Inspirando as pessoas a cuidar do planeta desde 1888 | Saiba mais »

Edição 117/Dezembro de 2009 02/12/2011

O chamado da montanha sagrada  

A antiga comunidade monástica do monte Athos, na Grécia, atrai homens com fome espiritual

por Robert Draper Fonte: NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Travis Dove

Monge cristão colhendo caquis na ilha de Athos, no norte da Grécia

Travis Dove

Apanhando caquis, um monge cristão ortodoxo leva uma vida parecida com a de seus confrades de mil anos atrás

A península sagrada do monte Athos avança 50 quilômetros para dentro do mar Egeu, feito um apêndice lutando para se destacar do corpo secular no nordeste da Grécia. Nos últimos mil anos, uma comunidade de monges da Igreja Ortodoxa do Oriente habita a região procurando se afastar de tudo que não seja Deus.

Seu enclave, marcado por ondas violentas, densas florestas de castanheiros e o espectro rajado de neve do monte Athos, de 2 033 metros, é a própria essência do isolamento. Vivendo em algum dos 20 monastérios, em um dos 12 claustros autônomos dentro deles, os quais abrangem, no total, centenas de celas, os monges se isolam até mesmo uns dos outros. Ostentando pesadas barbas e trajes negros gastos, sinalizando sua morte para o mundo, parecem saídos de um afresco bizantino. Eles constituem uma fraternidade ritualística imperecível, de radical simplicidade, em constante devoção a Deus - não obstante suas imperfeições. Sim, pois existe a consciência, como explica um monge ancião, de que, "mesmo no monte Athos, somos seres humanos a caminhar a cada dia no fio da navalha".

São todos homens. De acordo com os costumes, mulheres estão proibidas de visitar o lugar desde seus primórdios, uma postura nascida antes da fraqueza que do despeito. Como diz um monge, "se as mulheres pudessem vir, dois terços de nós partiriam com elas para se casar".

O monge corta os laços com sua mãe para estabelecer outros com a Virgem Maria, figura sagrada que, reza a lenda, teve seu barco desgarrado pelos ventos ao navegar para Chipre, indo parar no monte Athos. Ali abençoou seus habitantes pagãos, que se converteram ao cristianismo. Cada monge cria uma ligação com o abade de seu monastério ou com o companheiro mais velho de cela, que se torna seu pai espiritual e o ajuda a estabelecer "um relacionamento pessoal com Cristo", como frisa um deles.

O afastamento ou a morte de uma dessas eminências podem ser penosos para os mais novos. Por outro lado, a decisão de um jovem de retornar ao mundo exterior também pode ser traumática. "No ano passado, um deles se foi, sem pedir minha opinião", diz um monge idoso, num tom que denuncia o ressentimento paterno. "Sendo assim, melhor mesmo que se tenha ido."

Os monges cristãos (a palavra monge deriva do grego monos, ou "singular"), inicialmente, formavam refúgios coletivos, ou monastérios, no deserto egípcio, durante o quarto século. A prática disseminou-se pelo Oriente Médio e pela Europa, sendo que, lá pelo nono século, os eremitas chegaram ao Athos. A partir daí, à medida que a civilização se tornava mais complexa, multiplicavam-se os motivos para se manter distância da sociedade e optar pela vida monástica. De fato, depois que duas guerras mundiais e o evento do comunismo (o qual impedia a emigração da Rússia e do Leste Europeu) reduziram a população dos monastérios para 1 145 pessoas em 1971, as últimas décadas assistiram a um renascimento. Um fluxo constante de jovens - muitos graduados em universidades e em bom número advindos do ex-bloco soviético - fez inflar os quadros do monte Athos para cerca de 2 mil monges e noviços. Ao mesmo tempo, a entrada da Grécia na União Europeia, em 1981, habilitou a península a receber fundos de preservação.

"Há 2 mil histórias aqui, cada qual descrevendo um percurso espiritual", diz o padre Maximos, cujo próprio caminho se iniciou em Long Island quando ele, adolescente, era devoto de músicos da vanguarda pop, como Lou Reed e Leonard Cohen, antes de se tornar professor de teologia em Harvard para, em seguida, optar por "viver mais próximo de Deus".

Muitas dessas jornadas começam de forma atribulada. Um garoto ateniense foge de casa. Daí, quando seu irmão aporta no monte Athos para buscá-lo, o rapazote adverte: "Vou fugir de novo". O filho de um merceeiro de Pittsburgh, nos Estados Unidos, surpreende os pais com sua decisão, a qual, dois anos depois, ele reconhece que pode ser temporária, argumentando: "Quem há de saber quais são os planos de Deus?"