quilômetros de onde estava fundeado o Beagle, no qual toparam com afloramentos rochosos próximos do mar. “Esses foram os primeiros que vi”, escreveu Darwin, “e são muito interessantes, pois contêm incontáveis conchas e ossadas de grandes animais.”
A despeito do nome, Punta Alta não era muito elevada, com sua escarpa avermelhada de xisto limoso assomando apenas 6 metros acima do mar. No entanto, o mesmo não se poderia dizer dos fósseis ali expostos: formas de grande porte, inusitadas e em abundância. Darwin e um ajudante logo atacaram a rocha mole com picaretas. Nessa oportunidade e em ocasiões posteriores, ele conseguiu recolher de Punta Alta os restos de nove mamíferos de grande porte, todos desconhecidos ou mal conhecidos pelos cientistas. Eram gigantes extintos do Pleistoceno, encontrados apenas nas Américas em uma época anterior a 12 mil anos atrás.
