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Edição 143/Fevereiro de 2011 27/01/2012

Astana, a nova capital do Cazaquistão

Astana é audaz e extravagante - uma atração irresistível para jovens empreendedores em busca de sucesso

por John Lancaster

Na nova capital do cazaquistão não faltam edifícios exóticos, alguns bem descritos por irreverentes apelidos locais: Banana (um vistoso prédio comercial amarelo), Sete Barris (um conjunto de prédios de apartamento), Isqueiro (o Ministério dos Transportes e Comunicações). Mas uma dessas construções, um monumento nacional chamado Baiterek, não inspira apelidos, pela simples razão de que não se parece com nada. Pelo menos, nada deste planeta.

O Baiterek, que significa “Álamo Alto” em cazaque, é uma torre de 97 metros, reforçada por um exoesqueleto de aço pintado de branco. No topo há uma esfera de vidro dourada. Diz a epígrafe em sua base que o monumento representa o mito cazaque de Samruk, uma ave sagrada que todo ano põe um ovo de ouro – o Sol – na copa de uma gigantesca árvore da vida. Quem o concebeu? Nada menos que Nursultan Nazarbayev, o metalúrgico que galgou o poder e governa o país com mão de ferro desde a independência da União Soviética, em 1991. Dizem que ele fez o esboço original em um guardanapo de papel.

Assim como o czar setecentista Pedro, o Grande, desenvolveu um trecho pantanoso na costa do mar Báltico e imprimiu sua marca em São Petersburgo, a sede nacional do poder da Rússia imperial, também Nazarbayev escolheu um lugar remoto para fincar a bandeira do novo Cazaquistão. Não importa que a capital anterior, Almaty, fosse uma paragem agradável, de clima temperado, que poucos habitantes além do presidente desejavam deixar. Em fins de 1997, o governo mudou-se para a gelada e ventosa Aqmola, quase mil quilômetros ao norte, na estepe árida e sem árvores da Ásia Central. A cidade foi rebatizada de Astana – “Capital”, na língua cazaque –, uma mudança que é comemorada todo 6 de julho, no Dia de Astana, que coincide, não por acaso, com o aniversário de Nazarbayev.

Rico em petróleo e outros recursos minerais, o Cazaquistão esbanjou milhões na nova capital, convidando alguns dos mais renomados arquitetos do mundo a exibir seu trabalho na margem esquerda do rio Esil, que separa a “cidade nova”, administrativa, do distrito mais antigo, na margem direita, cheio de construções no estilo soviético. Os resultados são ecléticos e chamativos, e não agradam a todos os gostos. Porém, amada ou odiada, Astana veio para ficar, e sua população inflou de 300 mil para mais de 700 mil em uma década. Pelo caminho, o lugar tornou-se um cartaz do nacionalismo e das aspirações cazaques: não apenas uma cidade, mas um anúncio.

Outras capitais tiveram origens semelhantes, inclusive, é claro, São Petersburgo, que o escritor Fiódor Dostoiévski descreveu como “a mais teórica e intencional cidade de todo o globo terrestre”. Não foi um elogio. Mas por fim a cidade russa ganhou vida própria, resistiu e prosperou. Astana fará o mesmo?

Yernar Zharkeshov, de 24 anos, é um dos que não têm dúvida. Alinhado, de calça cáqui nova e camiseta polo, ele vem almoçar comigo em um restaurante caro no bulevar Nurzhol (“Caminho Radiante”), no centro da capital. Aparece acompanhado por uma linda moça chamada Michelle, que está de visita vinda de Cingapura, onde Zharkeshov há pouco concluiu seu mestrado em políticas públicas. Ele capricha no cardápio típico: pede salsichas de cavalo e koumiss, o leite de égua fermentado e levemente alcoólico que é a bebida nacional cazaque, e se diverte observando enquanto Michelle experimenta, ressabiada, alguns goles antes de passar a bebida para ele.

Zharkeshov adquiriu seus gostos pela via legítima.Filho de uma ex-autoridade do Partido Comunista, é membro de um grupo étnico cazaque que compõe mais de 60% da população de 16 milhões no país. Famosos como hábeis cavaleiros, os cazaques levaram uma vida de nômades por séculos, antes de que sua vasta e deserta terra natal, quase do tamanho da Europa, fosse absorvida pelos tentáculos do império soviético. A família Zharkeshov, porém, trabalhou muito para preservar suas tradições centro-asiáticas. Mantiveram rebanhos em seu vilarejo a sudeste de Astana, onde Yernar tangia ovelhas a cavalo e fazia koumiss defumado com ervas silvestres da estepe em uma batedeira de bétula.

Seis anos após o colapso da União Soviética, Zharkeshov mudou-se com os pais e quatro irmãos para a nova capital, onde seu pai trabalhou para uma companhia de seguros e mais tarde adquiriu um balneário. Zharkeshov cresceu falando cazaque, mas, aos 15 anos, já dominava o russo – que era então, como agora, a língua predominante nas áreas urbanas do Cazaquistão – e o inglês. Por fim, ganhou uma bolsa do governo para estudar na Inglaterra, na qual se formou, antes de ir para Cingapura. Agora ele regressou a Astana em busca de emprego.